Contribuição ao genocídio

Após decisão de Nunes Marques, fiéis aglomeram em culto de Páscoa

Cerimônia realizada pelo pastor Valdomiro Santiago registrou descumprimento dos protocolos de segurança contra a covid-19

Divulgação/IMPD
Valdomiro saudou decisão do ministro Nunes Marques que autorizou a realização de cultos e missas presenciais

São Paulo – Uma multidão de fiéis se aglomerou em um culto presencial de Páscoa neste domingo (4) na Igreja Mundial do Poder de Deus, no Brás, em São Paulo. A cerimônia, que também contou com transmissão online, foi comandada pelo bispo Valdomiro Santiago, líder da congregação, durante a manhã. Ele saudou a decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou realização de cultos e missas, em decisão liminar no sábado. A liminar de Nunes Marques contraria decisão anterior do STF, que por unanimidade conferiu a estados e municípios autonomia para adotar medidas restritivas. Para Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, o ministro deu “sua contribuição ao genocídio brasileiro“.

Pelas imagens da transmissão, é possível constatar que a ocupação máxima de 25% da capacidade do público – conforme consta da decisão de Nunes Marques – não foi devidamente respeitada. Além disso, dois em cada três assentos deveriam desocupados. Mas esse protocolo de segurança também foi desrespeitado por pessoas que acompanhavam a celebração no fundo do templo. Fiéis ainda foram flagrados sem máscara ou fazendo uso inadequado do equipamento de proteção.

Além da aglomeração e da longa permanência em espaços fechados, os cantos e orações em voz alta também fazem dos cultos e missas locais de alto risco para a contaminação pelo novo coronavírus. No domingo de Páscoa, 29.962 pacientes estavam internados em todo o estado de São Paulo. Destes, 13 mil em leitos de UTIs, que registraram ocupação superior a 91%. Desde o início da pandemia, o estado acumula 77.020 vítimas fatais da doença.

Loucura santa

Apesar do agravamento da doença em todo o país, Valdomiro comemorou a realização da cerimônia. “Foi determinado por um ministro que as igrejas voltassem a ministrar culto. Mas o mérito não é do ministro, é de Deus”, afirmou no início da celebração. Ele também criticou o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, que havia dito que não acataria a decisão de Nunes Marques. “Todo mundo que deseja enfrentar Deus é louco. Porque isso foi ordem de Deus”, criticou o religioso. Desde o ano passado, Valdomiro também vem causando polêmica ao promover a venda de “feijões mágicos” que teriam a propriedade de curar doentes com a covid-19, entre outros males.

Mais tarde, o prefeito Alexandre Kalil voltou atrás, acatando a decisão do ministro, mas anunciou que vai recorrer ao plenário do STF contra a liberação de cultos e missas em meio ao agravamento da pandemia.

Contudo, ao confrontar a decisão de Nunes Marques, Kalil virou alvo dos robôs e milícias virtuais bolsonaristas nas redes sociais. O deputado federal Junio Amaral (PSL-MG) chegou a chamar o prefeito de “ditadorzinho”, comparando-o ao governador de São Paulo, João Doria, que se tornou desafeto dos grupos radicais ligados ao presidente da República. Já o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que também é pastor, disse que os ministros do STF teriam plantado “insegurança jurídica” e, agora, estariam colhendo “anarquia”.

Outras Igrejas

Entidades evangélicas, como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) e a Aliança de Batistas do Brasil (ABB), se opuseram à realização de celebrações presenciais, mesmo durante o feriado religioso. Já Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) disse seguir as decisões governamentais e frisou que a determinação sobre o funcionamento das igrejas católicas caberia a cada uma das arquidioceses. Em sua página no Facebook, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito já havia criticado, no sábado, a decisão de Nunes Marques. “O ministro (evangélico) do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes deu sua contribuição ao genocídio brasileiro, permitindo todos os templos religiosos abertos”, afirmou a frente.

Guerra jurídica

Após a decisão do ministro, atendendo a pedido da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), a discussão sobre a legalidade da realização de cultos e missas durante a pandemia deve voltar ao STF. A liminar de Nunes Marques foi criticada pelos colegas. “Aonde vamos parar? Tempos estranhos!”, criticou o decano Marco Aurélio Mello. Gilmar Mendes e Alexandre de Morais também já haviam se pronunciado contrariamente à liberação em outras ocasiões.

A ação movida pela prefeitura de Belo Horizonte foi endereçada ao presidente do STF, Luiz Fux. Mas, para evitar o desgaste causado pela derrubada da decisão de Nunes Marques, Fux deve remeter a ação ao plenário da Corte.


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