Reconexão

Cultura política nas periferias: estratégia de reexistência para dizer sim à vida

Livro lançado pelo selo Reconexão Periferias, da Fundação Perseu Abramo, projeta vozes de todo o Brasil falando da periferia para a periferia

Ricardo Vaz
Com seu sarau, há quase 20 anos a Cooperifa é um dos principais grupos de vanguarda na produção cultural periférica do país

São Paulo – Resistir e reexistir todos os dias, é disso que trata o livro Cultura Política nas Periferias, em que ativistas, intelectuais, artistas, educadores de todo o Brasil narram projetos, intervenções e efeitos dessa participação política e cultural. “São mulheres e homens de vários cantos do Brasil que têm em comum a luta por mais direitos e por uma vida mais justa para todas as pessoas”, explica a introdução da obra, que será lançada nesta segunda-feira (29). O livro é uma produção do selo Reconexão Periferias, da Fundação Perseu Abramo (FPA), criado em 2018 após “calorosos debates sobre o conceito de periferias, sua abrangência e significados (político, territorial, cultural, demográfico)”.

Assim, a ideia de periferia não se resume a favelas ou comunidades das grandes metrópoles, mas, informa a FPA, à nova configuração de classes no Brasil, segregada territorialmente nas capitais, campos, interiores, na floresta e territórios ribeirinhos. “É preciso conhecer quem são esses atores e movimentos, como se organizam, quais seus anseios e sonhos, quais problemas sociais os mobilizam.”

Cultura Política nas Periferias é fruto desse compromisso, porque agrega experiências, histórias, ações documentadas. “E que têm reverberações, não só para dentro, mas também para fora dessas comunidades. E que a gente quer, influencie políticas públicas, de preferência com a gente no poder”, explica a responsável pela organização do livro, a professora Ana Lúcia Silva Souza, com exclusividade para a RBA. Ativista de movimentos negros e educadora, Ana Lúcia é doutora em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas e cientista política pela Escola de Sociologia e Política do Estado de São Paulo.

Lugar político de existir

“Quando estou pensando reexistência, estou pensando nas estratégias seculares que as populações socialmente minorizadas engendram para viver. Não necessariamente para somente responder às demandas, mas também no sentido de trazer uma inventividade, criação fundamental para que vivam em meio a muitas adversidades. O livro todo traz isso. Vários grupos, várias áreas falando como têm feito, sobrevivido, enfrentado as questões. E mais que isso, buscado um lugar político, de existir novamente”, afirma Ana Lúcia, que dá aulas na Universidade Federal da Bahia e atua na Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN).


População negra da periferia de São Paulo é a mais afetada pela pandemia


Com 414 páginas e 23 capítulos, o livro traz eixos para essa discussão tão fundamental à sociedade brasileira. “A juventude, os coletivos, as tradições reinventadas. Como é que você pensa a capoeira, o samba como uma estratégia de reexistência trazendo esse lugar de aprender, de fazer. Esse lugar que a gente quer seja considerado um lugar de debate, de formulações, de pautas para incidência nas políticas públicas”, considera a professora.

“Tem também a educação publica, a educação básica. E os usos sociais da linguagem, pensando não só o falar, mas essa comunicação necessária entre os diferentes sujeitos envolvidos. Estamos falando dessa reinvenção de vida pensada como uma ação de tomar posse dessas historicidades, dessas heranças todas. Uma ressignificação disso tudo de forma que a gente se aproprie e saia para a luta todos os dias fazendo desse cotidiano nossas agências de aprendizado e ao mesmo tempo de luta que podem nos reposicionar identitária e politicamente, trazendo todos esses elementos para dizer sim à vida. É só o que a gente quer, a gente quer é viver.”

Texto vida

Para Ana Lúcia, dois capítulos em especial descrevem essa questão das estratégias de reexistência nas periferias. “Eu elegeria talvez os negros surdos, o artigo que fala sobre a surdez. É uma questão pouco discutida no Brasil. E a esquerda acho que também discute muito pouco essa questão: pensar essa grande pauta da acessibilidade”, diz. “Uma outra é o genocídio da população negra. O artigo que abre o livro sob o título #Paremdenos matar: a cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil. Essa questão perpassa todos os artigos: juventude, juventude nos terreiros, nos coletivos, nas universidades.”


Quando a gente fala de periferias, fala de uma legião de gente. Se esse texto fala sobre um projeto, roda de capoeira, de slam, fala de um mundo de gente, que agora fala, em primeira pessoa


A produção o livro levou mais de um ano. “Começamos no final do ano de 2019. Fomos pegos de surpresa pela pandemia. Nesse tempo todo ficamos nessa ciranda. Termina um texto, volta, lê, conversa. Foi muito bom, muito prazeroso. Muitas pessoas não conseguiram entregar o texto, mas certamente são texto vida e em algum momento eles virão à tona.”

Leia o livro

Quantas pessoas foram envolvidas?

Há um diferencial muito bonito nesse livro. Alguns artigos têm 10 pessoas envolvidas. Se duas assinam, no entanto 10 estão envolvidas. Seja como poetas que trouxeram sua produção para dentro desse texto, ou grupos de estudo. Tem mais de 40 autores, mas certamente pelo menos o dobro de pessoas envolvidas. Quando a gente fala de periferias, falamos de uma legião de gente. Se esse texto está falando sobre um projeto, uma roda de capoeira, uma roda de slam, ele tá falando sobre diversos aspectos de interseccionalidade. Está falando de um mundo de gente, que agora fala, em primeira pessoa.  

Qual a importância de um projeto como esse?

Como diz o título do projeto, a importância é a reconexão. E aí a gente já tem, tanto o objetivo, como uma crítica. Uma conexão que ainda não se deu ou se perdeu. E o objetivo de que essa reconexão seja feita, seja reestabelecida. Então, esse projeto é importante porque ele traz a voz dessas pessoas. Não que alguém vai dar a voz. São essas pessoas projetando essa voz. Essa voz pensada como ação, prática social, coletividade. E que a gente quer que influencie um projeto de nação. Um projeto tão necessitado, que a gente sabe e está sentindo na pele. Em especial nas peles negras, nas peles de mulheres, nas peles de pessoas e grupos que são socialmente minorizados.


Nesse momento a gente precisa ouvir as nossas vozes, as nossas narrativas. Para algumas pessoas é a primeira vez de uma escrita em um livro.


Como os diferentes “atores” envolvidos nesse projeto reagem à criação desse material?

Com alegria, com um esperançar de fazer. Nesse momento a gente precisa ouvir as nossas vozes, as nossas narrativas. Para algumas pessoas é a primeira vez de uma escrita em um livro. De uma escrita com essa potencia, com essa projeção. E isso também é importante a gente pensar: de que maneira a linguagem, a escrita, nos seus mais diferentes formatos, como a gente vai poder encontrar nesse livro, ela se torna importante pra colocarmos para o mundo o que nós fazemos, como nós fazemos, como nós queremos, o que nós precisamos. Então, são intelectuais, são ativistas, são acadêmicos, não acadêmicos, acadêmicas em especial dizendo que a gente quer um outro Brasil, uma outra nação.

É o primeiro de muitos? É preciso saber e conhecer mais as periferias. O livro dá cabo de uma parte dessa tarefa?

Acho que sim. E a gente pode pensar que os materiais estão saindo com uma linguagem em diferentes formatos, diferentes canais de comunicação. Se a gente tem esse livro saindo em e-book, começa a perceber que outros estão se achegando. E a importância desse momento é a circulação. Acho que quem escreve agora, quer comunicar que escreveu, quer comunicar suas percepções. E um livro como esse não é um livro no qual as pessoas falam sobre as periferias. Mas é a periferia falando da própria periferia. E dando a conhecer, trazendo suas vivências. E isso é extremamente importante principalmente quando a gente está pensando nesse campo da cultura.


Nós não queremos só existir nem apenas resistir. Mas reexistir, inventar modos de ser e fazer. E quando a gente fala de periferia, não é somente do espaço território, mas periferia como uma concepção de vida


Acho que o livro dá conta dessa tarefa de inclusive registrar essas experiências, também lutando contra esse apagamento sistemático que a gente vive. Principalmente quando é possível afirmar os dados: a periferia é negra. Então, esse apagamento, essa busca pelo silenciamento é parte desse processo genocida que vivemos. E aí, junto a esse livro, temos instagram, facebook, podcasts, fazendo essa voz reverberar. Essa voz, essas críticas, reflexões, sugestões. É a vida mesmo. Esse livre traz uma parte dessa vida, dessa sociabilidade que está presente nas periferias.

A esquerda, notadamente o PT por ter sido governo, ainda deixa a desejar no sentido de abranger e dar espaço às necessidades e aos projetos das periferias do país? Obras como esse livro “demoraram” para existir?

Sem dúvida. E acho que sim, um livro como esse demora a existir. É mais do que hora de a gente pensar nessas possibilidades. Ainda mais livros nesse formato que desafia esse modo de dizer em que é sempre um que diz e o outro escuta. Esse livro traz trabalho coletivo, ancestralidade, possibilidade de circulação. E portanto já nasce como reconexão. E aí, nesse sentido, dá pra gente ‘brincar’ com esse título: nós não queremos só existir, nem apenas resistir. Mas reexistir no sentido de inventar modos de ser e fazer. E quando a gente está aqui falando periferia, não estamos falando somente do espaço território, mas a periferia como uma concepção de vida.


Um pequeno grande manual antirracista

Dentre as 414 páginas do livro, está a produção de um grupo interdisciplinar de pesquisa e extensão, o PET Conexões, formado por
24 alunos de diferentes cursos de graduação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. É o Minimanual Antirracista.

“Depois de observarmos quantas expressões de cunho racista ainda estão presentes em nosso dia a dia, surgiu a ideia de criar um Minimanual Antirracista a fim de levar reflexões onde a academia não chega”, relatam o grupo no livro. “Tendo em vista que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravização, podemos considerar que o vocabulário brasileiro carrega, ainda, muitas expressões que tiveram origem durante o período escravocrata.”

Assim, para a elaboração do material, os jovens selecionaram expressões e palavras de origem racista comuns no vocabulário brasileiro. “Um desses
termos é ‘mulato’, que não só associa os mestiços ao animal híbrido, mula,
como também é usado para amenizar o tom de pele da população negra”, descrevem. “Outra palavra que tem esta mesma função é ‘morena’, utilizada frequentemente por pessoas que acreditam que chamar alguém de negro é um ato ofensivo. Há também ‘preto de alma branca’, expressão reproduzida como forma de elogio”, criticam.

“É de grande urgência que haja uma reparação no aparato linguístico, já que a língua é indissociável da sociedade e da cultura, como um todo, carregando consigo todas as impressões e estigmas que têm os indivíduos que a praticam e/ou estão permeadas por ela. E isso pode ser iniciado de várias formas, a pequenos passos, como um minimanual em que se faça a substituição de expressões ofensivas por outras que estabeleçam o mesmo sentido sem agredir a nenhum grupo ou pessoa”, ensinam os jovens, com sabedoria.



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