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Após um ano da tragédia de Brumadinho, qualidade da água do rio Paraopeba só piora

Relatório da SOS Mata Atlântica indica alta concentração de metais pesados e coloca como distante a recuperação. Comunidades vivem sob insegurança hídrica e denunciam falta de transparência da Vale

Defesa Civil Betim
Um ano após o rompimento da barragem, ainda há rejeitos por toda a extensão do rio. Apenas em um ponto a Vale concentração barreiras de retenção. Há diversos riscos à população por conta da água contaminada

São Paulo – Um ano do crime socioambiental da Vale em Brumadinho, completados neste sábado (25), relatório da Fundação SOS Mata Atlântica indica que por toda a extensão do rio Paraopeba, a água continua imprópria e sem condições de uso. Ao todo, as 21 cidades, que fazem parte do percurso de 356 quilômetros do rio, afetado em sua extensão pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora, sobrevivem sem qualquer possibilidade de agricultura local, com o abastecimento de água comprometido, correndo riscos de doenças, e com uma enorme perda da vida aquática do rio.

Essa é a segunda expedição da fundação na região. No ano passado, logo após o rompimento, os profissionais já havia denunciando as consequências negativas sobre o rio, que tornavam distante a capacidade de recuperação das águas. Dessa vez, a situação é ainda mais crítica, com uma diminuição inclusive dos microorganismos, responsáveis pela decomposição de matéria orgânica e pela produção de oxigênio.

“Se essa base, que tem a função de manter o equilíbrio do rio, (está assim), imagina o restante? Por exemplo, os peixes que dependem desse ecossistema, de aves que dependem desses peixes? nós tivemos uma modificação e uma interferência tão grande, que nós não sabemos quando que esse ecossistema vai se reconstituir. A base de cadeia alimentar foi toda afetada, nós temos um dano para o ecossistema, que a gente ainda não tem como dimensionar”, alerta a coordenadora do Laboratório de Polução Hídrica e professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Marta Marcondes em entrevista ao jornalista Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual.

Foram 23 pontos analisados ao longo do rio Paraopeba até o início do reservatório de Três Marias, parte em que se integra ao rio São Francisco. Em todos esses pontos, a qualidade da água oscilou entre ruim e péssima, apresentando ainda padrões em desconformidade com a legislação por conta do alto teor de metais pesados que foram encontrados, como ferro, manganês, cobre, acima dos limites máximos estabelecidos. Metais como cromo e sulfeto também foram identificados.

De acordo com a professora, que participou da expedição, apesar do riscos evidentes de contaminação pela qualidade da água, durante toda a pesquisa, a população local denunciou que a Vale não tem divulgado os riscos associados aos rios da região, faltando com a transparência dos monitoramentos que a mineradora vem fazendo da água. “As pessoas precisam ter esse resultado e a verdade do que está acontecendo”, contesta Marta.

“Quando em contato com a pele da pessoa e com mucosas, dependendo da fragilidade dessa pessoa, causa problemas de pele, problemas gastrointestinais se a pessoa ingerir essa água. E quando essas substâncias químicas se unem ao cloro, por exemplo, que é muito utilizado no momento de uma estação de captação de água, o cloro, junto com o manganês, principalmente, ele costuma dar uma reação de coceira na pele ou mesmo de dermatite. Usar cloro para limpar a água pode ser contraproducente”, explica,

A insegurança hídrica da população fica ainda maior diante da incerteza quanto à recuperação do rio Paraopeba. Segundo aponta o relatório da SOS Mata Atlântica, a Vale tem concentrado esforços no Córrego Ferro Carvão, onde 26 pequenas barreiras foram montadas para retenção dos rejeitos, que estão sendo mecanicamente retirados para uma área da mineradora. No entanto, todo o percurso do rio Paraopeba concentram rejeitos e estão sem qualquer barreira de contenção.

Marta ressalta é que é emergente um plano para retirada do rejeito que está no fundo e nas margens, e tem modificado totalmente o ecossistema do rio. “A segunda coisa, ao mesmo tempo, é reestruturar as margens que foram destruídas, reestruturar com vegetação de mata ciliar, boa parte daquilo que foi mata atlântica (…) Uma outra coisa são os planos municipais de saneamento, dos municípios que estão ao longo do rio, porque para o rio se estabelecer é preciso que ele não receba mais nenhum tipo de poluente”, elenca. Segundo a professora, apenas com essas medidas poderá se estabelecer o tempo para recuperação do rio Paraopeba.

Ouça a entrevista da Rádio Brasil Atual

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