COP-25

Busca de recursos internacionais para política de preservação mostra despreparo de Ricardo Salles

Governo brasileiro vai atrás de financiamento de outros países após ganhar "Fóssil do Dia" por responsabilizar ONGs por queimadas

Antonio Cruz/Agência Brasil
Na estreia de Ricardo Salles, na Conferência do Clima da ONU, em Madri, o Brasil foi 'homenageado' com o Fóssil do Dia, prêmio irônico concedido por ONGs

São Paulo – O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, busca recursos internacionais para arcar com políticas de preservação. Entretanto, a ação é feita após o governo federal enfraquecer o Fundo Amazônia e barrar a participação da sociedade civil. Para o professor do Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) Wagner Ribeiro, o ministro se mostra cada vez mais despreparado para o cargo que ocupa.

“Além da incoerência, ele mostra desconhecimento de como os financiamentos ambientais funcionam. É um despreparo técnico dele, que diz ‘não’ aos financiamentos que exigem a participação da sociedade civil”, explica o especialista, em entrevista aos jornalistas Cosmo Silva e Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

A ausência da sociedade civil na elaboração de políticas públicas se dá pelo perfil autoritário do governo Bolsonaro, afirma o professor. Desde a posse, Jair Bolsonaro vem enfraquecendo as estruturas responsáveis pela políticas ambientais, com o sucateamento de órgãos como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e a extinção da Subsecretaria Geral de Meio Ambiente, Energia e Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores.

“Na última sexta-feira (29), Bolsonaro publicou uma série de decretos para recuperar alguns conselhos gestores que ele havia eliminado, mas voltaram enfraquecidos. Ele reduziu a participação da sociedade civil e se mostra cada vez mais autoritário. Por 30 anos, tivemos a presença massiva da população, com trabalhos técnicos das ONGs. Tudo isso está sendo perdido por conta desse governo autoritário que não quer mais dialogar”, critica Wagner Ribeiro.

Na estreia de Ricardo Salles na Conferência do Clima da ONU, em Madri, o Brasil foi “homenageado” com o “Fóssil do Dia”, prêmio irônico concedido por ONGs para os países que estão “fazendo o seu melhor para bloquear o progresso nas negociações” sobre o combate ao aquecimento global.

COP-25

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) apresentou relatório na Conferência sobre o Clima da ONU apontando um recorde de temperatura global na década. Segundo o documento, nos primeiros 10 meses do ano o calor global superou em 1,1 ºC a média da era pré-industrial (1850-1900).

No relatório, apresentado por ocasião da Conferência sobre o Clima da ONU (COP-25) , a organização prevê ainda que 2019 será o “segundo ou terceiro ano mais quente” desde 1850, quando os registros sistemáticos começaram a ser feitos. “2016, que começou com um episódio de El Niño de intensidade excepcionalmente forte, continua sendo o ano mais quente”, diz o estudo.

Para Wagner Ribeiro, o relatório é um indicador preocupante e mostra que os países não estão cumprindo as metas do Acordo de Paris. “As chuvas intensas que presenciávamos a cada 10 anos, agora são mais frequentes. Este será o tema central do COP25, com toda a certeza”, comentou.

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