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Número 63, Setembro 2011

Faça você mesmo

Quatro décadas após seu surgimento, o punk ainda influencia gerações. E até para muita gente das antigas a vida é classificada entre antes e depois do “do it yourself”
por Guilherme Bryan publicado 04/04/2013 12h33, última modificação 15/09/2011 17h58
Quatro décadas após seu surgimento, o punk ainda influencia gerações. E até para muita gente das antigas a vida é classificada entre antes e depois do “do it yourself”

Inocentes, uma das mais importantes do gênero (foto: © Gerardo Lazzari)

Pouca gente se dá conta, mas está quase quarentão um dos “filhos” caçulas do rock. O movimento punk acrescentou a essa revolucionária história musical sua pegada mais bruta – e junto com ela, como em outros momentos do rock, trouxe ao cotidiano urbano um de seus mais diferentes e duradouros legados de comportamento social e postura política.

Clemente: "Eu era de uma turma de colecionadores de discos na Vila Carolina, revoltada com o rock que se fazia na época e ouvia o pré-punk de bandas como The Stooges, MC-5 e New York Dolls. Com o punk a identificação foi imediata"

Em termos musicais, pode-se dizer que as raízes do rock e alguns de seus frutos – do canto mais doído das comunidades negras americanas que levariam ao blues e ao jazz e depois ao rock’n’roll, ao progressivo, ao heavy metal e ao punk – compõem um acervo criativo que escapa ao modismo, a ser sorvido por toda a eternidade. Mas, quando se pensa nos aspectos físicos do rock, a cenografia, o figurino, e sobretudo na postura política perante o mundo, nada é tão longevo quanto o lema “do it yourself“ (faça você mesmo) e todo o componente anárquico que ele carrega.

 “Se não fosse esse lema, não teríamos ido adiante, até porque há a ideia errada­ das bandas de aguardar alguém que as promova. E no punk havia também a atitude política do anarquismo, de botar a mão na massa”, acredita o músico Clemente, dos Inocentes, uma das mais importantes bandas brasileiras do gênero, criada em 1981.

Bruno Cavalcante punk (foto © Gerardo Lazzari)Aos 18 anos e 30 mais jovem que o baixista, o estudante Bruno Cavalcante vê na cultura punk a ideia de subverter a ordem e contestar tudo que considera errado. “Um menino entra no movimento, muitas vezes sem nunca ter escrito um texto por vontade. Daí ele conhece os fanzines e cria uma forma de pôr no papel as indignações e, com o tempo, se ele acha que o texto é pouco, cria uma banda para divulgar suas ideias ou procura outras formas de protesto”, define Bruno. Para ele, que acredita contribuir para o movimento participando de protestos de rua e de ações sociais, o punk no Brasil começou ligado a brigas de gangues e hoje se tornou mais politizado.

Para Bruno, 18 anos, o punk no Brasil está mais politizado

Peter Shelley, fundador, vocalista e guitarrista da banda punk Buzzcocks, surgida em Manchester, na Inglaterra, hoje com 56 anos e já avô, tem opinião parecida quando reflete que o grande papel do movimento foi romper com o establishment de modo mais radical do que haviam feito Beatles e Rolling Stones, na década de 1960. Para o músico, a maior herança do punk está na internet. “Ela tornou possível que as pessoas estejam muito mais em contato com a música hoje em dia e que os músicos, por sua vez, dependam cada vez menos das grandes gravadoras e distribuidoras”, aponta.

Arte e movimento

Essa maneira de produção cultural influenciou outras artes, caso da literatura de ficção científica. O jornalista Romeu Martins é especialista na área e autor de contos publicados em 2009 na coletânea Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, que acaba de ganhar edição em inglês. “Tudo começou no cyberpunk, na segunda metade dos anos 1980. O movimento liderado por William Gibson e Bruce Sterling levou a ideologia punk ao mundo da ficção científica, ajudando a dar maior relevância aos verdadeiros produtores do gênero – os escritores – e incluindo uma temática muito mais politizada e não conformista”, explica Romeu. “Quando o escritor K.W. Jeter escreveu uma carta em 1987 para a revista Locus batizando o steampunk, ele apenas fazia uma analogia com o cyberpunk, mas o sentido original, de vagabundo, marginal, começava a se perder”, relata.

“O modo punk de ver o mundo deu maior relevância aos verdadeiros produtores culturais, em todas as vertentes em que se manifestou. Acredito que, mesmo antes da música, já se podia ver isso nos quadrinhos, a partir do momento em que Robert Crumb passou a editar ele mesmo suas revistas e a vendê-las em um carrinho de bebê nas esquinas de São Francisco, na metade dos anos 1960. Esse foi o espírito do jornalista Legs McNeil ao resgatar aquela palavra, que já aparecia nas peças de William Shakespeare, há quase meio milênio, e batizar um fanzine com ela, fazendo com que o termo punk entrasse definitivamente para o vocabulário da contracultura”, acrescenta.

Sex Pistols discoMuitos estudiosos afirmam que o punk rock surgiu em meados da década de 1970, nos Estados Unidos, com bandas como Television e Ramones. Ninguém tem dúvidas, porém, de que o ápice aconteceu na Inglaterra, em 1977, com o lançamento do primeiro álbum da banda The Clash e o emblemático Never Mind the Bollocks, do Sex Pistols. Esse ícone do movimento foi um dos principais responsáveis pela criação de um novo visual, marcado por correntes, casacos de couro e coturnos, e bastante divulgado pelo empresário Malcolm McLaren, que em 1971 havia aberto a loja Sex, com a estilista Vivienne Westwood.

Grandes galerias

Frank Bozic punk (foto © Gerardo Lazzari)Frank frequentou o Largo São Bento e a Galeria do Rock. Hoje é gerente de uma multinacional

Para muitos punks, o visual é tão importante quanto a música. “A gente usava suspensórios, botas e coturnos, cabelos espetados e toda aquela parafernália. Tínhamos de fazer muita coisa em casa mesmo – pegar correntes de portão e improvisar com cadeados. Os coturnos eram botas industriais, os famosos bicos de aço dos operários das indústrias. A camiseta nós pintávamos com o símbolo de alguma banda e a calça jeans era velha e rasgada. Tudo no improviso”, lembra Frank Bozic Júnior, que conheceu o punk por meio de fitas K7 emprestadas por amigos em Santo André (SP) e hoje é gerente de uma companhia multinacional de seguros.

Dois lugares em que punks como ele se reuniam com maior frequência eram o Largo São Bento e o edifício Grandes Galerias (ou Galeria do Rock), ambos no centro de São Paulo. “Eu era de uma turma de colecionadores de discos na Vila Carolina que era revoltada com o rock que se fazia na época e ouvia o pré-punk de bandas como The Stooges, MC-5 e New York Dolls. Aí veio o punk, e a identificação foi imediata. No início, tocávamos por necessidade e pura urgência, sem pretensão de fazer sucesso e gravar disco”, lembra Clemente.

Walter Thiago punk (© Gerardo Lazzari)

Outro frequentador do local era o empresário Walter Thiago (acima), que reconhece a importância da galeria por reunir as pessoas e divulgar discos e camisetas. Ele abriu ali, em 1986, a importadora de discos London Calling, que se tornou também, com o passar dos anos, uma das principais realizadoras de shows dos grandes nomes mundiais do punk em São Paulo. É o estabelecimento mais antigo do tipo em atividade – e, para a passagem de seus 25 anos neste 16 de setembro, programou a comemoração com Inocentes e a banda norte-americana Dicks.

“Com meu irmão, eu ouvia Black Sabbath­, mas fiquei fascinado com o punk e fui atrás dos poucos discos que estavam saindo, vendidos principalmente na Punk Rock Discos, loja pioneira que abriu em 1978, mas deixou de existir antes de a minha abrir”, relata. Ele, que era DJ das casas noturnas Madame Satã e Ácido Plástico, credita ao lema “do it yourself” a decisão de abrir a loja, mesmo indo contra a pressão familiar.

Em comum, Walter e Clemente garantem que mantêm muito do estilo. O segundo, porém, é mais reconhecido como um dos principais representantes do movimento no Brasil – para ele, um rótulo difícil de ser tirado –, mesmo que os Inocentes tenham partido para outros estilos musicais. Clemente também exerce outras atividades: toca com a banda brasiliense Plebe Rude, tem projeto musical com a Sandra, das Mercenárias, atua como DJ, apresenta um programa no portal Showlivre.com e realiza cursos no Sesc. Mesmo com tanta produção, brinca que é um “pobrestar, e não um popstar”, acredita que guarda do movimento punk justamente o fato de produzir os próprios shows e financiar os álbuns, o que também encontra na cena alternativa atual.

Outras causas

Inocentes foi uma das bandas presentes no festival O Começo do Fim do Mundo, realizado em novembro de 1982, no Sesc Pompéia, em São Paulo, e até hoje considerado um dos principais marcos do punk no Brasil. “Ali foi o ápice e o começo do fim (risos), porque depois as brigas voltaram. Nós tínhamos conseguido apaziguar várias gangues, pois havia grande racha entre punks de São Paulo e do ABC, para o festival poder acontecer – era a chance de fazer uma grande mostra das bandas da época. Mas ali teve uma briga forte que fez com que voltasse tudo e as bandas parassem ou seguissem outro caminho”, lembra Clemente.

Hoje o movimento punk resiste, talvez, com força renovada, reunindo vários jovens interessados em contestar o sistema e produzir arte por conta própria. O estudante de design gráfico e vocalista da banda Dischaos, Gustavo Shit, de 24 anos, ressalta: “Punk é uma postura, um movimento. É contracultura de rua. É um grito da periferia. Hoje tem grupos dentro do punk que são altamente organizados e politizados, e também se aliam a outros movimentos, como o dos sem-terra, do passe livre, dos sem-teto, entre outros.”

Frank Bozic Júnior garante que o lema punk mudou a vida dele. “Naquele tempo, representava muita liberdade de expressão. Embaixo de greves gerais e repressão, o pessoal do ABC precisava ter uma válvula de escape. O ‘faça você mesmo’ era exatamente fazer do jeito que queríamos, como anarquistas e sem regras. Mas era um sentimento que explode na adolescência. Hoje apenas o desafiar o estabelecido em prol de uma boa causa ainda é uma forma inteligente de conduzir a vida”, defende. Para ele, o punk é um modo de vida que traz uma riqueza de valores muito maior do que o estereó­tipo de “baderna” praticada por jovens violentos a que alguns órgãos de comunicação insistem em reduzi-lo.

Colaborou Jéssica Santos de Souza

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