Corpo de Rua

Os rostos e a arte por trás do fluxo da cracolândia

“Corpo de Rua” fala de vidas desconsideradas pelo poder público – e por grande parte da população mal informada. Mostra que existe poesia e sonho onde, do alto da nossa ignorância, supúnhamos não haver mais nada

Filipe Celestino

São Paulo – “Longe, você tem uma ideia. Mas quando você chega ali a concepção muda.” Ali é a cracolândia, nome atribuído à região, no centro de São Paulo, onde dependentes químicos do crack vivem em constante conflito com a polícia. A frase é do documentarista Pedro Santi. O jornalista de 22 anos foi tocado pelo “território” depois de assistir à Epidemia Prata, da Cia Mungunzá, no Teatro de Contêiner. A peça, conta Santi, evidencia as mazelas do território onde o teatro está fincado. “Tive contato com artistas e aquilo foi muito transformador”, lembra, ao explicar a razão de ter escolhido a cracolândia e a arte como elementos do documentário Corpo de Rua, lançado esta semana.

Essa transformação de pensamento e de conhecimento sobre o que é a cracolândia e quem são os que a habitam é o ponto central do filme. A arte surge não como a grande salvadora, diz Santi, “mas como a promotora de novas sociabilidades, possibilidades. Novos caminhos”.

Doc direto

E são os caminhos, duros, tortuosos, tristes, poéticos, percorridos pelos personagens, que compõem a cena do filme. Esses personagens não foram escolhidos, mas fizeram-se a partir do relacionamento criado. Santi relata que o princípio de tudo foi entender o território. Ele e outros integrantes da equipe ingressaram no coletivo A Craco Resiste.

Katharina Giglio
Santi e Luizon são os responsáveis pela direção e pela montagem do doc Corpo de Rua
(foto de Katharina Giglio)

Corpo de Rua, então, nasceu desse acesso trabalhado na distribuição de água, de piteiras. É um doc direto, produzido sem roteiro. “Foi acontecendo na medida em que a gente propôs essa troca com as pessoas que vivem ali”, explica Pedro Santi, que além da direção, divide com Gustavo Luizon a montagem da obra. É de Luizon a bela fotografia do filme. “E essa troca acontece até hoje. É o que a gente acredita para nossas produções documentais: relacionamento e troca.”

Além do preconceito

Mergulhar em Corpo de Rua é se permitir despir de preconceitos. Acompanhar, através da câmera, histórias de dor, torpor, agonia, delírios, delícias. Imergir numa viagem onde o outro, tão desconhecido, tenta traduzir o que não é possível explicar. 

“O território é nosso corpo, nosso espírito”, diz o poeta Fábio Rodrigues, um dos personagens, o principal, de Corpo de Rua. Além dele, é por intermédio dos depoimentos de Cleiton Ferreira (Dentinho), do rapper MC Kawex e de Fernando Oliveira que se desenha um pouco da dureza do território da cracolândia, da relação com a arte, das tentativas de escapar do vício, das dificuldades em conseguir.

Corpo de Rua fala de vidas quase sempre desconsideradas pelo poder público – e por grande parte da população mal informada. E mostra que existe poesia e sonho onde, do alto da nossa ignorância, supúnhamos não haver mais nada.  

Assista aqui