Coronavírus nas aldeias

Casos de covid-19 entre povos Kaiowá e Guarani saltam de 1 para 30 em cinco dias

Sem o Estado, pandemia agrava crise humanitária na reserva indígena de Dourados, no Mato Grosso do Sul. Em nota, Cimi diz que este pode ser o “começo de uma tragédia amplamente anunciada”

Arquivo EBC
Na maior reserva indígena do país, povos Guarani e Kaiowá vivem aglomerados e sem acesso à água encanada

São Paulo – Na maior reserva indígena do país, em Dourados (MS), os números de casos confirmados da covid-19 saltou de um para 30 em apenas cinco dias. É o que aponta levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), com base no boletim divulgado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Até esta terça-feira (19), outros três casos eram apontados como suspeitos. 

Depois do primeiro caso da doença ter sido confirmado, no dia 13 de abril, outros 29 indígenas testaram positivo para covid-19 até a última segunda (18). E o número, de acordo com a entidade, só não é maior porque não foram realizados novos testes neste final de semana. O rápido avanço da doença sobre o território que abriga mais de 50 mil indígenas das etnias Guarani e Kaiowá, acendeu um alerta entre as lideranças dos povos e entidades, que falam em um “estado de emergência” diante da “inoperância dos setores da saúde em relação aos casos de contágios na Reserva”. 

Antes mesmo da maior pandemia dos últimos anos, a situação na maior reserva do país era de crise humanitária. Há muitos indígenas morando, aglomerados, em barracos de lona e sem acesso à água encanada. Com a covid-19, esse pode ser “o começo de uma tragédia amplamente anunciada”, como denuncia o Cimi em nota publicada nesta semana. 

“Essa situação é preocupante porque essas pessoas ainda estão em casa. E, conforme a gente apontou na nota, é um risco muito alto essas pessoas estarem fazendo isolamento domiciliar na maior reserva indígena do país e nessa situação de crise humanitária que passa esse espaço”, adverte o missionário do Cimi em Dourados Flávio Machado, em entrevista ao jornalista Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual.

O Estado e a JBS

Ainda de acordo com a entidade, a primeira indígena que testou positivo para a covid-19, era funcionária de uma unidade do frigorífico da JBS no município. E, ao menos outros 43 indígenas tiveram contato com ela no deslocamento até o trabalho. “Agora se percebe que todos os casos na região da Grande Dourado, nos municípios no entorno, são de funcionários da JBS”, acrescenta Machado. 

O Cimi cobra a responsabilização do Estado e da JBS pelos casos de coronavírus entre os indígenas. E pede investimentos e apoio à saúde dessa população. “Se não houver uma ação efetiva, conforme a gente apontou na nota, testagem em massa, aumento de EPIs (equipamentos de proteção individual), enfim, é muito provável que Dourados se torne o epicentro do contágio indígena no país”, afirma o missionário. 

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