Você está aqui: Página Inicial / Cidadania / 2018 / 08 / Queermuseu reabre no Rio e marca nova vitória da democracia

após polêmica

Queermuseu reabre no Rio e marca nova vitória da democracia

A partir deste sábado (18), mostra aborda representações de identidade e de afirmação da diversidade e foi financiada pela maior arrecadação espontânea obtida por campanhas virtuais
por Redação RBA publicado 18/08/2018 14h14, última modificação 20/08/2018 16h53
A partir deste sábado (18), mostra aborda representações de identidade e de afirmação da diversidade e foi financiada pela maior arrecadação espontânea obtida por campanhas virtuais
Tomaz Silva/ABr
Queer Rio

Exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, agora no Rio de Janeiro. Ampliar o reconhecimento da diversidade como expressão de cidadania

São Paulo – Estranho, esquisito, excêntrico, fora da norma. Essa é a tradução da palavra inglesa queer, que nos anos 1920 começou a ser usado de forma pejorativa para designar as pessoas homossexuais nos Estados Unidos. Com o passar do tempo, o termo foi ressignificado e incorporado pela comunidade LGBT como símbolo de identificação popular e, a partir dos anos 1980, surgiram os estudos acadêmicos que foram chamados de teoria queer, tendo como marco a publicação do livro Problemas de Gênero, da filósofa Judith Butler.

Essa é uma das bases da exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na arte brasileira, que será reaberta no sábado (18) na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro.

A mostra poderá ser vista na Escola de Artes Visuais do Parque Lage deste sábado (18) até 16 de setembro. A escola fica aberta todos os dias. Além da mostra, o público terá acesso, também gratuito, a uma grande programação de debates sobre o tema, com curadoria de Ulisses Carrilho, e atrações musicais selecionadas por Julio Barroso entre artistas que militam no movimento LGBT.

A mostra recebeu classificação indicativa de 14 anos pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

A exposição foi suspensa pelos organizadores – o curador, Gaudêncio Fidelis, e o diretor da instituição, Fabio Szwarcwald – em setembro do ano passado em Porto Alegre, onde era exibida no Centro Cultural Santander, após campanha agressiva em redes sociais contra o conteúdo da exposição, movida por movimentos de extrema-direita, como o MBL e por lideranças evangélicas. Ficou fechada durante um mês, período que faltava para terminar a temporada, com fitas para isolar a área dentro do espaço cultural.

Após o fim antecipado, os produtores chegaram a negociar com o Museu de Arte do Rio (MAR), que é ligado à prefeitura, mas acabou vetada pelo prefeito Marcelo Crivella. Então, o Parque Lage, espaço do governo do estado, abriu as portas para a mostra. Szwarcwald explica que a Escola de Artes Visuais do Parque Lage sempre foi um espaço de resistência, criado durante a ditadura militar, e teve amplo apoio e financiamento da sociedade para receber a Queermuseu.

"A Secretaria de Cultura nos deu carta branca para iniciar essa campanha, muito desafiadora, contra a censura, no momento em que a gente vivia um obscurantismo muito grande nas artes. Lançamos o crowdfunding no dia 31 de janeiro desse ano e o resultado foi impressionante, já que foi a maior campanha de crowdfunding do Brasil", afirmou o diretor da Escola de Artes Visuais.

No total, foram arrecadados mais de R$ 1 milhão em 58 dias, com 1.659 colaboradores na vaquinha virtual, o que possibilitou a reforma da Cavalariça do Parque Lage para receber a exposição.

Vitória da democracia

Fidelis considera que a reabertura da exposição para a sociedade brasileira "designa a vitória da democracia". Ele destaca que todo o debate que se seguiu após o fechamento em Porto Alegre é um dos legados da exposição, além do combate ao fundamentalismo no país.

"Abriu-se o debate de uma maneira extremamente ampla, onde setores muito remotos da sociedade passam a debater gênero e sexualidade em consonância com a arte. Setores inclusive que não tinham pensado, debatido ou dialogado sobre arte até então. O debate continua, 11 meses depois do fechamento da exposição. Tem matéria, discussão, teses de mestrado e doutorado, isso é muito importante".

Parte do dinheiro arrecadado foi usado para a reforma do casarão histórico onde funciona a escola de artes visuais, que estava extremamente degradada e, que mal podia receber uma exposição de trabalhos de alunos. "Agora estamos recebendo uma exposição com uma característica museológica. Tem ar condicionado com controle de temperatura, paredes e piso novos e toda a parte externa foi restaurada", disse Fabio Szwarcwald à repórter Viviane Nascimento, da TVT.

Além das obras, a mostra terá uma série de palestras e debates programados. "Os debates são pensados principalmente pelo quê a exposição virou (após o episódio de Porto Alegre). Um fato social, um fato de resistência, um fato político", afirmou Ulisses Carrilho, coordenador do fórum do Queermuseu.

Além da sexualidade

A exposição apresenta 214 obras de 82 artistas, um número menor do que as 264 da exposição original. Segundo o curador, Gaudêncio Fidelis, a redução não cortou nenhum artista e não modificou a integridade conceitual da mostra, mas foi necessária para adaptar ao espaço expositivo, menor que o de Porto Alegre.

Esta é a primeira curadoria sobre a temática queer no Brasil e na América Latina e abrange obras desde o século 19 até a atualidade, com artistas como Adriana Varejão, Cândido Portinari, Alfredo Volpi, Lygia Clark, Alair Gomes, Guinard, Leonilson e Pedro Américo, reunidas de coleções públicas e particulares.

Segundo Fidelis, o objetivo da exposição é levar ao público as diferenças entre as pessoas, indo muito além das questões de gênero e de sexualidade, abordando todo tipo de comportamento, e que se estabelece dentro da institucionalidade.

"Algumas pessoas têm uma certa dificuldade de entender. A exposição se alimenta da teoria queer assim como outros campos teóricos, como o marxismo, o estruturalismo, o formalismo."

Confira a reportagem da TVT: 

Com reportagem de Akemi Nitahara, da Agência Brasil