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Número 27, Agosto 2008

esporte

O desafio de chegar lá

O Brasil leva uma delegação recorde para Pequim, movida sobretudo a verbas estatais. Com pouco dinheiro do setor privado e políticas públicas insuficientes, o país pena para fazer do esporte um bom meio de gerar oportunidades
por Cezar Martins publicado , última modificação 23/11/2017 11h56
O Brasil leva uma delegação recorde para Pequim, movida sobretudo a verbas estatais. Com pouco dinheiro do setor privado e políticas públicas insuficientes, o país pena para fazer do esporte um bom meio de gerar oportunidades
Eduardo Viana/Lancepress
Marílson Gomes

Marílson Gomes surpreende, é dos poucos atletas brasileiros que têm patrocínio consistente

Na biografia preparada para o Museu Olímpico, órgão oficial da memória dos Jogos modernos, o francês Pierre Frédy, o Barão de Coubertin, é descrito como um homem que acreditava no poder de transformação social da educação. Para o fundador do Comitê Olímpico Internacional (COI) e criador da Olimpíada como a conhecemos, o esporte era a melhor maneira de despertar o interesse de jovens também por artes, literatura e outras disciplinas e, assim, resgatar valores éticos e morais sepultados no passado junto com a Grécia Antiga. Coubertin não estava errado. Não é difícil comprovar esse potencial hoje, principalmente em países com carências profundas. Na delegação de 277 atletas nacionais classificados para os Jogos de Pequim, um recorde histórico, não são raros os exemplos de jovens nascidos em famílias pobres que conseguiram trocar futuros incertos pela esperança de medalha.

Marta Vieira da Silva, a melhor jogadora de futebol do mundo, é um desses casos que inspiram tantos outros jovens. Nascida no sertão de Alagoas, a atacante encontrou no futebol o caminho para superar obstáculos. Aos 14 anos viajou sozinha por três dias até o Rio de Janeiro, onde conseguiu vaga na equipe do Vasco. Passou dificuldades, abriu mão de amigos e amores e, sem apoio de patrocinadores nem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), tornou-se a estrela. Dona de dribles rápidos e desconcertantes, é a esperança do país de chegar ao inédito ouro no futebol, já que o time masculino será, como sempre, um azarão.

Vitórias solitárias como a de Marta ainda são regra em um país que tenta ser sede de uma Olimpíada. Enquanto o governo federal e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) investem pesado para promover o Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016 – o orçamento da campanha prevê gastos de 
R$ 66 milhões apenas na fase de candidatura, até novembro de 2009 –, programas de incentivo à prática esportiva voltados para crianças e jovens carentes são abastecidos a conta-gotas. São poucos e mal pagos os profissionais habilitados a educar e treinar garotos que poderiam fazer parte das futuras delegações nacionais, em diversas modalidades. Os espaços públicos de treinamento, como clubes municipais, costumam oferecer equipamentos sucateados e péssimas condições de segurança, higiene e conforto, formando um cenário propício para o desperdício de talentos.

Degraus acima

Em contrapartida, as empresas estatais despontam como os principais apoiadores de equipes e atletas olímpicos de ponta, com vultosos patrocínios. Para a preparação do time brasileiro que vai à China, só o COB recebeu mais de R$ 260 milhões. A maior parte, R$ 220 milhões, proveniente do repasse de 1,7% da arrecadação das loterias pela Caixa. O restante veio de seis patrocinadores oficiais, entre eles duas empresas ligadas ao governo: Caixa e Petrobras. O valor gasto no ciclo de quatro anos é alto quando comparado, por exemplo, à verba de R$ 11,3 milhões destinada em 2008 ao Programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, que oferece esporte, alimentação e reforço escolar a cerca de 700 mil jovens em todo o país.

Esse montante arrecadado pelo COB não soma ainda os contratos de patrocínio feitos pelas empresas diretamente com as confederações. O Banco do Brasil, por exemplo, investe R$ 22 milhões apenas nas seleções masculina e feminina de vôlei. Sem o aporte financeiro, segundo a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), o esporte não teria conseguido atingir o nível atual. Sérgio Dutra dos Santos, o Escadinha, líbero da seleção comandada pelo técnico Bernardinho, talvez seja a personificação dos benefícios sociais que o mecenato estatal pode trazer. “A seleção de vôlei significa a minha sobrevivência e a de muita gente que depende de mim. Tudo o que consegui devo ao vôlei e, sempre que entro em quadra, lembro as dificuldades que tive”, afirma o jogador, pai de três filhos.

Filho de trabalhadores rurais que cultivavam café em Diamantina do Norte (PR), Escadinha chegou a ser vendedor ambulante, com uma Kombi, de produtos de limpeza. Quando o primeiro filho nasceu, em 1997, dividia o tempo entre os treinos e outro emprego. Só conseguiu se dedicar exclusivamente ao esporte quando as regras mudaram e surgiu a posição de líbero, um atleta que só tem função defensiva na quadra e não pode atacar. Adaptou-se rápido ao papel. Em Pequim, será um dos astros do time nacional e porta-bandeira do projeto social VivaVôlei, mantido desde 1990 pela CBV com parte do dinheiro que recebe dos patrocinadores, para ajudar na socialização de crianças carentes de 7 a 14 anos.

Outros atletas, hoje admirados como ídolos nacionais, têm histórias semelhantes. Os irmãos Daniele e Diego Hypólito mudaram a vida de toda a família, que morava em Santo André (São Paulo), graças às acrobacias e piruetas que os consagraram na ginástica artística. Além dos dois, a ginástica brasileira será representada pela gaúcha Daiane dos Santos, outra que ascendeu por conta do bom desempenho como atleta.

Mas a delegação também sentirá a falta de atletas que poderiam chegar ao pódio e não conseguiram se classificar em decorrência da falta de apoio. É o caso de Diogo Silva, do tae kwon do, que ganhou o ouro no Pan-Americano do Rio, em 2007, e não conseguiu sua vaga para a Olimpíada. “O tae kwon do é a minha vida. Foi por causa dele que larguei a rua e fui para o esporte. Por diversas vezes pensei em desistir, por não ter condições de me manter”, comenta o lutador, que vivia com os R$ 600 pagos pelo Bolsa-Atleta, outro programa criado pelo governo federal na tentativa de incrementar o esporte no país.

Iniciativa privada

Se para o governo parece ser difícil concentrar esforços e verbas em políticas e programas de inclusão social por meio do esporte, para as empresas privadas o tema é praticamente um tabu. Os contratos de patrocínio são inconstantes e mal planejados, restritos a modalidades de massa ou a esportes com os quais diretores de marketing e relacionamento tenham afinidade. A expectativa é de que a Lei de Incentivo ao Esporte possa modificar esse quadro. Regulamentada em 2007, ela permite que empresas apoiadoras de projetos sociais e esportivos tenham alguma compensação no imposto de renda.

A Fiat Automóveis é uma das que já se beneficiam com a lei, formando parceria com o Clube Atlético Mineiro. O programa oferece 2.070 vagas a estudantes de escolas públicas de Belo Horizonte, onde praticam futebol de campo em horários que não estejam em aula. “A disputa em uma modalidade esportiva é a melhor maneira de levar crianças e adolescentes a desenvolver um espírito de competição, com valores éticos e respeito ao próximo”, afirma Ana Luiza Veloso, coordenadora de relacionamento com a comunidade. A montadora também patrocina desde 1998 o Programa Esportista Cidadão, em parceria com o Minas Tênis Clube, dirigido a jovens do Aglomerado da Serra, uma das regiões mais violentas da capital mineira. “O incentivo ao esporte tem ótima relação custo–benefício. Um investimento relativamente pequeno pode potencializar grandes efeitos de inclusão. Mas são ações que precisam andar junto com melhorias nas escolas e programas sociais públicos”, analisa.

Mesmo com o aprimoramento da legislação, programas de incentivo ao esporte no Brasil ainda são dependentes da persistência e do voluntarismo de personalidades ligadas a alguma modalidade. O judoca Flavio Canto, bronze em Atenas-2004, mas fora de Pequim nestes Jogos, é diretor-presidente do Instituto Reação, ONG que ensina o esporte sobre o tatame a crianças da favela da Rocinha e outras comunidades carentes do Rio de Janeiro. Flavio diz que só passou a receber mais apoio depois da medalha conquistada há quatro anos. “Hoje são mais de mil crianças em quatro pólos de educação. Temos programas de educação paralelos, com aulas de idioma, nutricionistas, fisioterapeutas. Ainda estamos profissionalizando esse setor”, diz o judoca, orgulhoso por ter mandado duas alunas ainda das categorias de base para participar do período de treinamentos no Japão junto com a seleção brasileira, em julho. “Elas são exemplos que podemos dar para os outros alunos. O judô é uma escola moral, ensina a superar seus limites físicos e emocionais para enfrentar um adversário em um combate.”

Os ensinamentos do judô certamente foram valiosos para que Edinanci Silva superasse as dificuldades da infância pobre na Paraíba e chegasse a sua quarta Olimpíada. Uma das esperanças de medalha, a judoca já foi obrigada a comprovar sua feminilidade com testes de laboratório para poder competir em Atlanta-1996. Está em Pequim com status de melhor atleta da seleção feminina, e sonha com a primeira medalha olímpica: “Chegou a hora de meu trabalho ser premiado e espero alcançar o pódio”.

Atletismo

Poucas modalidades dos Jogos de Pequim são tão ricas em histórias de superação e inclusão social como o atletismo. Velocistas negros vítimas de racismo que se transformam em ídolos dos Estados Unidos, africanos que escaparam de guerras civis e chegaram a ser campeões, e tantos outros. O Brasil tem poucas chances de ganhar uma medalha de ouro, mas seus atletas, com trajetórias semelhantes, já podem ser considerados vitoriosos apenas pelo fato de ser reconhecidos internacionalmente.

Criança pobre nascida em Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal, o fundista Marílson Gomes dos Santos surpreendeu o mundo ao vencer a Maratona de Nova York, em 2006. Recebeu como prêmio US$ 130 mil e voltou para o Brasil como um dos principais nomes da equipe de atletismo patrocinada pela BM&F. Embora importante, o apoio da Bolsa de Mercadorias & Futuros, que forma com a Caixa a dupla de maiores investidores no atletismo, é considerado pequeno demais para fazer surgir no país uma gama de talentos capaz de competir com países que possuem maior cultura esportiva.

Enquanto isso, os espectadores brasileiros torcerão para que Marílson vença a maratona disputada nas ruas da capital chinesa. Ou então que possam chegar ao pódio atletas ainda desconhecidos do grande público, como a saltadora pernambucana Keila Costa, um talento garimpado nas pistas de terra de Abreu e Lima, cidade próxima a Recife.

Os esforços, investimentos e programas para desenvolver o esporte nacional foram muitos desde 2004, quando o Brasil conquistou 10 medalhas (5 de ouro, 2 de prata e 3 de bronze) nos Jogos de Atenas. Dinheiro público e privado foi aportado em diversas iniciativas e distribuído às confederações nacionais. Resta agora saber se, independentemente das medalhas de Pequim, terão resultado também no desenvolvimento social do país nos próximos anos.

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