Home Cidadania Preso político aos 16 anos, Ivan Seixas apoia campanha de cartas para Lula
contra a barbárie

Preso político aos 16 anos, Ivan Seixas apoia campanha de cartas para Lula

Preso pela ditadura aos 16 anos, junto com o pai, em 1972, destaca a importância das milhares de cartas que ele mesmo, nos tempos de cárcere, recebeu após campanha da Anistia Internacional
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
08:22
Compartilhar:   
RBA
seixas debora.jpg

Seixas e Débora em encontro realizado hoje (20), em São Paulo

RBAcartaas.jpg
Parte das cartas que ajudaram Ivan a continuar vivo

São Paulo – “Em 1964, o Executivo assaltou e neutralizou o Legislativo e o Judiciário. Hoje, temos o Judiciário controlando os outros dois poderes. É uma ditadura, sem dúvida. Uma ditadura sem centralidade.” As palavras são do ativista Ivan Seixas, preso pela ditadura civil-militar (1946-1985) no dia 16 de abril de 1971, quando tinha 16 anos. Torturado junto com toda sua família, recorda com pesar a morte de seu pai durante uma sessão de tortura. Agora, aos 63 anos, Seixas vê novamente, em suas palavras, o “Estado de exceção” no Brasil.

Seixas esteve nesta sexta-feira (20) em São Paulo, para dar início a uma campanha de solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde o dia 7 de abril na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. O ativista participou de uma conversa com a atriz Débora Duboc, que participa do Comitê do Teatro e Ativista pela Democracia e Lula nas Eleições, além da vereadora Juliana Cardoso (PT-SP) e do militante e ex-deputado estadual Adriano Diogo.

Para o ativista, Lula é um preso político de uma ditadura, assim como ele foi. Durante os anos de cárcere, Seixas foi “adotado” pela Anistia Internacional, que enviou uma grande quantidade de cartas para ele. Agora, a intenção é promover uma ação de solidariedade similar com Lula. “Nossa ideia é fazer uma ponte. Como as cartas ajudaram a salvar minha vida na ditadura que matava, é importante dar uma força ao preso político que é o Lula.”

Além da característica da intimidação de dois poderes da República diante de um mais forte em determinado momento histórico, Seixas vê paralelos entre diferentes períodos do país. “Nós que lutamos por memória, verdade e justiça, vemos que a direita tem o mesmo discurso há décadas. Eles tentaram derrubar o Getúlio Vargas usando o discurso de corrupção, economia indo para o buraco e perigo comunista. Levaram ele ao suicídio. Juscelino Kubitschek, fazem a mesma coisa. Tentam dar um golpe. Depois, contra João Goulart, fazem isso e dão o golpe para implantar uma ditadura”, afirma.

Então, para enfrentar as arbitrariedades de um período de exceção, Seixas sugere alcançar apoio internacional, como foi feito pela Anistia em seu período de cárcere. “As campanhas como a das cartas para mim foram tão importantes que o Garrastazu Médici (1969-1974) foi à França em 1972 e não conseguiu sair do hotel. Tiveram manifestações na frente (…). Agora, não é uma questão de defender Lula como pessoa e sim o princípio de que você não pode condenar alguém sem existir um crime. O tríplex não é do Lula, não existe indicação nem provas. É uma farsa, uma perseguição. Um exemplo disso é a figura execrável da Rosa Weber (ministra do Supremo que votou contra a concessão do habeas corpus ao ex-presidente): disse que era contra a prisão em segunda instância, mas que no caso de Lula era a favor.”

Seixas está aliado com lideranças do movimento político e outros ativistas para consolidar uma campanha de cartas não apenas direcionadas ao ex-presidente, mas também às figuras do poder que participam da manutenção da prisão de Lula, algo que também aconteceu em sua prisão. “Um dia fui chamado na diretoria do presídio. O diretor era um integralista fascista, e pediu para eu ler e assinar um papel amassado. Ele estava com ódio. Então eu entendi o porquê. Era uma carta de uma norte-americana que chamava ele de monstro, questionava por que ele fazia isso comigo, esculachava o cara. Ele ficou bravo e amassou a carta, mas mandou eu assinar para servir de depoimento contra mim, no meu prontuário. Eu ri na cara dele. Ele gritou, me expulsou e eu saí feliz da vida. A carta era pra ele, veja como foi importante isso.”

Débora concorda com a importância de ações como tal. Ela coordena uma ação que leva pessoas às ruas para pegar depoimentos de pessoas, colocar em cartas e enviar ao ex-presidente. “É importante furar a bolha internacional. O sentimento que temos é que na ditadura militar o Brasil ficou lacrado. Sentimos que isso está acontecendo agora também no país. Atualmente estamos lacrados. Barbaridades acontecem e não existe como reclamar disso. Estive em Portugal e conversei com alguns artistas sobre o Brasil e eles disseram estar perplexos diante da possibilidade de não poder recorrer à Justiça. É isso, não temos a quem recorrer.”

RBAivan.jpg
Ivan Seixas vê as cartas e recorda de tempos difíceis em cárcere

Tempos de barbárie

Seixas é filho de um casal que se conheceu na sede do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A militância da família foi o suficiente para que o regime militar prendesse todos, acusando-os de terrorismo, ou associação ao crime. “Fiquei dos 16 anos até os 22 na cadeia. Nos últimos três anos, fiquei em um presídio que era um misto de hospício. Chamava Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no interior de São Paulo. Estava com presos comuns que tinham praticado os mais feios crimes”, lembra.

“Tive que me impor para não me matarem lá dentro. Chegaram a tentar. A polícia mesmo mandava os presos me atacarem, mas ao contrário, eles me salvaram e impediram atentados. Durante esse período, a campanha da Anistia em minha defesa aumentou”, continuou. Seixas afirma que, durante a maior parte do período em que esteve preso não tinha conhecimento sobre a campanha das cartas em sua defesa, e foi um funcionário do presídio que acabou contando.

“Um dia, um funcionário solidário a mim me disse: ‘Poxa, você recebe muitas cartas, né?’. Eu respondi que não e ele insistiu duas vezes, enfático. Então, caiu a ficha que era uma mensagem e eu reclamei das cartas e eles entregaram para a minha mãe. Era um metro cúbico de cartas. Essa campanha, digo sem dúvidas, foi fundamental para salvar a minha vida. Estou vivo hoje por isso.”

Quando o ativista saiu do cárcere, em 20 de agosto de 1976, ainda vigorava a ditadura, mas o regime começava a perder força. “Não derrubamos a ditadura, mas derrotamos parte dela com essas cartas lá de fora. Aqui, tínhamos um cerco da grande mídia que colaborava e a imprensa alternativa era censurada. Não tínhamos apoio (…). Mas lá fora, os produtos brasileiros começaram a não descer em portos europeus, porque os portuários diziam que eram produtos sujos de sangue, seguindo o internacionalismo proletário, se negavam. Tocou no bolso deles, tanto que o Ernesto Geisel (1974-1979) começou a abrir um pouco o regime e liberar alguns presos políticos, como eu.”

Agora, Débora propõe a ação com cartas para “furar a bolha” nacional e internacional, para que os olhos se abram diante do caso de Lula. “Temos feito um trabalho de base muito importante. Com esse bombardeio da mídia que vemos a tantos anos em cima das propostas de esquerda e dos governos populares, essa criminalização, as pessoas conseguem ainda ter uma gratidão sincera e genuína pelo que os governos populares fizeram. Mas quando você menos percebe, as pessoas repetem o discurso que é martelado pela mídia. Quando as pessoas escrevem as cartas, elas refletem sobre o que está acontecendo e chegam à conclusão de que não é justo o que está acontecendo. Elas mesmo chegam a conclusão de que Lula é um preso político”, concluiu.

Assista à conversa de Seixas, Débora, Adriano Diogo e Juliana:

_____________

Leia mais cartas enviadas a Lula em Curitiba

A RBA reproduz a seguir cartas de leitores Palmeiras das Missões, no Rio Grande do Sol, Paris e Palmeiras das Missões. 

Querem impedir que o senhor seja candidato, pois sabem que será eleito com folga. Saiba que tem o apoio da maioria dos brasileiros, e no exterior há uma enorme rede de solidariedade com denúncia desta prisão injusta e ilegal”

Paulo de Rezende, médico, Estrasburgo, França

Querido presidente Lula,

Eu sou gaúcho de Passo Fundo. Daqui da França, da cidade de Estrasburgo, sede do Parlamento europeu, lhe envio esta mensagem de apreço e solidariedade. A sua prisão é um escândalo mundial e os jornais,rádios e TVs europeus tem dado grande cobertura e denunciado esta injustiça. Eu vim para a França em 1970 por motivos óbvios. Afinal estávamos em plena ditadura cívico-militar. Aqui fiz a minha especialidade de médico-anestesiologista e UTI. Finalmente fiz toda a minha carreira hospitalar na França. Evidentemente em hospitais públicos. Entre 1995/2012 participei como encarregado de missão no Ministério da saúde da França num projeto de implantação do SAMU192 no Brasil. Eu era então responsável da cooperação saúde entre o MS da França e a América latina. Nesta época o Brasil estava governado pelo senhor, governo apreciado pelos brasileiros conscientes das grandes realizações dos dois quatro anos de Lula.

Agora o presidente Lula esta na prisão. O que “eles” querem é impedir que o senhor seja candidato em outubro, pois sabem muito bem que candidato o Lula sera eleito com folga. Daí o golpe contra Dilma e contra Lula.

Coragem !!! (mesmo se isto é inútil insistir pois o senhor é “Lula Guerreiro do povo brasileiro”) e saiba que Lula tem o apoio da maioria dos brasileiros e no exterior há uma enorme rede de solidariedade com uma denúncia desta prisão injusta e ilegal.

Um grande abraço ou um quebra costela como se diz no Rio Grande

Dr. Paulo de Rezende 6, cour Saint Nicolas

67000 Strasbourg, France

_____________

Saiba que aqui na França e por onde eu passei pela Europa o senhor é muito respeitado. Quando comecei a pesquisar para construir os meus cursos, deparei com exercícios que utilizam o senhor para ilustrar a noção de mobilidade social”

Aline Midori, professora de Ciências Econômicas e Sociais, Paris

_____________
 

Poderia escrever um livro agradecendo o que você fez por esse povo sem voz, mas como você não vai ter tempo para ler, pois vai sair logo da prisão, eu vou parar por aqui”

Solange Ramos Lula da Silva. Palmeira das Missões (RS)

Palmeira das Missões, 8 de abril de 2018

Lula,

Vou te chamar simplesmente de Lula, pois temos intimidade para isso. Obrigada por ser a voz de quem não tem voz neste país.

Obrigada por levar a saúde a esse povo sem voz, com o programa “Mais médicos”.

Obrigada por levar a esse povo sem voz, um Brasil sorridente com o programa “Tratamento odontológico”

Obrigada por levar a esse povo sem voz, poder comer três vezes ao dia com o programa “Bolsa família”.

Obrigada por levar a esse povo sem voz, a eletricidade, com o programa “Luz para todos”.

Obrigada por levar a esse povo sem voz um lar, com o programa “Minha casa minha vida”

Obrigada por levar a esse povo sem voz, a inclusão social, oferecendo cursos técnicos pelo programa “Pronatec”.

Obrigada por levar a esse povo sem voz, o ensino para jovens e adultos com o programa “EJA”.

Obrigada por levar a esse povo sem voz, a Universidade para todos com o programa “ProUni”.

Poderia escrever um livro agradecendo o que você fez por esse povo sem voz, mas como você não vai ter tempo para ler, pois vai sair logo da prisão, eu vou parar por aqui.

Em anexo te envio um terço vermelho, o terço é para você ter fé e saber que Deus está contigo, a cor vermelha do terço é para você não esquecer do povo sem voz. (Este terço não é novo, ele é do meu uso, estou te mandando para te proteger)

Um abraço

Solange Ramos

Ou melhor, Solange Ramos Lula da Silva

_____________

Se prevalecer o que estão falando, meus filhos estão condenados pelo conjunto da obra: são netos e filhos de pobres. Somos sua voz, e sua liberdade está em nós e caminha livre”

Milton Pena

Caro Luiz Inácio Lula da Silva;

Quando uma sociedade tipifica os crimes fica difícil o entendimento ou a compreensão nos seus valores.

A força não pode prevalecer sobre o coletivo, e não deve ser medida pela mídia seletiva, mas observar os 360 graus nos acampamentos humanos, dos ambientes múltiplos (favela também é estado de direito).

Se prevalecer o que estão falando, os meus filhos estão condenados pelo conjunto da obra: são netos e filhos de pobres, sem a mínima prospecção de (tempo de tristeza) futuro.

Condenar pelo conjunto da obra, sem relação de culpa, é punir inocentes e relativizar culpados ou ser permissivos com aqueles que pertencem aos meios que a sociedade cruel protege, “os ricos e os bem nascidos/selecionados”.

Já vivemos num estado de exceção, observe a quantidade de pobres e negros assassinado pelas polícias, e a população carcerária (condenados, sem direitos a defesa, pelas certezas de um judiciário de verdades pessoais), um Brasil dos poucos. Outro ponto são as UPPs nas favelas das grandes cidades, como muros de repressão e de segregação.

Este modelo de Brasil da esperança do esperar, de relativizar os acontecimentos, não pode ser o norteador de nossas vidas.

Mas sim liberdade dos destinos, do pensar, do respeito as desigualdades das diversidades que devem formar ou transformar o nossos carácter/ideários, e ser o condutor dos nossos destinos.

Sabemos que temos a obrigação de transportarmos para o outros e sentir os seus sentimentos, sua dores, suas aspirações e seus desejos. e edificarmos um pais mais igualitário e solidários.

Temos capacidade para isto ou para isso, não adianta tentarem nos conduzir as abismos políticos, por que apreendemos e sabemos pensar e ser livre, nossa liberdade vem do interno/alma, está em nós. Não se arranca nem prendem um espírito livre.

Não tem força repressora que nos dominará, que somos brasil, somos força, somos lula.

Somos sua voz, e sua liberdade está em nós e caminha livre.

Abraços e força,

Milton Pena