Ditadura

Volks foi ‘irrestritamente leal ao governo militar’, conclui historiador

No entanto, ele não vê comprovação de que a ajuda à repressão fosse uma política institucional da montadora. Relatório cita colaboração de empresas, inclusive a Volks, com a polícia política

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Kopper aponta cooperação entre a área de segurança industrial da Volkswagen e a polícia política da época

São Bernardo do Campo (SP) – “Vocês pedem desculpas?” A pergunta foi feita mais de uma vez ao presidente da Volkswagen para a América do Sul e no Brasil, Pablo Di Si, e invariavelmente a resposta foi a mesma: “Nós lamentamos muito”. Ao divulgar um relatório feito pelo historiador alemão Christopher Kopper, contratado pela Volks, a empresa sustenta que houve colaboração com a ditadura brasileira, mas sem que isso fosse resultado de uma política deliberada ou institucional. Em seu estudo, Kopper afirma: “A VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar e compartilhou os seus objetivos econômicos e de política interna”. Ele aponta cooperação entre a área de segurança industrial e a polícia política da época. 

Investigada pelo Ministério Público Federal (MPF), citada em relatório da Comissão Nacional da Verdade e recentemente vista como “cúmplice” da repressão em um documentário da TV alemã, a Volks contratou Kopper e disse ter franqueado todos os seus arquivos. “A Volkswagen me deu acesso a todos esses documentos dos anos de chumbo. Em nenhum momento tentou influenciar o meu trabalho”, disse o historiador, para quem “houve cooperação entre indivíduos da segurança interna da Volkswagen do Brasil e o regime militar vigente, mas não foram encontradas evidências claras de que a cooperação era institucionalizada na empresa”.

A empresa preparou um evento de porte para anunciar a conclusão da investigação e descerrou uma placa na Ala 7 da fábrica de São Bernardo, no ABC paulista, onde fica o Centro de Formação Profissional, em memória das vítimas da ditadura. E anunciou o início de uma série de iniciativas de apoio a organizações de direitos humanos.

A primeira é com o Centro Cultural Afro-Brasileiro Francisco Solano Trindade, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de rua. Um grupo de jovens se apresentou tocando três músicas, para uma plateia que incluía executivos da matriz da Volks, representantes do Consulado alemão e jornalistas. O Solano Trindade completará 20 anos em 2018.

Para Di Si, a empresa vive “um novo momento” no país, com a preocupação de ser “mais humana” e próxima da sociedade. O estudo se insere em uma preocupação de “fazer uma reflexão importante sobre o passado, com perspectiva para o futuro”. O executivo destacou que era a primeira empresa do setor automobilístico a examinar sua história no período da ditadura. O evento teve a presença de representantes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Ex-funcionários, incluindo alguns presos nos anos 1970, recusaram-se a participar.

Várias empresas foram apontadas, pela Comissão da Verdade e outros órgãos, como apoiadoras da ditadura, indicando trabalhadores para a polícia política, trocando informações sobre empregados “subversivos” e inclusive dando aporte financeiro para agentes da repressão. O caso da Volks é o primeiro, até agora, a ter inquérito aberto. Em 2015, o MPF recebeu uma pedido de investigação feito por representantes de trabalhadores.

“Apesar dos autos da polícia política apontarem claramente para uma cooperação entre a segurança patrimonial e os órgãos da polícia, a extensão da colaboração não pode ser completamente reconstruída uma vez que uma quantidade desconhecida de documentos foi destruída”, diz Kopper, que no estudo trata das origens da empresa no Brasil, em 1953, com sua primeira fábrica no país, no bairro paulistano do Ipiranga. “Apesar da corresponsabilidade da VW do Brasil por violações de direitos humanos ser o tema central do presente estudo, a participação em ações de repressão política durante a ditadura militar não pode ser analisada isoladamente sem considerar o desenvolvimento econômico da empresa.”

Sobre o golpe de 1964, o historiador disse que, pelo curto prazo entre a preparação e a tomada do poder, considerar “muito improvável que os golpistas tenham recebido apoio logístico ativo de empresas brasileiras”. Ele faz menção ao chamado Grupo Permanente de Mobilização Industrial, formado quatro semanas após a derrubada de João Goulart, tendo à frente a Federação das Indústrias paulista (Fiesp). Mas afirma que “a VW do Brasil não prestou apoio financeiro aos golpistas”. De qualquer forma, o movimento de 1964 foi bem avaliado, especialmente em relação à política econômica. 

O estudo avança, inclusive, à política salarial da própria Volks nos anos 1970. Segundo o historiador, a montadora “não participava aos seus funcionários de forma adequada os avanços de produtividade e não lhes participava de fato o desempenho”. A ausência de uma uma comissão de fábrica facilitava os planos da empresa.

Kopper fala também da Operação Bandeirante (Oban), criada por empresários para financiar a repressão. Ele destaca que a Oban “utilizou veículos da VW do Brasil e da Ford para levar oficiais e suas equipes às operações e os detidos ao centro de interrogatório na Rua Tomás Carvalhal 1030, uma área residencial tradicional de São Paulo”, referência ao endereço do DOI-Codi. “Muitos detidos eram torturados durante os interrogatórios”, lembra, citando como “vítima mais célebre da Oban” a então estudante Dilma Rousseff, presa em 1970.

Ainda segundo o estudo, os dossiês preservados do Deops comprovam que houve desde 1969 “uma troca periódica de informações entre o Departamento de Segurança Industrial da VW do Brasil e os órgãos de repressão da ditadura”.  Esse departamento foi chefiada pelo militar Ademar Rudge, citado por vários metalúrgicos como um dos principais nomes da repressão interna e da colaboração com a polícia política. “Infelizmente, nos dossiês do DEOPS não foi encontrada prova documental ratificando se a disponibilidade de informação da segurança patrimonial estava baseada em acordo formal por escrito.”

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