Observatório do racismo

Mulheres negras relegadas a postos de submissão: até quando?

Violência perpetrada contra as mulheres negras e pardas remete ao passado colonial, em que se instituiu o poder com base na ideia de raça

Tânia Rêgo/Agência Brasil

A violência, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é “o uso intencional de força física ou poder, ameaçados ou reais, contra si mesmo, contra outra pessoa”. Podemos falar especialmente das mulheres negras, que são atingidas de todas as formas, por todos os tipos de violência, em especial as violências relacionadas ao gênero, raça, uma vez que sofrem as consequências do racismo estrutural, e as questões diretamente relacionadas por serem mulheres – acabam sofrendo dupla, ou triplamente.

As mulheres negras, infelizmente em sua grande maioria, estatisticamente, fazem parte do grupo da população que se encontra em situação de pobreza, ou mesmo de extrema pobreza, muitas das vezes residindo em locais com infraestrutura reduzida ou ausente, distantes dos grandes centros.

O que assusta ainda é que quase não se encontram mulheres negras em cargos de chefia, ou em grandes instituições, o que demonstra o sofrimento pelo qual passam todos os dias.

A violência perpetrada contra as mulheres negras e pardas certamente remete ao passado colonial, em que se instituiu o poder sobre a sociedade com base na ideia de raça, que passou a ser, com esse propósito, o estabelecimento de valores distintos entre as pessoas.

Sabemos que as mulheres negras sempre sofreram todo o tipo de preconceito, ao ponto de terem sido tratadas como uma coisa, um objeto, pertencente ao senhor dos escravos.

Após a abolição da escravatura, percebe-se que, tristemente, não houve mudanças significativas. A escravidão foi abolida, porém, não foram criados instrumentos, estímulos ou políticas públicas para auxiliar essas mulheres, que supostamente passaram a ser “livres”.

As fêmeas colonizadas herdaram o status de inferioridade das mulheres brancas frente ao gênero masculino, sem que, no entanto, lhes fossem concedidos os privilégios atribuídos às brancas e burguesas.

Foram sempre relegadas a postos de submissão, não sendo tratadas com o devido respeito, mencionadas como seres humanos inferiores, e geralmente, representadas por sua sexualidade sempre em posições hierárquicas inferiores.

Pode-se perceber que as mulheres negras são as mais atingidas nas questões relacionadas à violência, em toda as suas nuances, sendo sempre as mais prejudicadas por esse tipo de situação. O que nos deixa mais intrigados é perceber que não existe por parte dos órgãos públicos atenção a esse tipo de situação.

De acordo com Mapa da Violência de 2019, 4.936 mulheres foram assassinadas em 2017, maior índice dos últimos 10 anos. Isso representa 13 vítimas por dia – 66% delas eram negras. E nos últimos anos, os assassinatos de brasileiras pretas e pardas só vêm crescendo.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2018 e 61% delas eram negras (soma de pretas e pardas, de acordo com classificação do IBGE). Feminicídio é o termo que define o assassinato de mulheres cometido em razão do gênero. Ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher.

Devemos mencionar ainda que os estereótipos ligados às mulheres negras influenciam ainda no atendimento que elas recebem dos serviços de segurança e saúde ao serem vítimas de violência doméstica.

Ou como diz a filósofa e ativista Angela Davis:

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras.”

Terminando este artigo, recebo a triste notícia de uma violência psicológica e racista, contra uma professora universitária de Curitiba, Lucimar Rosa Dias. Na véspera do dia das mulheres, após realizar uma compra em um supermercado, a duas quadras de sua casa, fora abordada por três pessoas, duas uniformizadas e uma a paisana, exigindo saber se ela havia pagado por todos os itens que estavam dentro de sua bolsa.

A professora se mostrou assustada, teve a nota fiscal arrancada das mãos, retornou ao estabelecimento e lá ficou esclarecido que não havia nenhum vídeo de segurança, não havia testemunha, havia apenas a violência e o racismo estrutural contra uma mulher negra.

A professora acabou registrando um boletim de ocorrência pelo racismo e violência que sofreu, e pretende processar as pessoas e o estabelecimento envolvidos. Não se pode deixar de mencionar que na noite anterior aos fatos, a professora havia recebido uma homenagem pelo Dia da Mulher na Câmara Municipal, e estava feliz com a homenagem recebida.

Assim, no dia posterior à homenagem, e um dia antes do dia das mulheres, sofre um violento ataque racista e misógino, apenas por ser mulher negra. Até quando seremos coniventes a situações como essa?

Camila Marques Leoni Kitamura é aluna do mestrado em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro do Observatório do Racismo


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