Há 36 anos

Fábrica de agrotóxicos que matou 25 mil pessoas em Bhopal, na Índia, segue impune

Sobreviventes do gás venenoso produzido pela Union Carbide em Bhopal ainda lutam por justiça e reparação. Atualmente, têm mortalidade por covid-19 seis vezes maior que o restante da população

Julian Nyča/Commons Wikimedia
Ruínas da fábrica de agrotóxicos de Bhopal, na Índia

São Paulo – O vazamento de toneladas de um gás venenoso em uma fábrica de agrotóxicos da Union Carbide em Bhopal, na Índia, que matou mais de 25 mil pessoas, completa 36 anos nesta quinta-feira (3). Estão previstos atos em diversas partes do mundo para relembrar o maior crime da história cometido por uma empresa que ainda não foi devidamente responsabilizada.

Na madrugada daquele 3 de dezembro de 1984, uma reação em um dos tanques com 40 toneladas de isocianato de metila, usado na produção do agrotóxico carbaril, resultou em uma nuvem de gases extremamente tóxicos. De imediato, grande parte da população do entorno teve dificuldade para respirar, irritação nos olhos, tosse, vômitos e em poucas horas havia corpos humanos e de animais empilhados pelas ruas.

Nas primeiras horas foram exterminadas mais de 2,2 mil pessoas. Mas nas horas seguintes, até o gás assassino se dissipar, o número chegou a 3,7 mil segundo o governo. Organizações de apoio aos sobreviventes estimam que o número pode chegar a 8 mil. E que ao todo 560 mil pessoas foram diretamente afetadas, muitas chegando a ficar incapacitadas. Um contingente correspondente a pouco mais da metade da população de Bhopal, que tem 1,4 milhão de pessoas. Entidades criadas por sobreviventes estimam que pelo menos 15 pessoas continuam morrendo todo mês devido a consequências da exposição ao gás. E que 100 mil pessoas que não foram indenizadas ainda necessitam de assistência médica. No total, as mortes consequentes do crime da Union Carbide em Bhopal são estimadas em 25 mil, segundo a Campanha Internacional para Justiça em Bhopal.

Impunidade

Cinco anos depois, a Union Carbide se recusou a pagar US$ 220 milhões em indenizações às pessoas que, com o vazamento, perderam a capacidade de trabalhar. Mas firmou acordo com o governo da Índia – num total de de US$ 470 milhões – para cobrir despesas médicas por cinco anos e nada mais. Em dezembro de 1992 o número oficial de mortos saltou para 4.136 e, em outubro de 1995, para 7.575. Era o dobro da estimativa do governo para basear o acordo com a empresa.

O então presidente da Union Carbide quando ocorreu o crime, Warren Anderson, nem sequer foi à Índia para responder por homicídio culposo. Um pedido de extradição, em 2003, foi recusado pelos Estados Unidos. Anderson morreu em 2014. Em 2010, oito funcionários indianos que participavam do comando da empresa foram acusados pelo crime de Bhopal, multados e receberam penas de até dois anos. Em 1994, a empresa vendeu sua participação na fábrica de agrotóxicos para a Eveready e foi comprada em 2001 pela Dow Química. Uma das cinco maiores empresas do ramo de agrotóxicos e transgênicos recusa-se a assumir responsabilidade civil, criminal e ambiental. Não aceita nem mesmo descontaminar a área.

Recorte de classe

O recorte de classe é determinante no processo que levou ao crime impune de Bhopal. A instalação de uma fábrica de agrotóxicos, em uma região que já era densamente povoada, não foi acompanhada de medidas de segurança, nem mesmo de informação à população pobre do entorno sobre os perigos a que estava exposta. Tampouco um plano de evacuação.

Em seu artigo “Revisitando o desastre de Bhopal: os tempos da violência e as latitudes da memória”, o pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC), Bruno Sena Martins chama atenção também para as falhas envolvendo a tecnologia empregada na fabricação de carbaril em Bhopal, que não levava em consideração especificidades locais, como solo e clima. Ele sugere que tenha sido adotado um método de produção que, por ser mais barato, trazia riscos acrescidos. Um “generalizado improviso e facilitismo” levaram ao uso de tecnologia obsoleta, separada por um abismo das tecnologias e padrões da Union Carbide nos Estados Unidos.

Martins menciona um acentuado desinvestimento na fábrica à medida que a produtividade foi diminuindo, afetando principalmente a segurança. Houve esforços para maximizar os lucros, reduzido pelas dificuldades técnicas para produzir o alfa-naftol localmente e pela introdução de novos agrotóxicos, mais eficazes e mais baratos do que o carbaril. Por causa disso, a Union Carbide desmantelava a fábrica de agrotóxicos de Bhopal para reinstalar em unidades separadas na Indonésia e no Brasil.

Ainda de acordo com o pesquisador de Coimbra, sucessivos cortes de investimentos na produção, na manutenção e no número de funcionários fizeram com que operações específicas fossem executadas por trabalhadores sem treinamento. “Para que tenhamos uma ideia mais exata do impacto destes cortes, convém frisar que a refrigeração dos tanques que armazenavam o isocianato de metila (MIC), cuja função era prevenir reações endotérmicas, encontrava-se desligada. Do mesmo modo, a torre de queima de gás, a que caberia destruir os gases de uma eventual fuga de MIC, estava inoperante na noite do acidente”, aponta.

Maiores vítimas da covid-19

Os sobreviventes do crime de Bhopal, que carregam as sequelas, enfrentam atualmente altas taxas de contaminação pelo novo coronavírus. Por meio de entidades que os representam, reivindicaram à Dow Química o pagamento de uma compensação adicional pelos danos à saúde das pessoas expostas ao gás, que são a maioria dos doentes de covid-19. Dados oficiais mostram que a taxa de mortalidade pela doença é seis vezes maior entre a população exposta ao gás em Bhopal.

Nas palavras da ativista indiana Rahida Bee, a pandemia expôs a mentira oficial de que 93% das pessoas expostas aos gases venenosos da Union Carbide tiveram apenas impactos temporários à saúde.

Documentário inédito

Para marcar os 36 anos do crime da Union Carbide, o Brasil de Fato lança o documentário Bhopal 84, que relembra o maior crime industrial da história.

Assista: