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‘A barragem estava ameaçada e todo mundo sabia sim’

Ex-empregada da empresa que administra o restaurante conta que ouviu em conversas de diretores que não havia sirene de alarme na barragem que se rompeu. E pede investigação sobre 'notas falsificadas'
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
10:47
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reprodução
vale brumadinho

Em vídeo que circula nas redes sociais, trabalhadora fala sobre as conversas que ouvia em salas de reuniões da Vale

São Paulo – Diante de câmeras de TV, Lilian Oliveira de Barros, ex-trabalhadora da Sodexo, empresa terceirizada responsável pelo restaurante da mineradora Vale em Brumadinho, afirmou que era de conhecimento de todos que a barragem estava condenada. “Lá dentro tinha trinca sim. A barragem estava sendo ameaçada sim, e todo mundo sabia”.

Em vídeo que circula nas redes sociais, a ex-empregada da terceirizada (trabalhou de março de 2017 a maio de 2018) diz que diariamente servia café nas salas de reunião da diretoria da mineradora, afirma ter ouvido muitas conversas sobre o tema. “Ouvi isso em reunião com dois desaparecidos: o diretor-geral Alano e a Lecilda”.  Entre os mortos soterrados pela lama que a barragem do Córrego do Feijão não suportou estão o diretor Alano Reis Teixeira e a analista de operações Lecilda de Oliveira.  

Moradora de Brumadinho, Lilian está visivelmente indignada no vídeo. E destaca que a única sirene de alarme para avisar os moradores foi instalada em uma outra barragem, e não naquela que se rompeu no último dia 25. “Olha onde a sirene tocou depois de todo o desastre”.

Colocando sua segurança em risco, ela faz referência, inclusive, a documentos que teriam sido falsificados. “E a nota foi falsificada. E foi cobrada sim. Agora os órgãos competentes de fiscalização, da Polícia Federal, são obrigados a dizer quem foi o errado a vender esses papeis. Quem foi o errado? Isso tem de ser falado, moça. Não apaga isso, isso tem de ser mostrado. A gente precisa divulgar isso”, clamou, diante da câmera da Rede Minas, que pode ser identificada pelo microfone da reportagem que aparece no vídeo.

Nas imagens, Lilian manifesta indignação também com a omissão da empresa para a qual trabalha. “Ninguém se manifestou aqui. Meus colegas de trabalho, gente da Sodexo, pessoas que eu tinha apreço estão todos lá embaixo da lama. Isso tem de ser fiscalizado”.

“Não vou falar de papel e nem de processo porque cabe à polícia investigar. Estão omitindo as coisas. Eu não tenho medo da Vale e nem do pessoal da Sodexo”, diz ao final da gravação.

Por meio de nota enviada à RBA, a Sodexo afirma lamentar profundamente os acontecimentos. “A Sodexo agiu prontamente ao tomar conhecimento da ocorrência, enviando imediatamente, no próprio dia 25, uma equipe multidisciplinar para o local para prestar toda a assistência e suporte às famílias de seus colaboradores, que ainda estão desaparecidos. Esta equipe continua trabalhando ativamente no local no atendimento de todas as necessidades dos familiares.”

Assista:

Tragédia esperada

Conhecidos no âmbito da Vale, segundo a trabalhadora, problemas na barragem em Brumadinho já eram temidos por moradores do município em 2015. Uma reportagem da TV Rede Minas (confira abaixo) entrevistou um morador da cidade logo após o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, controlada pela Vale.

“A gente fica com mais medo da Vale, porque é uma represa muito grande, é muito rejeito”, afirmou o aposentado Wilson Ferreira.

Conforme mostrou a reportagem, ambientalistas já chamavam a atenção para a ameaça à população, o ecossistema e o abastecimento de água para um terço da região metropolitana de Belo Horizonte, que recebe água do rio Paraopeba.

Reportagem publicada em 25 de novembro de 2015 pelo jornal Estado de Minas chamava atenção para outro fato: a falta de manutenção das represas, como foi apontado pelo então vice-prefeito de Brumadinho, Breno Carone. “Fizemos um sobrevoo em nove barragens dos municípios de Brumadinho, Congonhas, Igarapé e Itatiaiuçu e percebemos que a área da mineração está bem assoreada.”