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Poeta Antonio Cícero tenta agarrar o passageiro em "Porventura"

por guibryan1 publicado 23/08/2012 14h55

Antonio Cícero, poeta e escritor, lança novo livro de poemas: multiartista da palavra (arquivo pessoal)

Há quem o conheça apenas como o irmão e parceiro da cantora Marina Lima. É verdade que tais condições são privilégios exclusivos dele e do falecido Roberto Correia Lima, mas Antonio Cícero é muito mais. Filósofo, poeta e escritor, ele tem canções com nomes como Cláudio Zoli, Waly Salomão, João Bosco, Orlando Morais, Adriana Calcanhotto e Lulu Santos. E acaba de lançar um novo livro de poemas, após uma ausência de 10 anos, desde “A Cidade e os Livros”. Trata-se de “Porventura”, lançado pela editora Record.

Antonio Cícero parece atuar em duas frentes principais – a da descrição de paisagens insuspeitas e a da releitura do passado, como um álbum de memórias.  No primeiro grupo, estão os poemas “Amazônia” Do segundo, fazem parte, entre outros, “Meio-fio” e “Balanço”: “A infância não foi uma manhã de sol: / demorou vários séculos; e era pífia, / em geral, a companhia. Foi melhor, / em parte, a adolescência, pela delícia / do pressentimento da felicidade / na malícia, na molícia, na poesia / no orgasmo; e pelos livros e amizades”. Há também poemas dedicados a amigos como Alex Varella, Carlos Mendes Sousa, Adriano Nunes, Suzana Moraes, Eucanaã Ferraz (com quem organizou uma nova antologia de poemas de Vinicius de Moraes), Arthur Nestrovsky, José Miguel Wisnik e o falecido irmão Roberto Correia Lima.

As referências à cultura grega também são constantes, inclusive no poema em que Antonio Cícero parece apresentar suas “armas”, “O poeta marginal”: “Em meio às ondas da hora / e às tempestades urbanas / conectarei as palavras / que trovarão novas trovas. / Lerei poemas na esquina, / darei presentes de grego; / a cochilar com Homero, / farei negócios da China. / Exporei tudo na rede / sem ganhar nem um vintém: / a vaidade, a fome, a sede, / certo truque, rara mágica. / Que não se engane ninguém: / ser um poeta é uma África”. Mas também há diálogos com poetas anglo-saxão W. H. Auden e francês William Butler Yeats.

Antonio Cícero demonstra ser também um mágico na captação de instantes, como acontece no belíssimo “Blackout”: “Passo a noite a escrever. / Do lado de lá da rua / poderia alguém me ver, / daquele prédio às escuras, / em frente ao meu, e mais alto. / Que voyeur me espiaria? / De interessante, só faço / escrever. Ele veria / decerto a parte traseira / do computador, talvez, daquela outra janela”.

“Porventura” já nasce como um marco na carreira do poeta Antonio Cícero, que revaloriza o dodecafonismo e dialoga aqui com diferentes culturas, com seu próprio passado e com paisagens insuspeitas, numa clara tentativa de “agarrar o passageiro”, como garante em “Desejo”.

O passageiro, nesse caso, sendo tanto aquilo que passa como uma pessoa sentada na janela de um trem observando tudo ao redor, incluindo uma “Mulher com Crisântemos”. Mais próximo do final há uma espécie de “epitáfio”: “Vida, valeu. Não te repetirei jamais”. E para encerrar o singelo “3h47”: “Bem que Horácio dizia / preferir dormir bem / a escrever poesia”.

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