A guerra do dólar

O Irã é o Brasil da vez. A diferença é que resiste aos ataques dos EUA

Afirmação parece superdimensionada em relação a importância dos dois países para a geopolítica mundial, mas cada um a sua maneira está no centro da “terceira guerra” mundial, a guerra do dólar

Midia Ninja
Muitos ainda subestimam o papel dos EUA e seus interesses nas manifestações de 2013 e no golpe de Estado

Blog Senhor X – O Irã é o Brasil da vez. A afirmação pode estar superdimensionada em relação a importância dos dois países para a geopolítica mundial mas, cada um a sua maneira, está no centro da “terceira guerra” mundial, a guerra do dólar.

O ato terrorista patrocinado pelos EUA contra Qassem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária Iraniana, por ordem de Donald Trump, pode ter variados motivos, mas os exercícios navais conjuntos do Irã com a China e Russia, no golfo de Omã, foram o estopim da agressão norte-americana.

Os exercícios ocorreram entre os dias 27 e 30 de dezembro no norte do oceano Índico, com presença de forte e exemplar aparato militar dos três países. O objetivo das manobras, segundo o vice-comandante do Exército do Irã, Habibollah Sayyari, ao portal Sputnik, era “demonstrar a autoridade marítima do Irã no norte do oceano Índico e apresentar a sua experiência a outras nações”.

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No Brasil, o estopim que resultou no golpe de Estado e na destruição da economia, foi a oficialização da criação do banco do Brics, durante a sexta cúpula do bloco, em Fortaleza, no Ceará, em 15 de julho de 2014. Na época, os membros do bloco – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – definiam como principal objetivo do banco o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento em países pobres e emergentes. Ou seja, a consolidação de um mega mercado à margem do dólar, que colocava em risco a hegemonia da moeda norte-americana no mundo.

José Cruz/Agência Brasil

Dilma recebeu 17 chefes de Estado ou governo na cúpula dos Brics, em 2014 (José Cruz/Agência Brasil)

A diferença é que o Irã, submetido a um brutal bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos, mas com um poder político e militar fiel ao seu país e seu povo, enfrenta o imperialismo norte-americano e promove as necessárias alianças para resistir aos ataques.

“O Irã está presente em muitos projetos políticos e econômicos realizados por países como a Rússia e a China. Desta forma, não é de surpreender que a cooperação econômica, e em outros projetos, também traga consigo a cooperação militar”, disse o especialista militar e ex-oficial da Marinha russa, Vasily Dandykin, também ao Sputnik.

Em nosso caso, o Estado brasileiro, em todas suas dimensões, não apenas foi incapaz de perceber e de reagir ao golpe de Estado, como parte de sua elite econômica, política e militar traiu os interesses nacionais e se mantém servil e covardemente apoiando o governo vende-Pátria de Jair Bolsonaro. Mais grave ainda, avalizou, estimulou e/ou patrocinou a Operação Lava Jato, com Sergio Moro à frente, que destruiu a indústria da construção e a cadeia produtiva do petróleo, abrindo o mercado para as empresas estrangeiras, em especial norte-americanas.

A declaração de guerra dos Estados Unidos ao Irã e, por tabela, à China e à Russia, contém ensinamentos que, definitivamente, deveriam ser apreendidos pela sociedade brasileira, por sua elite econômica, política e, a exemplo do Irã, por seu Exército.

Primeiro, assumir de uma vez por todas que o mundo está metido em uma nova guerra comercial e geopolítica e que, “infelizmente”, assim como o Irã, o Brasil está no centro da disputa. Uma dificuldade que, ainda hoje, leva setores da esquerda a subestimar o papel dos Estados Unidos e seus diversos interesses nas manifestações de 2013 e no golpe de Estado. Lula não apenas está correto ao definir aquelas manifestações como o “ovo da serpente”, como sua observação aponta para a necessidade de superar a ingenuidade, a caipirice, ou coisa pior, para avançar a luta no país.

Depois, que a situação traz à tona a hipocrisia do discurso imperialista e o fracasso da presença norte-americana no Iraque, ocupado e saqueado desde a invasão que derrubou Saddam Hussein em 2003, sob o falso pretexto de destruir um inexistente arsenal de armas químicas. Aliás, a mídia internacional noticia que o governo Trump orientou seus cidadãos e, ironicamente, os executivos das petrolíferas e das empreiteiras norte-americanas a deixarem o país imediatamente.

Ainda, que a “continência” política, econômica e militar aos Estados Unidos já apresenta sinais concretos de graves prejuízos ao Brasil. A própria Rede Globo, no Jornal Nacional, já não consegue mais mentir, assumindo que estamos vivendo de exportar óleo cru, que a balança comercial de 2019 foi a pior desde 2015 e que a situação da indústria nacional vai piorar.

O assassinato do general iraniano, nos primeiros dias do ano novo, mostra o grau de violência e de insegurança que neoliberalismo pretende impor ao mundo para tentar safar-se de sua profunda crise.

Ao Brasil cabe, definitivamente, assumir sua condição de Nação, compreender seu papel no mundo e impedir que a selvageria neoliberal transforme o País e o povo brasileiro, novamente, em um “imenso canavial” – ou num grande São Paulo.