Insegurança alimentar

Mais do que matar a fome, cozinhas solidárias são espaços de resistência

Boulos e Paola Carosella defendem que esses pontos sejam transformados em centros de apoio, convívência e militância por um novo modelo de vida e alimentação

Divulgação/MTST
O MTST já inaugurou cinco cozinhas (SP, RJ, DF, AL e RO). E pretende chegar a 16 até o final de abril

São Paulo – As cozinhas solidárias são mais do que uma iniciativa emergencial de enfrentamento à crescente insegurança alimentar, especialmente a partir da crise acentuada pela pandemia. Para Guilherme Boulos e Paola Carosella, são verdadeiros espaços de resistência em tempos de Jair Bolsonaro e sua insensibilidade à doença, à fome e à morte.

O Brasil já tinha mais de 126 milhões de pessoas que não podem se alimentar como deveriam ou com alguma incerteza quanto ao acesso às próximas refeições no final de 2020. É o que mostrou uma pesquisa coordenado pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Brasília (UnB).

“O momento é muito duro, há um grande sentimento de impotência nesse momento que não podemos nem ir para as ruas. Além disso a fome é desmobilizadora. Mas é preciso esperançar. Visito as cozinhas solidárias não só como atividade de militância, mas porque aquece meu coração. Cozinhas solidárias são espaços de resistência”, disse o coordenador do Movimento dos Trabalhadores sem Teto, que já inaugurou cinco cozinhas. Foram criadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Alagoas e Roraima. Até o final de abril serão abertas 16 cozinhas em 11 estados brasileiros.

Fome já era prevista

O agravamento da insegurança alimentar já era previsto, conforme lembrou a cozinheira, empresária e ativista social Paola Carosella, em bate papo virtual com Boulos promovido pela Mídia Ninja na noite deste sábado. Para ela, o prolongamento da pandemia de covid-19, o aprofundamento da crise econômica e o abandono de famílias vulneráveis, sem emprego e renda, trabalhadores informais e donos de pequenos negócios começaram junto com a chegada do coronavírus no Brasil.

“Já dava para prever. Em março do ano passado eu já fazia articulações com produtores do cinturão verde, que precisavam vender sua produção, embora muitos restaurantes tinham fechado. Nada mudou. Não tem auxílio emergencial, nem políticas do governo federal. Não tem nada.”

Para completar, o Brasil assiste ao desmonte das políticas públicas de segurança alimentar a partir de 2016, com o governo de Michel Temer (MDB-SP). Os programas de estímulo à produção de alimentos pela agricultura familiar foram minguando, assim como as políticas de escoamento desses produtos. “Não há sequer estoques reguladores de alimentos na Conab. Frei Sérgio, da coordenação do Movimento dos Pequenos Agricultores, nosso parceiro, disse recentemente que o feijão estocado, se fosse distribuído a toda a população, daria para apenas um dia. A fome não é só culpa da pandemia”, completou Boulos.

Cozinhas nas escolas

As iniciativas de organizações e principalmente de pessoas que estão fazendo marmitas em casa para distribuir na comunidade foram elogiadas por Paola. No entanto, ela cobrou do poder público. “As escolas que estão fechadas têm cozinhas. Por que não são abertas. Temos cozinhas e redes de compra, por meio do programa nacional de merenda escolar. É mais comida no prato”, disse, ressaltando que a fome não deve ir embora tão cedo.

Por isso, ela sugeriu que as cozinhas solidárias sejam estimuladas e organizadas em rede, articuladas com hortas urbanas e agricultura sustentável, sem agrotóxicos, porque “plantar e cozinhar é revolucionário”. E quando toda essa crise passar, esses espaços serão o embrião para o resgate da vida comunitária, onde as pessoas possam se juntar para cozinhar, comer e ter um novo modo de vida.

Paola e Boulos: cozinhas solidárias são motivo para esperançar. (Foto: Reprodução)