Só destruição

Juca Ferreira: governo declarou guerra à cultura e à arte no Brasil

Para ex-ministro, Regina Duarte é só um detalhe. “Eles não têm propostas, nem sabem como construí-las”

Wilson Dias/Agência Brasil
Atual equipe é de demolição, lamenta ex-ministro: 'Um desastre para o país'

São Paulo – João Luiz Silva Ferreira, mais conhecido como Juca Ferreira, 71 anos, escapou da covid-19, mas recentemente foi pego pela dengue. Agora está “muito bem”, conta, curado há um mês. “Espero que os mosquitos e muriçocas me deixem em paz ou o governo cuide delas”, diz o ex-ministro da Cultura e também ex-secretário municipal, em São Paulo e Belo Horizonte.

Por falar em governo, Juca acredita que o atual está empenhado, basicamente, em destruir tudo o que se fez desde a era Vargas, em todas as áreas, “acabando com os programas, com instituições inteiras, projetos e políticas culturais”. Um desastre para o país, resume. “A retomada não será fácil.”

Segundo ele, Bolsonaro declarou guerra à cultura e à arte. Mas ele mantém otimismo: “O Brasil é maior do que esse projeto medíocre e nefasto”.

O governo nomeou meses atrás um presidente da Funarte, que assumiu falando em rock e aborto. Foi dispensado com a posse da secretária Regina Duarte. Meses depois, foi trazido de volta, em ato da Casa Civil, e “demitido” novamente, no mesmo dia. Como o sr. vê esse vaivém? É um bom exemplo de falta de gestão?

Bolsonaro acabou o Ministério da Cultura e está destruindo tudo que foi construído desde Getúlio Vargas. Um desastre para o país. Vem cortando os orçamentos, desestruturando as equipes de trabalho, acabando com os programas, com instituições inteiras, projetos e políticas culturais.

Vem montando uma equipe de demolição. Diga-se de passagem, não só na cultura. Agora está tentando destruir o Iphan, a Cinemateca, a Fundação Casa Rui Barbosa e a (Fundação) Palmares. Um horror! A ex-namoradinha do Brasil é só um detalhe. Eles não têm propostas, nem sabem como construí-las.

Por falar em Regina Duarte, ela acaba de deixar a Secretaria. É um governo de alta rotatividade? E até agora não foi confirmado um substituto.

E quando anunciar você vai ver que será do mesmo naipe. Incompetente e despreparado, mais afeito a destruir do que contribuir com o país.

Nestes quase 18 meses de governo, independentemente de nomes, o sr. consegue identificar alguma política cultural, clara ou esboçada?

O governo de Bolsonaro declarou guerra à cultura e à arte e ao Brasil. Querem restabelecer a censura, perseguem e caluniam artistas e intelectuais. Não podemos esquecer que estão querendo destruir nossas universidades também e estão negando a ciência e o conhecimento. Parece um pesadelo. O povo brasileiro e seus artistas não merecem isso.

Como vê as constantes manifestações em redes sociais atribuindo as críticas de artistas ao governo como sendo de “ressentidos” que perderam a “mamata”, referindo-se à Lei Rouanet?

Uma bobagem, fake news ditas propositalmente para manipular a opinião pública.

Cancelamento de editais por suposto teor ideológico, redução de chamamentos da Ancine, mudanças na Rouanet, retirada de cartazes de filmes, cortes orçamentários, titular da Fundação Palmares contestando Palmares. O que ficou para a Cultura? Há alguma construção em curso ou é só destruição, do ponto de vista material ou mesmo simbólico?

Só destruição.

Desde que o sr. assumiu o Minc pela primeira vez, o número de pessoas com acesso à internet se multiplicou, surgiram ferramentas como Netflix, Spotify… Como pensar em políticas nesse contexto, a quem elas devem ser direcionadas, prioritariamente?

Nós estávamos trabalhando duramente nesse tema. Deixamos muita coisa pronta ou em processo. Tipo direito autoral na internet, uso cultural da tecnologia digital pelos grupos culturais, política de incentivo do cinema de animação e games etc…

Em evento há alguns anos, o sr. relatou conversas difíceis com a área econômica do governo, quando ministro. Mas observou que o problema não se trata apenas de austeridade, mas falta de acesso à cultura, que não é vista como um direito básico. É isso mesmo? No Brasil, ainda é para poucos?

Sim. O IBGE e o Ipea nos deram números bastante expressivos do apartheid cultural do Brasil. Coisas do tipo: mais de 80% dos municípios brasileiros não têm nem uma biblioteca pública, não têm cinema, nem teatro. A média de leitura do Brasil é 1,7 livro/ per capita por ano, o que nos coloca atrás da maioria dos países pobres da América Latina.

(Pergunta de Oswaldo Colibri Vitta, da Rádio Brasil Atual) Com o cancelamento das festas de São João e até do carnaval do ano que vem, os artistas (incluindo os técnicos) que vivem desses eventos estarão desamparados. Alguns estados, como o Ceará, estão implementando políticas públicas de emergência, sem burocracias, para atender esse pessoal que até está passando fome. São Paulo (estado e capital) faz contingenciamento de verbas da cultura. Em nível federal, não há nenhuma perspectiva. A cultura já era criminalizada antes do coronavírus. Quais são os caminhos para a sobrevivência dos artistas e da cultura no pós pandemia?

E o Senado está para votar um projeto de ajuda emergencial para o setor, após passar pela Câmara

Não resolve, mas mitiga os impactos negativos da pandemia. Precisaremos discutir o pós-pandemia. Não vai ser fácil a retomada. Estou propondo que o Consórcio do Nordeste crie uma frente, como criou para a ciência e a tecnologia para fazer frente à atual situação e alavancar o setor.

O sr. retornou ao Ministério da Cultura em 2015. Por mais que a política e mundo deem voltas, dava para imaginar tanta mudança na realidade brasileira em apenas cinco anos? Dá para consertar tudo? Por estes dias, o sr. falou que a radicalização levará o país a um período de turbulência e acrescentou citando Raul Seixas. Mantém o otimismo, apesar de tudo?

Sim. O Brasil é maior do que esse projeto medíocre e nefasto. Temos que passar o mais rápido possível esse lapso e retornar à normalidade democrática.