Blog do Velho Mundo - Por Flávio Aguiar

Livro levanta poeira racista na Alemanha
Banqueiro conhecido por posições racistas, Thilo Sarrazin publicou livro atacando judeus, bascos e muçulmanos (Foto: Eigenes Werk/wikipedia)
Na Europa é moda conservadora ser "cautelosamente" antimuçulmano.
Thilo Sarrazin tem 65 anos, e fez uma carreira burocrática que pode ser chamada de exemplar. Descendente de franceses (daí o nome, Sarrazin, parecido com Sarrasin, “Sarraceno”), Thilo foi alto funcionário da Deutsche Bahn (Empresa Ferroviária), foi Ministro das Finanças (nós diríamos Secretário) da Câmara (aqui Senado) de Berlim, trabalhou para o governo federal, e faz pouco tempo foi indicado para o Conselho Diretor do Bundesbank, Banco da República, o Banco Central alemão. Além disso, há tempos é filiado ao SPD, o Partido Social Democrata alemão, que é descrito na mídia convencional como de “centro-esquerda”.
Faz tempo que Sarrazin é uma figura conhecida por suas declarações bombásticas e conservadoras. Já disse, por exemplo, que um dos “desafios” de Berlim são os membros da “geração de 68”, assim como o “desleixo” dos berlinenses quanto à vestimenta e a aparência.
Entretanto, tornou-se mais conhecido por suas declarações contra a imigração estrangeira, particularmente a dos muçulmanos, e em especial, a dos turcos – e seus descendentes. Freqüentemente acusou-os de “resistirem à integração” e de, por isso, resistirem também à educação. Criticou-os também por não terem iniciativa, por serem importantes economicamente apenas no “setor de frutas e verduras”, de não contribuírem com “mais-valia” (sic) para o Estados alemão, de passarem tempo demais recebendo seguro-desemprego, etc.
Esse comportamento já lhe valeu problemas. Teve de abdicar da pretensão de ser vice-presidente do Banco, teve seu gabinete invadido por estudantes. Tornou-se, enfim, uma figura polêmica, conhecida e reconhecida por opiniões bizarras.
Agora, porém, Sarrazin atravessou o Rubicão, provocando uma chusma de críticas e declarações veladas de apoio, mesmo que parcial, às visões que levanta.
Sarrazin acaba de lançar um livro – Deutschland schafft sich ab – A Alemanha se autodestroi – onde avança teses (que lembram as versões mais conservadoras do malthusianismo sobre a proliferação dos mais pobres) segundo as quais a Alemanha está submergindo diante das altas taxas de natalidade dos imigrantes muçulmanos – novamente os turcos em particular.
Para ele também a mixagem entre essas populações “recém-chegadas” e os “autóctones” está produzindo um crescente “emburrecimento” do país, pelo pouco interesse e fraco desempenho dos imigrantes e seus descendentes em termos escolares.
(Penso que os que se lembrarem do filme “O leitor” – e do romance, que é mais interessante – e da dificuldade da protagonista em reconhecer seu analfabetismo, terão uma medida da delicadeza do tema nas terras de Goethe, Hegel, Schiller, Thomas Mann etc.)
Até aí poderíamos estar vendo o caso de uma personalidade polêmica, um tanto atraída pela fama, a controvérsia, e a “proteção das classes superiores e dos valores tradicionais”. Como ser antimuçulmano está na moda entre os conservadores na Europa e no mundo, teríamos aí o caso de um autor em busca de polêmica promoção para seu livro, mobilizando temas e opiniòes algo odiosas, é verdade.
Porém, não satisfeito com isso, Sarrazin abriu a metralhadora giratória, e atirou em todas as direções. Em entrevista no fim de semana, confrontado com perguntas sobre um possível teor racista de suas opiniões, ele negou a acusação, dizendo que ele tratava de assuntos “culturais”, e emendou que isso de raças era um assunto, afinal, genético. “Todos os judeus”, disse ele, “têm um gene comum, assim como os bascos”.
Aí o caldeirão ferveu, porque ele pôs o dedo – e fundo – na ferida que paira sobre e sob toda a história da sociedade alemã.
As reações foram imediatas. Embora na maioria dos casos elas esquecessem “os bascos”, e citassem apenas “os judeus”, apontaram que ele estava levantando teses racistas negadas pela ciência. O Conselho Judaico Alemão e o Muçulmano se uniram no repúdio ao livro. O SPD, que já tentara se livrar do polêmico personagem no passado, reabriu o processo de expulsão contra ele – o que na Alemanha é complicado e pode até depender de uma decisão judicial. Até a Chanceler Ângela Merkel veio a público dizer que as declarações de Sarrazin eram inaceitáveis, e que ele deveria deixar o Banco Central ou ser demitido do Conselho.
Entretanto, houve reações mais contemporizadoras, sobretudo na mídia conservadora, dizendo que o tom era equivocado, as teses genéticas também, mas que o controvertido autor levantava problemas “reais”. Ou seja, que há mesmo o temor que a “vaga muçulmana” transforme a Alemanha numa Atlântida moderna.
Pior: em todas as frentes acenderam-se luzes de preocupação com a possibilidade do livro tornar-se um best-seller. Isso, 65 anos depois de Mein Kampf – Minha Luta – de Adolf Hitler, ser proibido na Alemanha, com o fim da Segunda Guerra Mundial.
Não se sabe ainda o que vai acontecer. Estava prometida uma leitura pública (coisa muito do gosto local), junto com o lançamento do livro, que não se realizou, “por razões de segurança”, uma vez houve protestos em frente à livraria. O Banco Central convocou o autor para esclarecimentos junto a uma reunião especial do Conselho Diretor, e reconheceu que as suas declarações “feriam a reputação do Banco”. O SPD – preocupado com a hipótese de perder apoio entre os imigrantes e seus descendentes – vai levar a ferro e fogo a proposta de expulsão. A Chanceler, premida pela impopularidade de seu governo e em busca de apoios e teses populares, certamente vai aumentar a pressão, nos bastidores e fora deles para que Sarrazin seja dispensado do Banco Central.
Mas e se o livro e seu autor se tornarem também populares? Afinal, ele mobiliza preconceitos que, como disse antes, estão na moda, e sem o ranço das manifestações neo-nazis. Para muitos ele parece ser “apenas” um funcionário de carreira meticulosa e cheia de zelos pelo seu país, com idéias ousadas e “algo extravagantes”, mas não destituídas completamente de “alguma razão”.
Mais ou menos como os funcionários que no passado, também zelosamente, trabalharam para e com os nazis.
PS – Esse tema da “inundação muçulmana” não é privilégio da Alemanha. Ele atravessa toda a Europa, os Estados Unidos e até a América Latina, inclusive o Brasil, onde já pululam clipes nos youtubes da vida anunciando o “fim da civilização cristã ocidental”.
A eleição vista de fora do Brasil
Somos hoje 200.050 eleitores, segundo a Agência Brasileira de Inteligência, a ABIN, numa população de 3.040.993 brasileiros que vivem no exterior, segundo o Ministério de Relações Exteriores (816.257 na Europa; 89 mil na Alemanha, que tem 4.515 eleitores registrados na Embaixada e Consulados). Haverá postos eleitorais em mais de 120 cidades espalhadas pelo mundo.
Digo “somos” porque esta será a minha primeira eleição no exterior. Ao longo da vida, embora residisse no exterior várias vezes, sempre estive no Brasil no período eleitoral.
Já apontei em outros artigos, aqui no Blog do Velho Mundo, ou em outras páginas da internet, alguns pontos que sobressaem na visão, quando se olha para as eleições de outubro no Brasil.
O primeiro fator de impacto é a percepção do absoluto anacronismo das oposições conservadoras no Brasil. Seu discurso lembra os filmes de mocinho e bandido das antigas matinês de cinema, contemporâneas da Guerra Fria ideológica. Sequer percebem que a Guerra Fria, se ainda existe, mudou de natureza. É claro que a Otan continua tentando cercar a Rússia, como antigamente. Mas no momento, por exemplo, há uma política de relativa distensão nessa frente – o que diferencia as administrações de Bush e Obama, apesar da retórica agressiva de Hillary Clinton.
As oposições insistem na retórica do alinhamento – melhor, “escondimento” – do Brasil debaixo do guarda-chuva norte-americano. Não dá para acreditar. Na complexidade do mundo de hoje, com os chineses avançando pelas bordas, a Europa em crise monetária, os EUA tendo problemas internos de grande monta, qualquer tentativa de retorno ao mapa da geopolítica de 50 anos atrás estará fadada ao impasse, simplesmente porque esse mapa não existe mais.
Nem mesmo os Estados Unidos de hoje tem interesse nesse retorno, preferindo, apesar dos enfrentamentos eventuais, que o Brasil tenha um papel mais de proa no equilíbrio sul-americano o que, por sua vez, implica em manter uma política de liderança e de iniciativa multi-lateral no G-20, na OMC e na ONU, além de outros espaços e fóruns.
Ainda é cedo para fazer previsões seguras sobre as eleições de outubro. Há uma euforia pró-Dilma com as últimas pesquisas que a põem na frente a ponto de se falar numa vitória no primeiro turno. Instituições e mídia conservadoras inclinam-se por uma vitória daquela que seria a primeira mulher a governar o Brasil: é o que se lê em documentos tão diferentes quanto um relatório interno do Citibank e uma reportagem da vetusta The Economist.
Mas tudo isso são projeções. De qualquer modo, essa nova paisagem mostra que um resultado favorável a Dilma poderia detonar de vez uma velha direita brasileira, anacrônica, aferrada a seu “direito” de arrogar-se única representante dos “interesses nacionais” e a desqualificar a “massa não cheirosa brasileira” como protagonista política, que é o que, no momento, a candidatura Serra representa.
Isso abriria espaço para um pensamento conservador mais “up to date” (para usar um dos termos que eles gostam), tanto no plano externo quanto no plano interno. Poderia gestar um pensamento mais apto a conviver com a democracia como um fator positivo da paisagem, e não algo a ser contornado (já que hoje é difícil ser suprimido como foi em 1964) por manipulações grosseiras como essa de criar um jingle que só fala do atual presidente e uma favela virtual para popularizar seu candidato, que a própria The Economist define como “tedioso na maior parte do tempo, exceto ao sorrir, quando parece assustador”.
Quando olhamos o número de eleitores brasileiros no exterior, que não chega a 10% dos residentes, ele nos parece pequeno. Entretanto ele é fator de ânimo e também índice dessa percepção de que o Brasil vive um momento de consolidação democrática. Em 2000, havia 43.390 eleitores brasileiros registrados no exterior, número que passou para 86 mil em 2006, 105 mil em 2007 e agora passou das duas centenas de milhar. Isso atesta o crescente interesse dos brasileiros fora do Brasil pelas eleições na sua pátria, e sua politização, bem como, de certo modo, a importância que o papel relevante que o Brasil adquiriu na cena internacional tem para o pleito.
Um dado curioso: a grande maioria (3/4) desses eleitores – pelo menos na Europa – são mulheres. Isso se reflete na organização – ainda incipiente das campanhas. Por exemplo: no dia 11 de setembro haverá o lançamento do primeiro comitê pró-Dilma na Europa, com um forte acento feminino. Será na municipalidade de Dortmund-Hörde, no oeste do país, na Igreja Evangélica Noites de Glória, uma das 40 que existem na Alemanha dedicadas à imigrantes brasileiros, com participação também de alguns portugueses. Vai ter feijoada, ao preço não obrigatório de 10 euros, e depoimentos de grupos de várias cidades da Alemanha, entre elas, Berlim. Será, se não houver outro comitê inaugurado antes, o segundo comitê pró-Dilma no mundo, tendo o primeiro sido aberto no estado de Massachussets, nos Estados Unidos, ainda neste mês de agosto.
Outro dado curioso, este, intrigante. Em 2006 o Ministério de Relações Exteriores estimava em 60 mil o número de brasileiros residentes na Alemanha. Entretanto, o Serviço de Estrangeiros desse país tinha o registro de apenas 24 mil. Qual a razão? Clandestinidade? Pode ser. Estudantes (em número elevado) que não se registram porque são “residentes temporários”? Também pode ser. Ficam as perguntas. Em 2006 a votação no exterior, segundo o TER, foi: 1º turno: 17.513 para Alckmin; 15.551 para Lula; 2º turno: 20.912 para Alckmin, 17.948 para Lula. Isso mostra um baixo comparecimento, menos de 50%. Fica a conferir qual será a evolução desses números em 2010.
Afeganistão: a lógica das guerras e a guerra das lógicas
Soldado norte-americano observa o pôr do sol do posto fronteiriço Terra Nova, no norte de Kandahar, Afeganistão. Generais da Otan e dos EUA no centro dos problemas (Foto: Bob Strong/Reuters)
Repercutiram com média intensidade as declarações do general David Petraeus, comandante das tropas da Otan no Afeganistão, sugerindo que a data prevista para o começo da retirada dos militares, julho de 2011, poderia ser “prematura”.
O anúncio da futura retirada fora sublinhado pelo presidente Obama no ano passado, ao enviar mais 30 mil soldados para o Afeganistão. Petraeus foi nomeado para o posto em substituição ao general Stanley McChrystal depois que este deu uma polêmica entrevista à revista Rolling Stones, criticando a política de Obama para a região e vários países que compõem as forças de intervenção no país asiático, entre eles a França.
As recentes declarações de Petraeus foram interpretadas em grande escala como um índice das dificuldades sérias que as forças da Otan têm encontrado no seu enfrentamento com os Talebãs. Mas houve também interpretações mais sutis, que apontam para um possível confronto, não tão espetacular como o de McChrystal, mas de resultados mais dramáticos, entre Petraeus e Obama.
Aparentemente, Petraeus estaria apoiado na lógica da guerra: previsões expõem cronogramas ideais, mas o que decide mesmo é a situação do enfrentamento no campo de batalha. Porém existe também uma guerra de lógicas no bastidor dessas decisões.
Petraeus era visto como um general, digamos, apolítico, se isso for possível. Entretanto o período que passou no comando das forças “aliadas” no Iraque, visto como “bem sucedido” (não sei bem por que, mas essa avaliação existe), o credenciou o suficiente para despertar o desejo em círculos republicanos que ele seja o próximo candidato a enfrentar Obama em 2012.
Ainda não dá para saber se a mosca azul picou de fato o general. Mas o fato é que ser o general que comandaria uma retirada em 2011 com ares de uma possível derrota, ou pelo menos de impasse na frente de batalha, o descredenciaria para aquilo que sua atuação anterior o credenciara.
O movimento de Obama – despertado pela necessidade de substituir McChrystal – foi duplo, e demonstrou uma certa lógica. Nomeando Petraeus, fê-lo embarcar na canoa da sua política para o Afeganistão, para o bem e para o mal. Se Petraeus não tiver sucesso em levar adiante a prevista retirada, o problema será dele. Se conseguir, a vitória fora do campo de batalha será da política do atual presidente.
De qualquer modo, analisando os episódios de um ponto de vista mais abrangente, eles mostram os sucessos e os insucessos da política norte-americana para a região.
O sucesso está na própria guerra, porque ela é necessária para manter a mobilização do império, o que inclui os aliados, em torno dos objetivos, das ações e da lealdade para com o “hegemon” – a potência dominante e líder.
O insucesso está no fato de que esta guerra vem se mostrando inviável e impopular. É curioso ver como, ao contrário dos tempos do Eixo ou da Guerra Fria, as últimas guerras vem sendo disputadas contra inimigos que os próprios Estados Unidos criaram e alimentaram. Assim foi com o Iraque de Saddam Hussein, armado pelos EUA para enfrentar o Irã; assim foi Osama Bin Laden e a Al Qaeda, e também os Talebãs, armados e incentivados pelos EUA para lutarem contra os soviéticos na guerra da década de 80.
Na década de 70 o Afeganistão teve por governo aliados da hoje extinta URSS. Quando esse governo foi derrubado e seu líder assassinado, com apoio dos EUA e do Serviço Secreto do Reino Unido, os soviéticos interferiram com uma força, inicialmente, de 100 mil homens – ao final de 1979. Na guerra que se seguiu, os EUA deram, entre outros apoios, mísseis e seus lançadores para que os Talebãs pudessem enfrentar os blindados e os helicópteros soviéticos. Muitos desses mísseis e lançadores hoje são usados contra as forças da OTAN, e com algum sucesso.
Mas os Talebãs que, quando chegaram ao poder na década de 90, depois que em 89 o Exército Vermelho bateu em retirada, derrotado, impuseram um governo islâmico tão ou mais rígido que o do Irã, têm características muito diferentes do que os outros inimigos que os EUA ajudaram a criar.
Essas diferenças começam pelo fato de que não há um “líder-alvo”, como no caso de Saddam Hussein ou de Osama Bin Laden. Os Talebãs não são uma etnia, mas sim um movimento, e têm apoio em vários países – inclusive no Paquistão, cujo Serviço Secreto recentemente foi alvo de denúncias de que os estaria ajudando, apesar desse país, oficialmente, apoiar a OTAN.
Para completar esse quadro, os Talebãs se enquadram, também, na lógica da guerra. Mobilizados desde a década de 80 – então contra os soviéticos – eles contam já com duas ou mesmo três gerações cuja única “realidade” é a guerra. Esta, como disse um analista, significa “ocupação” e “emprego”, enquanto a paz significaria “desocupação” e “desemprego”.
Quando o presidente Jimmy Carter decidiu começar a dar apoio aos guerrilheiros Mujahidin, como eram chamados na época, houve assessores seus que exultaram, prevendo que estariam atraindo o arqui-inimigo, a finada URSS, para uma armadilha: o “Vietnã deles”. Tinham razão. Mas o que não previam era que estavam ajudando a criar o inimigo perfeito: aquele que não acaba.
A única maneira de acabar com os Talebãs seria propiciar a mudança da sua natureza numa mesa de negociações. Seria isso possível? Uma porta se entreabriu recentemente com o anúncio de que possivelmente o território afegão seria rico em minérios de primeira grandeza, como o lítio e outros, em reservas bilionárias – seja qual for a moeda que exprima isso.
Mas pela atual lógica das coisas, isso, ao invés de propiciar a paz, só poderia intensificar a guerra.
Oposições brasileiras: em que mundo elas vivem?
Dize-me com o que andas, e dir-te-ei quem és. Perdoem-me a empolação da mesóclise(!) e o deslocamento do ditado antigo, mas isso tem a ver com o assunto central de hoje. Mas comecemos pelas laterais do campo, imagem propícia em temos de decisão da Libertadores.
Informações divulgadas recentemente dizem que em 15 anos a China terá a maior economia do mundo em volume monetário. Já é a segunda, tendo superado há pouco a do Japão, a da França e da Inglaterra em 2005 e a da Alemanha em 2007. Quem diz? O Banco Mundial, a empresa Goldman Sachs (http://www.cnbc.com/id/38482538), e outras fontes do tipo.
Isso ainda não fará da China um país 'desenvolvido', porque sua renda per capita ainda será baixa em relação a outros, como os EUA, Japão, Alemanha, etc.
De qualquer modo, a China já consome hoje mais energia do que os Estados Unidos.
Mais ainda, as mesmas fontes dizem que a China é um dos países líderes (assim como o Brasil – nota minha) do G-20, "que, desde a crise financeira de 2008, tornou-se o fórum mais importante para a definição de políticas econômicas." De quebra, leve-se em conta que, se assim não for – isto é – se a China parar de crescer, a Alemanha e a zona do euro afundam de vez, porque a recuperação destas dependem das exportações para o novo gigante asiático.
Vamos passear um pouco agora por algumas das zonas-do-agrião da política internacional. A primeira fica bem perto de casa. Para desagrado de muita gente, Chavez e Santos trocaram gentilezas, ao invés de farpas, e restabeleceram as relações diplomáticas entre os seus países, tudo dentro do âmbito da Unasul. As relações entre Colômbia e Equador devem se regularizar também.
Aliás, recomendo a leitura de artigo assinado por Maurice Lemoine no Le Monde Diplomatique deste mês de Agosto ('Caracas brûle-t-elle?' – págs. 12 e 13). O artigo mostra com razoável consistência e informação que o verdadeiro problema na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia é a presença de remanescentes de grupos para-militares colombianos, de extrema-direita, agora vinculados ao narcotráfico, que estendem sua influência ao país vizinho.
E que houve também um intenso deslocamento de narcotraficantes da Colômbia para Caracas. E, lembra o jornalista, em 2004 foram detidos 116 paramilitares colombianos nas proximidades de Caracas, enquanto preparavam uma ação de desestabilização do governo de Chavez, cujo ponto culminante seria o assassinato do presidente.
Outra zona-do-agrião: China e Rússia - que se empenharam pelas sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU (em troca de concessões dos EUA, como no caso da Rússia, que deseja uma distensão no progressivo cerco de seu território promovido pela OTAN) - declararam em alto e bom som que aquelas não vão alterar seu comércio com aquele. A Rússia adiantou que pretende manter a venda de mísseis defensivos para Teerã. O Irã é o maior exportador de pistache do mundo, e grande parte do consumo desse produto nas mesas e aperitivos da União Européia depende das importações que vêm do Irã. Duvido que isso estanque.
Esses são alguns exemplos que ilustram o ponto em que quero chegar. O "dize-me com o que andas..." refere-se ao mundo simbólico que as pessoas e os grupos levam consigo, como se fosse uma espécie de 'anel de saber' ao redor de suas mentes, corações e almas. Chegamos assim ao centro do campo, o grande círculo onde as oposições e seu candidato (assessorado por seus arautos na mídia) concebem suas jogadas.
Fico cada vez mais estarrecido diante dessas 'escaramuças eleitorais' que as oposições vêm praticando em relação a aspectos da política externa brasileira, pregando de novo um anacrônico alinhamento automático com os Estados Unidos, uma desqualificação dos países sul-americanos vizinhos e de seus governantes, um desprezo pelos países emergentes entre outros fóruns no G-20.
Pensam que vivemos ainda no 'bom tempo' em que 'negócio' se fazia com os EUA, a Europa e o Japão. Não se trata apenas, vejam bem, de discutir o 'certo' e o 'errado'. Nem mesmo apenas de discutir qual é a conveniência para o Brasil desta ou daquela política, ainda que esses aspectos sejam importantíssimos. Trata-se de perguntar "onde, em que planeta essas pessoas e grupos – as oposições brasileiras – estão vivendo?" Certamente não é o mesmo em que eu e, parece, 80% do povo brasileiro vivemos.
No caso da vitória dessas oposições, das duas uma: ou o retrocesso seria enorme, voltando nós a vivermos mais ou menos lá pelos anos 50, aqueles do governo Dutra, quando o Brasil se alinhou de vez na Guerra Fria – mas assim mesmo por um curto período, rompido de novo no governo de Vargas, ou então os vencedores teriam de dar um abaninho ao povo que os elegeu e fazer 'outra coisa'.
É melhor não correr esse risco.
Euro vs. Euro: as duas faces da mesma moeda
Toda moeda tem duas faces, como o deus Janus da mitologia romana, que olhava para o futuro e o passado ao mesmo tempo. Ou como o chapéu de Exu, que era verde de um lado e vermelho do outro, provocando controvérsias por onde passava.
Se olharmos a moeda Euro, acontece algo análogo. Por exemplo: o Euro pode ser a salvação da Alemanha, e pode ser a cova da Grécia.
Há sinais de uma já não muito discreta euforia em torno do atual desempenho econômico alemão. Enquanto isso, a Grécia vai se afundando num pântano político de saída cada vez mais complicada.
No caso alemão, vê-se uma queda de braço nos bastidores da moeda. A atual crise do sistema financeiro e da dívida pública dos países da zona do Euro trouxe à tona o banido Lord Keynes e suas teorias sobre a intervenção macroeconômica do Estado. Idéias como essa estiveram na base de atitudes como a intervenção norte-americana no sistema. Também naquele momento mais agudo o Reino Unido enveredou por esse caminho. Até a Alemanha da chanceler Ângela Merkel seguiu a caravana, ainda que de modo relutante, até o limite de construir um fundo para suporte do Euro – atitude puxada “manu militari” por Sarkozy, que, consta, deu murros na mesa e ameaçou abandonar a moeda única se a medida não fosse tomada.
Mas a partir daí a sereia do canto foi diferente, porque para a constituição de tal fundo foi necessário chamar o FMI e suas conhecidas receitas recessivas, que afundaram a Argentina, o México e o sudeste asiático no século passado.
À Alemanha, no dizer da chanceler, cabia “dar o exemplo”, para que fosse seguida ou pelo menos ajudasse a segurar medidas semelhantes pelos países da periferia do Euro e que estavam mais a perigo de entrar na zona da insolvência onde a Grécia já estava atolada. E ela deu.
Adotou, ao contrário da aposta feita pelo governo de Obama do outro lado do oceano, a tradicional saída de favorecer exportações e desestimular importações – não através de uma regulação cambial, coisa que parece inverossímil para uma mesma moeda que atende a 16 países ao mesmo tempo – mas através da compressão do poder aquisitivo da população para baratear o custo daquelas e bloquear o consumo destas e da redução de investimentos públicos, para garantir a progressiva renegociação das dividas públicas junto às instituições financeiras, captando-lhes a “confiança”.
O impacto imediato dessas disposições foi um aumento nas exportações e uma nova oferta de empregos. Porta-vozes governamentais já prevêem que ainda este ano o número de desempregados na força de trabalho alemã poderia baixar a marca dos 3 milhões, o que seria um marco histórico. Ao mesmo tempo apontam para uma recuperação da média empresa industrial.
Entretanto, essa ainda pequena maré de euforia encontra pela frente os seguintes arrecifes:
- Cresceu a oferta de “empregos temporários”. Há um esforço, por parte da coligação governante, para garantir aos “temporários” a mesma paga dada aos “permanentes”, dentro, é claro, da expectativa de que haverá uma redução geral de salários nos próximos anos. Se isso vai tornar a economia sustentável diante do pacote recessivo cujos efeitos de longo prazo ainda não se avolumaram, é uma aposta a verificar.
- O esforço nas exportações depende tanto das importações chinesas – inclusive na construção civil – quanto de tornar a produção alemã competitiva dentro da própria zona do Euro, o que pode onerar os outros países de economias mais frágeis e atados à mesma moeda – como a já comprometida Grécia, além de Portugal, Espanha, Itália e outros. Ao mesmo tempo, se a economia chinesa refrear o seu ritmo de crescimento, ainda que ele se mantenha alto, isso terá um efeito mundial ainda desconhecido.
- A popularidade do governo alemão está em níveis mínimos para a sobrevivência política da coligação no governo. A maré de euforia na mídia se sobrepôs –não anulou – a maré negativa anterior de críticas tanto à prolongada falta de ação do governo quanto às medidas rigidamente recessivas do pacote econômico. Até que ponto a situação política poderá influenciar o desempenho econômico é questão ainda não avaliada, embora sempre haja o esforço de demonstrar que isso é impossível, dada à crença “comum” nos “pressupostos da economia de mercado”, ou seja, os centrados em torno da idéia de que o Estado e suas regulações devam ser mantidos o mais longe possível.
- Ainda que seja a economia mais forte da zona do Euro, Alemanha não poderá sair sozinha da crise. A situação geral da moeda vai depender do bloco inteiro, e da relação entre as peças do conjunto. Até aqui o que vem aparecendo de modo mais consistente é que, como costuma acontecer, a crise engendrou concentração de capital e, com isso, a sua própria “periferia”, formada pelos países mais pobres ou menos ricos do grupo, como se queira olhar.
A atual situação e essas perspectivas não tão róseas parecem apontar para a confirmação de conhecido ditado, “chucrute pouco, meu Euro primeiro”, o que faz com que a moeda única seja bóia de flutuação para uns e peso morto para outros. Mas todo estão à deriva na areia movediça da economia (des)regulada pela ciranda financeira, o endividamento estatal e a brutal transferência de capitais da esfera pública para a privada que isso representa.
Loveparade: uma tragédia anunciada
Ambulâncias em frente a um túnel durante Loveparade, em Duisburg, onde ocorreu a tragédia que mostra despreparo para lidar com a nova Europa (Foto: Kirsten Neumann/Reuters)
De luto e perplexa, a Alemanha aguarda o resultado das investigações sobre a tragédia da Loveparade realizada em Duisburg, na região industrial do rio Ruhr, a oeste do país.
19 pessoas morreram pisoteadas no domingo e 342 ficaram feridas quando o pânico se instalou em parte da multidão que acorrera a este festival de música tecno, comprimida dentro de um túnel de passagem que se revelou uma armadilha mortal. Na terça-feira (27) foi anunciada a morte de uma jovem em consequência dos ferimentos, elevando o total de vítimas fatais para 20.
Os comentários na mídia alemã apontam para um despreparo tanto dos organizadores do evento quanto da polícia que fazia a segurança.
>> Afeganistão: a guerra dos documentos
As autoridades prepararam um contingente de 1.200 policiais, prevendo uma multidão de 500 mil pessoas. Os organizadores previam 800 mil. Apareceram 1,4 milhão de jovens. No entanto, o local previsto para o show que tradicionalmente encerra a parada, uma antiga estação para trens de carga, tinha uma lotação de 250 mil. Veio à luz na segunda-feira um documento da polícia local que desaconselhava, primeiro, a realização de um evento dessas proporções em Duisburg, cidade de 500 mil habitantes e sem infraestrutura para tanto; segundo, a convergência de seu final para um local fechado.
A Loveparade nasceu em Berlim, no ano em que o muro caiu, 1989. Em sua primeira realização, algumas centenas de jovens compareceram. Mas na euforia da reunificação alemã, ela cresceu rapidamente, chegando em poucos anos a cifras de milhão a 1,6 milhão de participantes.
De um evento de cultura underground ou alternativa, passou a ser um evento comercial de megaproporções. Os organizadores iniciais se afastaram, e a Loveparade deixou Berlim, migrando para a região do Ruhr, em cidades como Essen, Dortmund e agora Duisburg.
Mesmo antes da conclusão das investigações, uma coisa parece certa: a Loveparade está condenada, e com ela chega ao fim uma era da nova Alemanha.
Essa tragédia confirmou minha impressão de que uma parte das autoridades, e de organizadores de tais iniciativas, ainda vive numa Alemanha e/ou numa Europa que não mais existem.
Hoje a mobilidade dos jovens, motivada e potenciada pela internet, pela queda das barreiras políticas entre os antigos “Leste” e “Oeste”, pelas promoções aéreas, é muito maior do que há vinte anos.
Quando o então candidato democrata Barack Obama veio a Berlim, em 2008, a polícia preparou um esquema de direcionamento e bloqueio da passagem, com barreiras de metal, prevendo 150 mil pessoas. Apareceram 300 mil. O esquema não mudou. Só não houve uma tragédia porque os espaços e os caminhos de Berlim são muito amplos, e havia muitas saídas para escapar do tumulto e também, meios para não entrar nele.
Não foi o caso de Duisburg, onde a multidão passava por uma espécie de corredor, numa avenida ladeada por altas cercas, e depois entrava no túnel fatal – ressalvadas as proporções, como se faz num brete, nos matadouros.
Sintoma desse descompasso foi a patética frase de um dos responsáveis pelo plano de acesso ao local do festival, que se diz “especialista em pânico de multidão”, no Der Spiegel: “infelizmente muita gente não se comporta de acordo com as regras”.
Afeganistão: a guerra dos documentos
Oficial monitora área da ONU perto de Herat; documentos das Forças Armadas dos Estados Unidos revelados (Foto: Morteza Nikoubazl/Reuters)
O site Wikileaks, a revista alemã Der Spiegel, o jornal britânico The Guardian e o norte-americano The New York Times divulgaram, simultaneamente no domingo que passou, o conteúdo de um conjunto impressionante de documentos até então secretos sobre a Guerra no Afeganistão.
Os documentos, elaborados de 2004 a 2010, vem sendo chamados de “O Diário da Guerra no Afeganistão” ou o “Protocolo Afeganistão”.
Na maior parte são relatos diretos das frentes de batalha onde soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – liderada pelos Estados Unidos, com a participação de países como o Reino Unido e a Alemanha – enfrentam os guerrilheiros talebãs.
Na maior parte dos casos, o conteúdo das revelações não é surpreendente. O que surpreende é o volume de informações, e sua autenticidade, transformando suposições em certezas.
Entre as principais revelações estão:
- O papel de uma força-tarefa secreta, a 373, que recebe ordens diretamente do Pentágono, encarregada de perseguir, prender ou matar líderes dos talebãs e da organização terrorista Al Qaeda. E também relato sobre suas falhas – como de terem bombardeado uma escola, matando sete crianças, quando pensavam atacar um grupo de inimigos.
- Casos extremos de corrupção e extorsão por parte da polícia e autoridades afegãs.
- O papel ambíguo do Serviço Secreto do vizinho Paquistão, que em alguns casos ajuda os talebãs, numa espécie de “jogo duplo”. Autoridades paquistanesas negaram esse envolvimento, mas as denúncias contidas no “Protocolo Afeganistão” vem sendo apontadas na mídia como consistentes.
- O completo despreparo de vários órgãos militares em avaliar o real perigo das situações. Esse foi o caso constrangedor do Exército Alemão, que, não desejando se envolver demasiadamente em confrontos diretos, escolheu a área de Kunduz, ao norte do Afeganistão, por considerá-la mais segura. Na verdade, a região revelou ser uma das mais perigosas.
- O armamento dos talebãs é muito maior e melhor do que se pensava. Eles têm inclusive lançadores de mísseis que usam contra os aviões que voam sem pilotos para efetuar bombardeios. A posse desses lançadores foi essencial para derrotar o Exército Vermelho no passado, quando os talebãs eram vistos como aliados do Ocidente contra os comunistas, durante a Guerra Fria.
Tudo aponta para uma dura realidade: é possível que o Afeganistão seja um túnel sem saída para os EUA, assim como já foi para a antiga União Soviética.
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E as manifestações de oposição à guerra, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, vão crescer.
A revelação dos documentos provocou uma série de reações. A Casa Branca lamentou a divulgação, bem como boa parte da mídia conservadora. Entretanto, até agora não houve nenhuma contestação séria da autenticidade dos documentos. Além da WikiLeaks, as três publicações que divulgaram o conteúdos dos documentos declararam que, depois de semanas examinando-os, concluíram pela sua autenticidade.
O caso despertou comparações com os famosos “Pentagon Papers”, de começo dos anos 70, no século passado. Um funcionário da RAND Corporation, Daniel Ellsberg, que prestava serviços ao governo norte-americano, xerocopiou um montante de 7.000 páginas de documentos secretos que historiavam as decisões dos EUA com respeito à região e à Guerra do Vietnã, de 1945 a 1967. A série de documentos, reunidos por iniciativa do secretário de estado Robert McNamara, demonstrava (segundo o New York Times) que o governo norte-americano ocultara fatos e divulgara informações falsas para justificar a Guerra. Ellsberg teve acesso aos documentos a partir de 1969, e em 1971 repassou as cópias para o NYT e outros jornais. Depois de uma curta querela na justiça, o jornal foi autorizado a divulgar os documentos. Ellsberg foi a juízo, acusado de espionagem. Mas seu processo foi alvo de inúmeras irregularidades, desde quebra de sigilo e invasão do escritório do juiz, até escutas ilegais (sem autorização judicial) promovidas pelo FBI e por outros agentes, alguns também envolvidos no escândalo de Watergate – o caso das escutas e espionagem na convenção dos Democratas, que levou o presidente Nixon à renúncia. Ellsberg acabou inocentado em 1973.
Outro caso que veio à tela foi o da recente divulgação no Youtube de uma gravação em vídeo, também mantida em segredo, de cenas em que soldados norte-americanos (alguns rindo), atiram (parece que por engano) num grupo de pessoas no Iraque, matando várias delas, inclusive dois repórteres da agência Reuters, confundindo as suas câmeras com armas pesadas.
O caso da divulgação dos “Documentos do Pentágono” foi, por assim dizer, possível graças ao aperfeiçoamento da xerocopiadora. Os outros dois casos aqui referidos tornaram-se possíveis graças à ampliação do alcance da internet.
Essa última observação levou o jornal Süddeutschezeitung (que é tido como de centro-esquerda, uma espécie de Carta Capital germânica) a dizer que, seja-se contra ou a favor da divulgação dos documentos secretos, essa (a internet) é uma realidade que um país em guerra não pode deixar de levar em conta.
Por sua vez, Julian Assange, o criador do site WikiLeaks, declarou à revista Der Spiegel de fato esperar que a divulgação desses documentos ajude a pôr fim à guerra. Indagado se essa divulgação poderia ser perigosa, ele respondeu que "perigosos são os que fazem a guerra".
Europa: a guerra da homeopatia
O uso de tratamentos homeopáticos sempre despertou polêmicas. Agora isso pode despertar uma nova guerra.
Devem os sistemas públicos de saúde continuar cobrindo os tratamentos homeopáticos? Em tempos de crise e de cortes em todos os investimentos públicos na área social – inclusive nos sistemas de saúde, realidade que corre a Europa com a velocidade e o castigo do minuano pampiano – a questão desperta defesas e ataques apaixonados.
Alegam os inimigos da homeopatia que ela não tem caráter científico, que não há provas de que os tratamentos de fato curem pacientes, que seu efeito seria o mesmo de um placebo alopático. Isto é, nenhum. Cobrir a homeopatia num sistema de saúde seria, portanto, jogar dinheiro fora.
Entretanto... há mais no ar do que a vã filosofia da “lógica científica” consegue aceitar. O Conselho da União Européia recomenda oficialmente que os remédios homeopáticos tenham registro aceito, desde que não contenham doses perigosas de seus elementos ativos. Ou supostamente ativos, segundo os inimigos da prática.
Não há um único país que a proíba. A questão é sua inclusão no sistema público de custeio.
A popularidade da homeopatia varia muito de país para país. Por exemplo, 57 % dos alemães admitiram em pesquisa recente que já tomaram alguma vez na vida um remédio homeopático. 25 % – um número considerado alto – admitem que se tratam preferencialmente com a homeopatia. 11% declaram-se exclusivos. De qualquer modo, hoje na Alemanha é praticamente impossível encontrar uma farmácia que não tenha pelo menos uma estante reservada à homeopatia e outros tratamentos alternativos à alopatia tradicional.
Na Escócia, uma pesquisa de 2006 determinou que 49% das “práticas médicas” (receitas, aconselhamentos, dietas, etc.) tinham por base a homeopatia. Na Suíça, uma tentativa de tirar a homeopatia da cobertura pública deparou com um referendo em que dois terços dos votantes rejeitavam a medida.
No Reino Unido existe uma militância ferrenha contra a homeopatia. Recentemente a revista alemã Der Spiegel relatou uma experiência curiosa. Centenas de militantes anti-homeopáticos compraram vidros de um remédio à base de arsênico, usado contra intoxicação e náuseas. Todos, às dez horas de um certo dia, tomaram – não apenas algumas das pílulas – mas o vidro inteiro. Nada aconteceu. A rigor, a dose deveria provocar uma maré de náuseas capaz de por em risco a estabilidade do que resta do Império Britânico.
Mas os anti-homeopáticos esbarram numa parede intransponível: a Família Real, Príncipe Charles à frente, se trata homeopaticamente. Como retirar da lista de cobertura pública algo produzido “by appointment to Her Majesty the Queen”? Isso é pior do que a dúvida hamletiana sobre ser ou não ser.
No Brasil a homeopatia está entre os tratamentos aceitos pelo SUS, em nome do direito à escolha, e 108 municípios têm unidades de saúde homeopatas.
Voltando à Alemanha, aqui persiste o temor de que, se o sistema público não cobrir a homeopatia, haverá um êxodo de pacientes em direção a seguros privados que o façam. Qual o risco? Especialistas na matéria apontam que o usuário médio de homeopatia (que na maior parte são mulheres) é abonado ou de posses altas, tende a pagar por coberturas mais caras e, no entanto, fica menos doente do que a média dos outros. Ou seja, para um tipo de cobertura que se queira solidária, esse tipo de paciente é fundamental. Contribui mais, custa menos.
Entretanto, há uma razão mais profunda para a fidelidade entre homeopatas e homeopáticos. Num sistema de saúde cada vez mais pressionado financeiramente, em que falta pessoal e em certas épocas do ano (como no último inverno rigoroso ou no verão senegalesco que ora se abate por estas bandas), os ambulatórios ficam abarrotados, a tendência geral é a do abreviamento das consultas. Não é incomum um paciente ver o médico por cinco ou dez minutos e ser encaminhado logo para um exame laboratorial (ou vários) ou para a farmácia mais próxima com uma receita na mão. Casos menos complexos ou ao contrário, mais complexos, de diagnóstico mais difícil, são remetidos (como tive a oportunidade de presenciar) para os médicos particulares.
Já na prática dos homeopatas, uma consulta dura pelo menos uma hora, e revira-se a vida do paciente pelo avesso: hábitos alimentares, de trabalho, de lazer, sonhos etc.
“Ora”, dizem os homeopatófobos, “é isso mesmo: a homeopatia é só conversa”. Respondem os homeopatófilos: “sim, mas é essa conversa que começa a fazer toda a diferença”.
Acho que a polêmica vai continuar.
(Foto original: Philippa Willitts/Flickr)
Spy vs. Spy: mais atual que nunca!
Tira criada por Antonio Prohías em 1961, mas seguiu sendo copiada por outros artistas (Foto: Reprodução)
Muitos anos atrás, eu costumava ler regularmente a revista MAD, dos EUA. Uma de minhas seções preferidas chamava-se “Spy vs. Spy”, que caricaturava a Guerra Fria. Nela, dois espiões, um completamente vestido de branco e o outro de preto (a revista era em preto e branco, exceto a capa), lutavam entre si, aprontando armadilhas, bombas que explodiam etc. A praxe era que eles se arrebentavam e nenhum ganhava de vez.
Bom, na vida real a situação foi outra: um deles – não sei se o de branco ou o de preto – ganhou. O comunismo caiu, a União Soviética se foi, os Estados Unidos e o capitalismo ganharam. Mas o jogo da espionagem continuou, e agora reapareceu no noticiário comuma força há muito não vista – como o frio aí no sul do Brasil e o calor nesta tórrida e tropical Berlim.
Enquanto o polvo Paul encantava o mundo com as suas previsões infalíveis (melhor que o Papa), a paraguaia Larissa Riquelme com o seu celular, a seleção alemã com seu aspecto multiculti e o seu futebol vistoso, o mundo da espionagem e da contra-espionagem passava por convulsões há muito não vistas – exceto, talvez, nas telas de cinema, TV e livros do gênero.
No dia 11 de junho pp. o presidente Obama foi oficialmente informado que o FBI preparava-se para prender, numa só tacada, 10 supostos norte-americanos natos ou de adoção, em diferentes cidades dos EUA, acusados de serem espiões para a Rússia. A reunião se realizou no famoso Salão Oval da Casa Branca, e nela estava, além de representantes do governo, da CIA, do FBI, um dossiê de 37 páginas sobre os agentes, quem eram, o que tinham feito... mais ou menos nos últimos dez anos!
Os agentes tinham uma aparência comum: dos 10, oito eram casados e tinham filhos; viviam em geral pacatas vidas de subúrbio; eram jornalistas, professores, pequenos empresários, donas de casa. Estavam perfeitamente integrados no american way of life. Explicavam seus sotaques por diferentes origens no exterior: um dizia que era da Itália, outro do Uruguai, ainda outro do Canadá etc.
A mais notória tinha sobrenome Chapman, que herdara de um casamento desfeito no Reino Unido, era uma mulher bonita, com passaporte britânico, havia trabalhado no setor financeiro, circulava em meios empresariais e políticos com desenvoltura. Não sei se por despeito, vingança, ou outra razão, seu ex-marido divulgara um dossiê sobre sua intensa vida social nos EUA.
A anunciada prisão dos dez era uma solução e um problema. Dali a exatos 13 dias o presidente Dmitri Medvedev, da Rússia, desembarcaria em Washington para uma visita oficial à Casa Branca. A saia justa (ou a calça acima do tornozelo, para não sermos acusados de machistas) seria inevitável. Porta-vozes do FBI negaram, mas outras fontes afirmaram e confirmaram que ali já foi aventada e delineada a hipótese da troca de prisioneiros.
A partir dali as coisas funcionaram suiçamente, como num relógio. Os contatos foram feitos, telefonemas em aparelhos espaciais cruzaram o Atlântico e a Europa, os EUA enviaram o nome de quatro russos presos e condenados por espionagem em seu favor ou do Reino Unido cuja libertação lhes parecia interessante. Havia detalhes complicados. Os quatro russos tinham atividades notórias, já tornadas públicas; os russos presos nos EUA, não.
Não sei se para minimizar a história, ou se assim fora mesmo, as agências norte-americanas espalharam a versão de que, na verdade, os dez eram meio ineficientes, e não tinham conseguido transmitir informações de peso, ao contrário dos agentes presos na Rússia. Tipos assim: “os nossos agentes são melhores do que os de vocês”. O caso assumiu um ar de algo como: esses 10 agentes são ainda uma herança dos métodos da finada União Soviética, ineficientes, comprometedores, de má qualidade.
De todo modo, era necessário obter uma confissão de todos eles. Uma das agentes russas resistiu: era mãe, queria ter garantias sobre seu destino e o do filho. Nascida no Peru, fora para os Estados Unidos, casara com um dos agentes russos, dez anos mais velho do que ela, e se envolvera no esquema. Fez-se uma barganha: ela assinou a confissão, teve garantias de que poderia voltar ao Peru, se quisesse, o filho de 17 anos poderia escolher o seu destino, entre ir com ela ou morar com um irmão mais velho por parte de pai nos EUA, e de quebra ela receberá uma pensão vitalícia de 2 mil dólares mensais (isso é que é aposentadoria, pensei eu).
Uma outra complicação deu-se em Chipre, na Europa. No mesmo dia das prisões nos EUA (segundo algumas fontes, 21 de junho, segundo outras, 27), um décimo primeiro agente do esquema, aparentemente aquele que enviava dinheiro para os outros, foi preso naquela ilha do mediterrâneo, quando tentava embarcar para a Hungria. Inexplicavelmente, para mim pelo menos, ele conseguiu sair da prisão pagando uma fiança de 33 mil dólares, e desapareceu. Não é de todo desarrazoado pensar que ele pudesse ser um agente duplo, e que nele estaria a chave para o desmantelamento do grupo.
O fato é que no dia 24, quando o presidente Medvedev desembarcou em Washington, a situação estava completamente resolvida, e ele e o presidente Obama puderam dar continuidade à atual política de distensão entre as duas potências. E no dia 9 de julho, enquanto São Paulo comemorava a fracassada revolta de 1932, espanhóis e holandeses, a classificação de suas seleções para a final, e o polvo Paul fazia a sua derradeira e correta previsão, dois aviões pousaram em Viena, na Áustria: dez pessoas saíram de um e foram para o outro; quatro fizeram o vice-versa. Pouco tempo depois o primeiro retornou para Washington e o segundo para Moscou.
É claro que o caso está longe de estar encerrado. Moscou diz que vai investigar a razão da queda do esquema; os quatro russos libertados, alguns depois de vários anos de prisão, terão de decidir sobre suas vidas. Os filhos de todo mundo passarão por atendimentos especiais, pois poderão entrar em crise de identidade, sentimentos de traição e de rejeição.
Uma pergunta me ficou, aquela que não quer calar: por que o FBI, que monitorava o grupo há dez anos, decidiu efetuar as prisões justamente quando da visita de Medvedev aos EUA? A razão dada não é de todo convincente: diz a versão oficial que dois movimentos dos agentes russos deflagraram a ação. Uma foi a programada viagem de um deles à França, para este verão europeu-senegalesco que estamos vivendo; a outra foi um telefonema da sra. Chapman para seu pai, dizendo que suspeitava ter sido desmascarada.
A primeira razão, completada pela suspeita de que o agente russo poderia seguir para a Rússia e não voltar, é baseada, aparentemente, em suposição. A segunda – a do telefonema interceptado – é contraditória. A suspeita da sra. Chapman foi baseada no fato de que um agente do FBI, disfarçado de agente russo, entregou-lhe um passaporte ou outro documento, que ela deveria entregar para um outro agente supostamente russo, mas também, na verdade, do FBI. O pai, preocupado, disse que ela deveria levar o passaporte à polícia – e foi isso que a levou à prisão. Ou seja: foi um movimento do próprio FBI que deflagrou a situação usada para deter o grupo.
No meio de tanta confusão, uma coisa me parece certa: nos EUA (na Rússia deve haver também) há gente de alto escalão a quem a política de distensão com a Rússia não interessa. E tudo pode fazer essa gente para atrapalha-la. Si non e vera, e bene trovata, essa minha versão. Porque a oficial tem muito oco pelo meio.
O time multi-culti da Alemanha
Herr Cacau, brasileiro naturalizado alemão, é apenas um dos 11 atletas com ascendência estrangeira (Foto: Ina FassBender/Reuters)
Num país em crise, com a economia sendo “passada a ferro” pelas regras do FMI num clima recessivo, em que os direitos sociais estão passando por uma poda sem precedentes, em que o presidente renunciou recentemente e a eleição indireta do novo foi um pesadelo para o governo, em que a popularidade do governo e dos seus partidos está lá embaixo, de repente o futebol, a seleção nacional e a Copa do Mundo passaram a ser uma milagrosa tábua de salvação.
Estamos falando, como estávamos acostumados, do Brasil? Não, da Alemanha.
Mas há mais nisso do que pensa a nossa vã filosofia. É que a seleção germânica passou por uma mudança de caráter das mais significativas.
O futebol alemão – o da sua seleção em particular – sempre foi associado a um blindado de artilharia – um Panzer, para ser mais exato. Troncudo, carrancoso, eficiente como um capitalista protestante e conservador como um bispo católico do partido de Bento XVI e, sobretudo, germânico, profundamente germânico: assim era o retrato do time alemão tradicional.
De repente, o que se vê? O time alemão jogando aberto, bonito, rápido, um time jovem de gente bonita. E sem o ex-capitão Ballack, o que, no meu entender deu-lhe mais mobilidade e jinga. Jinga? É, jinga. Não estou com aqueles que querem crucificar Dunga e o nosso time. Mas que faltou jinga, faltou, sobretudo naquele segundo tempo contra os holandeses em que fomos derrotados por uma laranja... mecânica. É um time que jogou certinho, só certinho. Só que o nosso, no segundo tempo, fez tudo errado. Desmanchou-se em campo.
Enquanto isso os lépidos e faceiros germânicos deram uma lição ímpar “a los hermanos de más Allá Del Plata”.
Pois vejam só: lépidos, faceiros e... coloridos! Não só o futebol deles é colorido: o time é colorido. Foi isso que mudou no time alemão: antes ele era um filme em louro e branco; no máximo havia uma cabeleira (sempre curta) morena que vinha lá dos fundos da Baviera. Agora, te tudo quanto é cor. Tem até uma cor que se chama Cacau – Herr Cacau – e que veio do Brasil. Tudo começou em 2004 quando, depois de um desempenho fraco no campeonato europeu, a Federação Alemã de Futebol decidiu "abrir" o time para os seus "oriundi".
11 dos 23 jogadores que a Alemanha despachou para a África do Sul têm ascendência próxima ou nasceram em terra estrangeira. Além do Claudemir Jerônimo Barreto – o Cacau, veja só:
Miroslav Klose, Lukas Podolski e Piotr Trochowski vieram da Polônia.
Mesut Özil, do Werder Bremen, é de ascendência turca, é muçulmano e recita o Corão antes de cada jogo.
Serdar Tasci também é de ascendência turca.
Mario Gómez tem o pai espanhol.
Sami Khedira tem o pai da Tunísia.
Dennis Aogo tem o pai nigeriano.
Jerome Boateng nasceu em Gana, filho de pai ganes e mãe alemã. Jogou contra o irmão, que era da seleção de Gana.
Marko Manin é sérvio de origem.
O time alemão está sendo descrito como o “retrato de uma nova Alemanha”.
Mas nem tudo são flores para o sucesso desse time que, vença ou perca a Copa, já marcou um gol pela integração.
É verdade que os bairros turcos de Berlim estão cobertos por bandeiras alemãs e da Turquia. O comerciante Youssef Bassal (relato do Berliner Zeitung), no bairro de Neukölln, resolveu pendurar um bandeirão alemão de 20 metros na fachada do prédio onde tem sua loja de telefonia celular. A bandeira já foi rasgada (duas vezes) por anônimos – mas que se dizem de esquerda, deixando mensagens alegando que aquilo é “nacionalismo” alemão. De esquerda? Sinceramente, para mim isso é racismo disfarçado.
Em compensação, há grupos neonazis que, pela internet, têm repudiado a seleção alemã. Outros dizem pejorativamente que ela é uma seleção da ONU, não da Alemanha. Mas o caso mais curioso é o daqueles que dizem que só torcem pela Alemanha quando os jogadores alemães puro-sangue tocam na bola...
Mas enquanto isso a maioria dos alemães, venham de onde vierem, se divertem a mil com os jogos – pelo menos até aqui, numa trajetória que foi empanada mas não cortada pela derrota para a Sérvia.
Dentre os mais velhos, há quem não goste desse embandeiramento geral das cidades, pois isso lhes traz recordações desagradáveis do passado.
Mas para os mais jovens, em geral, é uma festa.
A gente vê que de fato há uma nova Alemanha nascendo. Não das cinzas, mas entre as cinzas, sejam as eventuais do vulcão islandês, sejam as ameaçadoras da crise econômica e do pacote depre/regre/ssivo que sobre ela se abate.
G-20: dois pra lá, nenhum pra cá
Obama chega para encontro do G8. Por que eles não têm um BB, CEF ou BNDES? (Foto: Reuters/Eric Feferberg/Pool)
Essa reunião do G-20, terminada no domingo, acabou como se esperava desde sempre: sem decisões dramáticas, muito antes pelo contrário.
Não havia mesmo clima para muito mais. O momento é, digamos, de “estudos internos”. Ou seja, cada país está fazendo as contas e os ajustes dentro de suas fronteiras para ver como vai contar com a saída da situação de aperto. Não há clima, portanto, nem para grandes decisões conjuntas, nem para alimentar grandes discordâncias e polêmicas.
A única certeza que cresce a cada reunião é a de que, com 6 países do G-8 no estaleiro, esse grupo virou um convescote onde seus membros procuram acertar estratégias para enfrentar a plenária maior. Mas nem isso funciona muito, porque hoje há uma oposição entre os Estados Unidos e os líderes da União Européia. Estes – Ângela Merkel à frente – querem afirmar e reafirmar seus pacotes recessivos como o remédio para a crise, sem o qual não há saída possível. E os Estados Unidos – assim como em outra ponta o Brasil – afirmam seu temor de que estes pacotes aprofundem mais a recessão na União Europeia e com isso aprofundem mais ainda a recessão mundial. Obama precisa de empregos; a U. E., sobretudo a Alemanha, precisa restringir o poder aquisitivo, enfraquecer os salários, conter os investimentos sociais para, com isso, assegurar o que gasta com o serviço de suas dívidas.
Por isso, sem que se registrassem grandes avanços em nenhuma direção, a reunião no Canadá acabou delineando, além das medidas de cortar déficits públicos pela metade até 2013 e estabilizar a relação déficit/PIB até 2016, apenas duas grandes certezas, ambas de natureza conservadora.
A primeira, já abordada, é a de que parte do G-8 (França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Japão) vai jogar o seu peso no mundo para provocar mesmo um clima recessivo. Não adianta considerar que as medidas preconizadas têm um caráter indicativo e os prazos não são, na verdade, rígidos. Importa mais ver para onde eles apontam, o que sinalizam.
A segunda certeza é a de que, por necessidade desses mesmos devedores que torraram sua capacidade de investimento e agora exigem que os trabalhadores e pensionistas paguem a conta, assim como países menos poderosos desse mundo, ainda não chegou o momento, se é que chegará um dia, de colocar-se um freio eficaz na boca dos bancos e instituições financeiras que atuam internacionalmente. Não se trata de impor novos impostos internacionais sobre as movimentações financeiras. Trata-se isso sim de criar condições (de acordo com as recomendações do Comitê da Basiléia) para que os bancos deixem de ser tão vulneráveis a perdas, que possam suporta-las e socializa-las entre seus acionistas, ao invés de penalizarem o sistema como um todo.
Para dar um exemplo, veja-se a recente observação do economista Joseph Stiglitz, segundo quem os EUA poderiam, com o capital usado para socorrer o sistema financeiro, ter fundado um novo banco [público] e com ele remanejar as condições de funcionamento do mercado financeiro. O que equivale a dizer algo mais ou menos assim: por que vocês, da economia mais poderosa do mundo, não têm um Banco do Brasil, uma CEF, um BNDES?
A economia europeia e o cavalo chinês
Novamente, os gregos estão às voltas com um cavalo. Mas não é mais o de Troia. Ao contrário, agora foi pela Grécia que um “cavalo chinês” adentrou os muros da União Europeia. Botou o pé na porta, os cotovelos na mesa e já quer sentar na janelinha do ônibus.
Para a Grécia, é como se um paciente terminal recebesse uma dose inesperada de oxigênio ou outra substância salvadora: no caso, alguns bilhões de euros em investimentos e negócios.
Em duas visitas realizadas por altos funcionários e o próprio vice-primeiro ministro da China, Zhang Dejiang em um mês, a China e a Grécia de George Papandreou fecharam acordos nas áreas de navegação, indústria naval e telecomunicações, além de abrirem horizontes para outras iniciativas de peso.
Aos poucos, os detalhes vêm vindo à tona. Zhang Dejiang chegou a Atenas da semana passada acompanhado por 30 grandes empresários chineses. Ao todo, 14 grandes acordos de investimento foram fechados, cujo valor total ainda não ficou claro.
A Cosco, a grande companhia chinesa de navegação, que já havia assumido o controle do porto de Pireu no ano passado, numa concessão de 35 anos, no valor de 1 bilhão de dólares (RS$ 1,8 bilhões, aprox.), vai construir no mesmo porto uma linha de produção de contêiners. Além disso, a BCGI, empresa de construção, vai por de pé um shopping e um hotel no Pireu no valor de 100 milhões de euros (aprox. RS$ 220 milhões).
A China Huwei Technologies e a Telecom grega fizeram acordos de transferência bilateral de tecnologia, e foram celebrados 4 acordos na área de alimentos, inclusive de importação de azeite de oliva grego pelos chineses.
Abriram-se negociações para acordos de investimentos nas ferrovias gregas, para um aeroporto na ilha de Creta, centros de logística industrial e de serviços em Atenas, em turismo também, envolvendo infraestrutura e a construção de um parque temático marinho.
Em resumo, uma bênção vinda não exatamente do céu, mas do oriente, para quem estava na UTI e com gente pondo o pé no tubo de oxigênio, com as sucessivas “degradações” das notas de investimento no sistema financeiro internacional.
Analistas da macrorregião, como os do Conselho Europeu para Relações Internacionais, com sede em Londres, estão de cabelos em pé e pondo as barbas de molho com essa “invasão” chinesa, que, depois da aterrissagem do FMI na Zona do Euro é o segundo passo para a definitiva “internacionalização” da atual crise europeia. Esses analistas não gostam nem dos métodos, nem da força – ou robustez, para usar um termo da moda – dos chineses.
Estes dão a entender que a “tomada” da combalida Grécia é apenas uma cabeça de ponte para a “invasão” da região balcânica e do antigo leste europeu, regiões que a UE vem disputando palmo a palmo com a OTAN norte-americana e também com os russos.
Além das questões econômicas e estratégicas envolvidas, essa temida “invasão oriental” é mais uma flechada na autoestima regional, ferida por ver-se agora paciente dos amargos remédios que seus próceres tanto receitaram... para os outros.
E ferida também pelo fato de que, pela primeira vez na história, a Europa está se tornando o espaço de um “negócio da China” – só que para a China.
Saramago (1922-2010) nos eternos campos de caça
Leitor chega ao saguão do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde Saramago esteve em novembro de 2008 (Foto: Paulo Pepe)
José Saramago (1922 – 2010), que devia seu nome a uma erva cujas folhas têm vaga semelhança com as do espinafre, e a raiz com a de um pequeno nabo, comum em Portugal, rumou para a eternidade.
Onde estará? Tenho um palpite.
Os nativos do pampa, como os tehuelche e outros povos terminados em Che, tinham uma visão cosmogônica muito peculiar. Para eles o universo tinha o formato de uma foice, ou algo parecido. Havia a terra plana, que subia pelo Ande (assim no singular) até as geleiras e daí o céu. A Via-Láctea dos astrônomos continuava os cumes gelados, num novo pampa, só que estelar, e em direção à nossa Constelação do Cruzeiro do Sul. A cruz sideral era, na verdade, uma ema que sangrava, e as estrelas eram a esteira e as gotas do seu sangue. Para esse campo estelar iam os homens, que ficavam a eternidade na caça dessa ema pulsante.
>> Morre o escritor José Saramago, aos 87 anos
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E as mulheres? Essas, finalmente, descansavam, deitadas na terra, sem que ninguém as incomodasse.
Pois acho que Saramago deve ter partido para algum lugar assim, ou parecido. Talvez algum outro campo de caça dos povos africanos. Afinal, se em vida, ele partilhou das lutas pela liberdade desses e de outros povos, por que não iria compartilhar com eles a sua eternidade.
No seu último livro, Caim, esse personagem termina suas andanças cíclicas pelo espaço e tempo terrenos, depois de exterminar todos os tripulantes da Arca de Noé, numa querela interminável com Deus, que promete ser eterna. Sobre o vazio do mundo despovoado, e de uma criação abortada, os dois titãs, o que criava e descriava mundos e o que criava e descriava caminhos e descaminhos, se engalfinham numa luta de palavras que mostra, na verdade, que o mundo, se queremos lutar por sua melhora, deve estar em algum outro lugar. Aqui entre nós, talvez: esse parece ser o estro inspirador da literatura de Saramago e da herança que nos deixa.
Caim, confesso, não é dos meus preferidos. Esses são Memorial do Convento, Jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, O Evangelho segundo Jesus Cristo. Mas li-o já antevendo nele uma espécie de testamento do escritor, de última palavra de um ateu convicto perseguido por imagens cristãs e religiosas também convictas. De certo modo isso é muito representativo dos mundos espirituais de muitos escritores portugueses que são a “esteira estelar” que acompanha Saramago em sua última e derradeira viagem pela e para a liberdade.
Não sei se Saramago estaria de acordo com essa minha visão, pondo-o em alguma outra eternidade. Mas se por acaso ele lá estiver, tenho a certeza (para homenagear o modo de falar português) de que ele já estará escrevendo histórias para seus companheiros de caça, para acordar as mulheres de seu merecido mas quieto sono, tentando convence-los a deixar os céus para a Ema Sagrada, para parar de importuna-la, e para descerem de novo à terra e lutarem pelo “reino deste mundo”, que é título de um romance de Carpentier sobre o Haiti. País para quem ele doou a renda de um de seus últimos livros.
Ave, Saramago. Que não descanses em paz, mas que continues, na tua e na nossa memória, a luta pela boa literatura, a liberdade e um mundo com menos injustiças que este nosso.
Futebol e economia: a dupla secação do Brasil
Na despedida da seleção rumo à África do Sul, a mão no bolso de Dunga. Se Brasil levar o caneco em 2010, Lula leva o Nobel, nem que seja o da Sorte Grande (Foto: Ricardo Stuckert/Pr)
Existe uma dupla secação do Brasil em curso.
A primeira, mais fácil de identificar, está no futebol, enquanto rola a bola na Copa do Mundo. Plagiando e ampliando Drummond, ela tem planos municipal, estadual, federal e internacional.
No plano municipal, o mais mesquinho, estão aqueles de olho no fracasso do Dunga porque ambicionam o seu lugar, ou um lugar no plantel da Seleção, sentiram-se preteridos etc. Já no estadual, há um pouco da continuação da secação feita em cima do Felipão em 2002, um técnico oriundo desta improbabilidade futebolística chamada Rio Grande do Sul. Lembro-me de comentário – irônico no bom sentido – feita por grande comentarista esportivo de S. Paulo, segundo o qual, quando o Grêmio ganhara o Campeonato Brasileiro, a Argentina podia comemorar, pois um time seu era o vencedor...
Já no federal misturam-se duas coisas. Uma, mais propriamente futebolística, parte daquele eterno chororô de que os meninos do nosso futebol-arte não foram convocados, que futebol é alegria etc. É, mas também, a gente sabe, é gana de ganhar. E quem ganha é um time, não é um conjunto de estrelas, ou o brilho de uma só – como se queria afirmar tanto nas esperanças do quadrado mágico na Copa anterior, quanto na campanha orquestrada pela Globo para que Romário fosse convocado em 2002. O quadrado nada teve de mágico, só de quadrado mesmo. E em 2002, se Romário ficou de fora, o Brasil deu uma dentro.
A outra secação do plano federal é, de novo, aquela segundo a qual o presidente Lula já levou a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Só falta agora ele levar o caneco de 2010. Aí sim ele vai virar candidato ao Premio Nobel, nem que seja o da Sorte Grande, pensa essa mentalidade súcuba e incuba ao mesmo tempo.
Já no plano internacional a secação é contínua. Se o Brasil ganha apertado de uma seleção veloz, aplicada, com uma disciplina de Partido Comunista dos velhos tempos, que montou um muro defensivo de oito jogadores com dois de quebra como líberos na intermediária, ah, é porque o time não presta, não é brilhante, não é isso, não é aquilo.
É verdade que o nosso time só começou a ganhar no segundo tempo quando acordou para a arqui-verdade, muito mais velha do que o futebol, que só tem pouco mais de um século de idade, verdade que veio da arte militar, segundo a qual, quando o inimigo está fortemente entrincheirado no meio, deve-se atacar pelos flancos. Ou pelas pontas, com os pontas e laterais.
Ponta: essa realidade que o futebol pós-moderno esfarelou ou derreteu.
Mas no fundo, bem no fundo dessa secação internacional contra o nosso time jaz aquele sentimento eurocêntrico e hoje perplexo de: como? Se o futebol nasceu no continente de Homero ao tempo da Rainha Vitória, como ele deu-se melhor do outro lado do Atlântico, e em país de "crioulos", em todos os sentidos da palavra "crioulo"?
Mas há a segunda secação, que se dá no plano político e econômico. Seu último round deu-se com as declarações do economista-chefe para a América Latina do Institute of International Finance, Frederick Jaspersen, sobre as futuras eleições brasileiras, feitas em Viena, alguns dias atrás.
O IFF é uma instituição fundada em 1983 por 38 grandes bancos de alcance mundial, com sede em Washington, em 1983, logo depois da grande crise da dívida internacional na América Latina. Seu presidente atual é Josef Ackermann, do Deutsche Bank, e o Vice, William Rhodes, do Citibank e do Citigroup.
Jaspersen previu que provavelmente Dilma Rouseff ganhará a eleição, e que isso seria danoso para o Brasil, pois sua vitória significaria mais gastos públicos, descontrole da inflação, alta de juros, política industrial centrada nas empresas estatais, agências regulatórias sujeitas à pressão política e mais algumas outras coisas abominadas pelos financistas dessas instituições. Financistas, diga-se de passagem, cuja atuação equilibrada e de bom senso nos levaram à maravilhosa situação financeira por que ora passa o planeta.
Ao contrário, a vitória do candidato José Serra significaria um endurecimento do controle fiscal, queda dos juros, desvalorização do real, menos ênfases nas estatais, mais no setor privado e uma política tributária para encorajar investimentos privados, leia-se, arrocho na desigual tributação direta ou indireta (por corte de subsídios e investimentos públicos) do consumo, que onera os mais pobres, e uma igualitária desoneração fiscal da renda individual ou corporativa para quem ganha muito.
Na reunião das instituições financeiras em Viena o economista do IFF levou uma dura resposta do presidente do BNDES brasileiro, Luciano Coutinho, segundo quem Dilma tem uma visão consistente sobre a sustentabilidade macro-econômica. Jaspersen recusou-se a treplicar.
Nisso não está apenas em jogo a eleição de outubro no Brasil. É que o Brasil saiu-se melhor da crise financeira instalada pelo comportamento desarrazoado das instituições financeiras exatamente por fazer tudo ao contrário do que os experts dessas finanças recomendam que deva ser feito, e que agora está em aplicação na zona do euro para "proteger a moeda" e também para proteger a honra das dívidas públicas para com o sistema financeiro europeu, norte-americano e um pouco também do japonês.
Ou seja, para salvar os bancos e poupar-lhes prejuízos, o que levaria, provavelmente, a uma revolta de acionistas físicos e jurídicos que, como nos velhos tempos do século XVIII, embora simbolicamente, exigiriam que cabeças rolassem nessas instituições.
Por essas e por outras razões, para esse pessoal "o Brasil não pode dar certo". Como no futebol: mas e agora, que a tourada espanhola perdeu para o relógio suíço?
A violência no Quirguistão e o fim da União Soviética
Veículos blindados militares em Osh, no sul do Quirguistão. Atos mais violentos desde a destituição do presidente em abril (Foto: Reuters)
Assunto não falta: é só ouvir a gravação de minha entrevista na Rádio Jornal Brasil Atual para ter uma idéia da pauta do dia e da semana.
Aqui no blog decidi registrar uma questão complexa, e ainda não visitada: a da violência, aparentemente “étnica”, no Quirguistão.
O Quirguistão é uma das ex-repúblicas soviéticas, encravada no meio de outras de nome não menos estranhos para nós. Ao norte, faz fronteira com o Cazaquistão, a leste com a China (relativamente perto da cidade chinesa de Urumqi, onde também houve distúrbios graves em julho de 2009, na região de Xinjiang, opondo os uigures muçulmanos e os han, majoritários em todo o país). Ao sul, está o Tadjiquistão e a oeste, o Uzbequistão.
Para situar melhor geograficamente esse conjunto deve-se observar ainda que ao norte, depois do Cazaquistão, está a Rússia; a oeste, também o Turcomenistão e depois o mar Cáspio; logo ao sul do grupo estão, de leste para oeste, o Paquistão, o Afeganistão e o Irã, que faz fronteira com o Iraque, no limiar do Oriente Médio. Uma região, portanto, propensa a agitados conflitos guerreiros e de confronto no cenário mundial.
O Quirguistão tem uma população de 5,5 milhões de habitantes, 15% (725 mil) dos quais são emigrados do vizinho Uzbequistão. Tem a peculiaridade de ter, em seu território, uma base militar russa, herança da finada União Soviética, e outra norte-americana, cuja principal função é a de servir de apoio aéreo para ações no Afeganistão, além de, é claro, ser uma espécie de “muro” diante de qualquer intenção da Rússia na região.
A crescente violência concentrou-se na cidade de Osh, onde há uma grande colônia do Uzbequistão. Casas e estabelecimentos comerciais de uzbeques foram saqueados e muitos deles (fala-se em de 120 a 140 mortos) assassinados, inclusive velhos, mulheres e crianças. Um número estimado entre 45 e 85 mil uzbeques fugiu para o país vizinho, que fechou a fronteira alegando não ter mais espaço onde acolhe-los, e pediu uma intervenção militar russa na região para ajudar a manter a ordem, que até a redação deste post não tinha vindo.
No pano de fundo imediato desse conflito e dessa tragédia está um cenário social de pobreza, exclusão, carestia e disputas políticas pelo governo do país. No pano de fundo histórico, está um contínuo de corrupção, violência, desmandos que se sucederam ao fim da União Soviética e o processo de “democratização” do país.
Quando a União Soviética se desfez, em 1991, assumiu o poder no Quirguistão o governo liderado por Askar Akayev, composto por “recém conversos” ao modelo ocidental de democracia e também remanescentes dos antigos comunistas de plantão. Esse governo foi substituído pelo de Kurmanbeck Bakiyev, em meio a acusações de corrupção e fraudes eleitorais, em 2005, num episódio que ficou registrado sob o poético nome de “Revolução das Tulipas”, ou “Revolução Rosa”.
Em matéria de acusações, o governo de Bakiyev não só não ficou atrás do antecessor, como passou à frente: nepotismo, com familiares seus e amigos desfrutando de postos oficiais e de generosos contratos, saque da infraestrutura do país, perseguições com desaparecimento de oposicionistas, censura à imprensa foram alguns dos “tags”, “links” ou “palavras-chave” logo associadas ao seu mandato.
Isso levou a violentos protestos, reprimidos à bala, na capital, Bishkek, em abril deste ano, quando Bakyiev teve de fugir, acabando por se refugiar na Bielo-Rússia ou Rússia Branca, ao norte da Ucrânia, entre a Rússia e a Polônia. Assumiu uma junta provisória liderada por Roza Otunbayeva, uma ex-militante do Partido Comunista Soviético e Ministra de Relações Exteriores no governo de Akayev, além de embaixadora em Washington e Londres.
No sul e sudoeste do país, nas cidades de Jalalabad (ou Jalal-Abad) e Osh, concentram-se partidários de Bakiyev; e os uzbeques da região são vistos como partidários do novo governo, de Otunbayeva, um componente político que se somou às rivalidades étnicas e às disputas por espaço vital num país empobrecido.
Ao final do governo de Bakiyev, por exemplo, em fevereiro deste ano, o custo da eletricidade subiu em 170%, enquanto o do aquecimento (a óleo ou gás) subiu 400%.
Um caso exemplar da situação é a complexa “negociação” em torno da base norte-americana de Mana, junto ao aeroporto do mesmo nome. Em fevereiro de 2009, em visita à Moscou, Bakiyev prometeu fechar a base, em troca de uma promessa de investimentos russos de 2 bilhões de dólares no país. Entretanto a medida jamais for sequer aventada de fato, porque... os norte-americanos ofereceram mais dinheiro em troca da manutenção da base. Em conseqüência, os investimentos russos jamais vieram, enquanto os norte-americanos (cuja quantia permanece nebulosa) foram parar não se sabe bem onde.
Por essa razão – a famigerada base – o governo norte-americano é acusado de, no mínimo, ter feito vista grossa diante dos desmandos notórios de Bakiyev e seus apoiadores.
A situação decorrente daquela “Revolução das Tulipas” nada tem de extravagante. Outras “revoluções”, batizadas ou não com nomes “poéticos”, ocorreram em países que pertenciam à extinta URSS ou eram dela satélites. A “Revolução Laranja” ocorreu na Ucrânia, em 2004/2005; a “das Rosas”, na Geórgia, em 2003. Sem falar nas que levaram ao fim da Iugoslávia, da Tchecoslováquia, à sangrenta derrubada do regime comunista na Romênia. Entretanto, quase 20 anos depois do fim da União Soviética, o que se ouve falar a respeito de tais países envolve desemprego, pobreza, carestia, quando não inclui corrupção e ascensão de políticas de extrema-direita e/ou xenófobas, e uma ortodoxia religiosa carola e conservadora ao extremo, em todas as religiões, além de, em alguns casos, guerras intermináveis e genocidas. Sem falar na própria Rússia, onde o autoritarismo do regime comunista foi substituído pela privataria de Boris Yeltsin, a autocracia corrupta dos novos oligarcas russos e depois pelo neoczarismo de Vladimir Putin.
É claro quem nem tudo pode ser atribuído às mazelas do capitalismo vitorioso. O fim da União Soviétiva revelou que o projetado “homo sovieticus” do futuro era uma ficção nada científica. E que acabou sendo substituído por um “exército de reserva” de novos ricos e incensadores da idolatria dos mercados de fazer inveja aos líderes do Consenso de Washington.
Também deve-se assinalar que diversas investigações na mídia e por organismos independentes trouxeram à baila que as tais de “revoluções”, coloridas por belos nomes ou não, tiveram substancial apoio – inclusive financeiro e de treinamento em articulação civil e/ou militar – de órgãos oficiais, oficiosos, ONGs e instituições financeiras com sede nos Estados Unidos. Ou seja, nada tiveram de “espontâneas”, como se quis fazer acreditar nas suas respectivas épocas. Fizeram parte dessa estranha continuidade da Guerra Fria, agora sem nome próprio.
Futebol: fábrica de sonhos e de pesadelos
Europa e África: dois continentes frente a frente, também no futebol – não só em campo, mas também fora das quatro linhas.
Um dos temas que a realização da Copa na África do Sul foi o do êxodo de jogadores ou candidatos a jogadores da África para a Europa. 25% dos jogadores estrangeiros que jogam nos clubes europeus de primeira divisão vêm da África. Mas nem todos os candidatos têm essa sorte.
Em quase todos os países africanos há pelos menos uma “academia” de futebol. Normalmente, essas academias são dirigidas por europeus ou ex-jogadores africanos de clubes europeus. Recrutam jovens nos subúrbios ou favelas das grandes cidades: aqueles em quem os donos e técnicos das academias reconhecem algum potencial para o antigamente chamado “esporte bretão”.
Artigo publicado no site internacional da revista alemã Der Spiegel descreve o processo em seus detalhes (Christopher Biermann/Maik Grossekathöfer, "Europe's Thirst for young african footballers", 06/04/2010).
As academias investem no jovem. Isso envolve contato com os pais e a autorização deles, trazer o jovem para a academia e lá hospedá-los. Além disso, seguem-se despesas com alimentação, cuidados médicos, treinamento etc. O tempo de investimento num possível atleta varia de acordo com sua idade quando do primeiro contato. Pode ir de cinco a dez anos. Depois, se algum deles for contratado por um clube europeu, o dono da academia recolhe uma porcentagem sobre o valor do contrato.
Até aí, mesmo que haja alguma exploração eventual, estamos diante de um esquema “normal” de recrutamento. Em geral os donos dessas academias têm agentes atuando na Europa, fazendo contatos com clubes e oferecendo-lhes os possíveis jogadores. Outros são eles mesmos co-dirigentes de algum clube em particular. Nem todos esses clubes estão entre os “grandes”. Muitos pertencem a divisões inferiores, a segunda ou a terceira. Mas não importa: tanto para o dono da academia, quanto para o jovem recrutado, o foco é “por o pé na Europa” – dentro de algum estádio, e por dentro das quatro linhas, é claro.
Mas nem sempre as coisas se passam assim. Se há “managers” profissionais nessa atividade, mesmo que nem sempre bem vistos pela Fifa e organizações humanitárias, há também escroques e inescrupulosos. Muitos se aproximam desses jovens, prometem-lhes mundos e fundos, cobram um “dinheiro adiantado” pela passagem e outras despesas, e providenciam papéis (muitas vezes falsificando a idade do candidato).
Depois, quando chegam na Europa, abandonam seu “protegido” à própria sorte, levando-lhes, inclusive, os passaportes. E assim esses jovens vão engrossar o cortejo dos “sem papéis” nas cidades européias, expostos a outras formas de exploração em trabalhos clandestinos ou à perseguição policial, processos judiciais e a deportação.
Os casos são tão numerosos e graves, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU já considera o “tráfico de jovens africanos” para a Europa, por causa do futebol, um problema internacional. Mas isso não impede que milhares de jovens, em toda a África, continuem sonhando com os estádios europeus, e que encarem com certa naturalidade, o risco de que esse sonho possa tornar-se um pesadelo.
Foto original: rbairdpccam/Flickr
Alemanha: o amargo remédio. Remédio?
A Alemanha é o pau da barraca do euro. Pois a água montante na inundação da crise do euro (para não falar do rio Oder, que vem da Polônia, muitos metros acima do normal) chegou ao centro do picadeiro.
Na segunda-feira, depois de 11 horas de reunião de sua equipe de governo no domingo, e outras quase tantas na segunda, a chanceler Ângela Merkel anunciou um pacote de cortes orçamentários (80 bilhões de euros até 2014) que vem sendo descrito como o maior da história alemã.
Segundo os comentários na mídia, o pacote vem sendo descrito chamado de desde o amargo, mas necessário remédio, até de “covarde”, porque penaliza os cidadãos mais frágeis e seus direitos ou conquistas históricas.
Também de acordo com os comentários, foi rejeitada a hipótese de aumento de impostos, tanto sobre a renda quanto a de valores agregados. Em compensação, foi criado um novo imposto sobre viagens aéreas, ou seja, a classe média também vai entrar na dança durante as férias e os negócios que exijam viagens.
Uma outra mudança importante é a que faz o Estado credor preferencial no caso de quebras e falências ao invés de, por exemplo, dívidas trabalhistas.
Porém o grosso dos cortes vai mesmo penalizar subsídios, salário-desemprego e ajudas familiares, como a de 300 euros por mês que as mães solteiras recebem.
No campo dos subsídios, serão afetadas isenções ou reduções de impostos sobre melhoras no consumo de energia, reformas de prédios antigos para esse fim, e sobre a poupança para fins de aquisição da casa própria. Também perderá a isenção de impostos o pagamento de salários por horas extras (domingos e feriados e horário noturno).
Em termos de ajuda direta, haverá cortes no financiamento para a indústria do carvão e a do aço; no financiamento para aquisição da primeira casa própria, melhora no consumo de energia e no campo da agricultura.
Numa proposta ainda sem contornos nítidos, a chanceler anunciou um corte de 10 a 15 mil empregos públicos até 2014. Ainda não se sabe a extensão desses cortes e de outras “economias” no campo dos serviços sociais da área pública.
Como compensação, ou paliativo, a chanceler declarou que não haverá cortes nas aposentadorias, na educação e na pesquisa, mas que haverá revisão dos orçamentos militares.
Seria uma ilusão pensar que a economia do zona do euro chamasse, para ajuda-la na crise grega e na crise geral da moeda, o FMI, sem que o seus amargos remédios não afetassem a vida de todos, só a das economias mais fragilizadas, como as da Grécia, Portugal, Espanha e Itália.
A situação da dívida pública em quase todos os países da zona do euro chegou a patamares críticos. A recomendação dos economistas de Bruxelas (sede oficial da União Européia) e Frankfurt (sede do Banco Central Europeu) é de que o montante da dívida não passe de 60% do PIB. Pois bem, hoje, nas estimativas para 2010, apenas Eslovênia, Eslováquia, Finlândia e Luxemburgo estão dentro desse patamar (respectivamente 41,6 %, 40,8%, 50,5% e 19%).
Chipre (62,3%), Espanha (64,9%) e Holanda (66,3%) têm “excessos” relativamente baixos. Assim mesmo, devido às diferenciações econômicas e sociais, a situação de cada país é muito peculiar. A Espanha, por exemplo, com uma taxa de desemprego altíssima e já em recessão, é considerada um dos países “a perigo” na União Européia.
Nos outros países, a relação entre dívida e PIB vai indo para a estratosfera: Áustria (70,2%); Irlanda (77,3%); Alemanha (78,8%); França (83,6%); Bélgica (99%); Itália (118,2%) e a “finada” Grécia (124,9%).
Em todas as situações, no entanto, os “experts” tanto do FMI como do “Consenso de Bruxelas” apontam os excessivos gastos públicos e, sobretudo, a “generosidade” dos “gastos sociais” como os culpados por essa situação de desordem, que é a primeira grande crise da nova moeda e da União Européia como um todo. Daí a necessidade de cortar na carne dos orçamentos, para restaurar a “confiança” e “apaziguar os mercados” [financeiros, óbvio].
Entretanto, há vários fios dessa intrincada meada em que a até recentemente “Arca de Noé”, agora “quase Titanic” zona do euro se transformou. Por exemplo, desde março, pelo menos, o Congresso dos Estados Unidos vêm investigando o papel da Goldman Sachs e de outras instituições financeiras de Wall Street tanto na construção desse cenário apocalíptico quanto, por vezes, no seu ocultamento, através de manobras contábeis e cambiais.
Há uma prática do mercado financeiro chamada de “swap”, que, de acordo com os analistas do mercado, é comumente usada pelos países europeus no renegociamento de suas dívidas e também, portanto, no seu refinanciamento. Consiste ela, de uma maneira geral, em jogar uma dívida para o futuro, em troca de um remanejamento de compromissos; por exemplo, a troca de uma taxa de juros fixa por uma flutuante, ou vice-versa. Normalmente, nessas “passagens”, que podem durar desde 2 anos até 15, há também uma troca de moeda: o país contrai a dívida em dólar ou iene, converte-os na passagem para o euro (que é a moeda que os governos usam), e no momento de se pagar a conta há a reconversão da dívida à moeda original.
Não tenho radiografias das dívidas de cada país, mas algo me diz que contrair a dívida num momento em que a própria moeda estava valorizada (o euro anos atrás) e agora ter de pagá-las (porque esse momento chega) ou ter de planejar o seu pagamento, num momento em que ela está desvalorizada, não é bom para os serviços dessas dívidas ou sua liquidação. Nisso, quem se liquida é o usuário da moeda no cotidiano, em termos de perda de poder aquisitivo, perda de pensões, auxílios, empregos, subsídios, estagnação econômica, que é o que já está acontecendo e vai se agravar, aprofundando a tendência recessiva nas economias e a depressiva nos cidadãos e de seus direitos.
Além disso, as investigações do Congresso norte-americano trouxeram à luz certos fatos inquietadores e agravantes. Através de manobras não tão consuetudinárias como as anteriormente descritas, a Goldman Sachs e outras ilibadas instituições financeiras da prestigiosa rua de Nova York facilitaram o ocultamento contábil de parte dos empréstimos renovados ou financiados pelos “swaps”. Na troca de moeda, por um passe de mágica, as quantias redefinidas em euros deixavam de ser contabilizadas como “dívidas” ou “empréstimos”, e, ainda mais, as instituições financeiras, como se bancos centrais fossem, fixavam uma taxa de câmbio de seu alvitre, favorecendo quebras nos registros que tornavam os relatórios financeiros palatáveis para Bruxelas, Frankfurt e outras instituições financeiras que entrassem na dança, como o banco grego que comprou os títulos da dívida de seu país da própria G. Sachs em 2005, ou emprestando ainda mais dinheiro para os governos já perigosamente endividados. As investigações em Washington apontam para a Itália como um outro país que tenha se beneficiado do esquema, ficando em aberto, dependendo de outras investigações, se outros países teriam saído do pantanoso terreno do “swap” normal para o buraco negro do outro tipo.
De todo modo, seja em que sistema for, chegou a hora do “paga”. Ou de por no papel como e quando vai se chegar a essa hora. E a situação transformou-se em tumulto. Por quê? Porque se revelou que a zona do Euro era um conglomerado federativo frágil de economias nacionais sem muitos critérios comuns na realidade, só no papel. Até porque um dos critérios fundamentais de Bruxelas, além dos numéricos sobre PIBs e dívidas, era uma certa “ausência de critérios”, através das desregulamentações, privatizações, liberação de mercados, essas coisas que nos enfiaram pela goela durante tantos anos como a panacéia universal. Tais medidas de descontrole programado facilitaram, por exemplo, a sonegação ou a evasão para paraísos fiscais distantes ou próximos, como é o caso de Luxemburgo e da Suíça. Recentemente o governo alemão envolveu-se em delicada polêmica ao anunciar a compra de dados sigilosos “roubados” de instituições financeiras desses países em cds disponibilizados pelos “ladrões”.
Em suma, como diz ditado de minha terra natal, “a coisa é feia e vem se debruçando”.
Haverá reações. Manifestações contra o pacote já estão sendo convocadas para os próximos dias. Os partidos de oposição (SPD, Verde e Linke) prometem renhidas discussões no Parlamento sobre o pacote.
Outros economistas apontam que seria melhor esperar a recuperação das economias para tomar medidas como essas, pois elas arriscam aprofundar a recessão já em curso, levando a uma espécie de “estagflação”, estagnação com inflação, coisas que também conhecemos no passado. Assim, como seria de esperar, e como aconteceu na Argentina nossa vizinha, o remédio pode ajudar a colocar o paciente na morgue, prontos para a autópsia. Ou ainda na outra situação, a de que salvam-se os números, mas o povo se dana.
A presente situação é também mais um desafio para a já combalida coligação do governo Merkel. No dia 30 elege-se o novo presidente do Estado alemão. Ângela Merkel escolheu seu correligionário da União Democrata Cristã (CDU), Christian Wulff, para suceder o sainte Horst Köhler. Dois partidos da oposição, o Verde e o Social Democrata, apresentaram Joachim Gauck, um conhecido pastor protestante que se encarregou de investigar a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental depois da queda do muro e da débâcle do comunismo.
Quem elege o presidente é o Colégio Eleitoral formado pelos 624 membros do parlamento, mais um número igual de delegados escolhidos proporcionalmente pelos estados. Nesse colégio eleitoral, a coligação liderada pela chanceler tem uma maioria assegurada por 22 votos. Se der a lógica, o candidato apontado pela chanceler deve ganhar. Mas nessa Europa a caminho de construir o seu próprio terceiro mundo, tudo pode acontecer.
Israel x Gaza Livre: a guerra das versões
Em várias cidades do mundo, incluindo Londres, manifestantes protestaram contra a ação de Israel (Foto: Luke MacGregor/Reuters)
Passada a tempestade, começa outra. Depois do ataque das Forças Armadas Israelenses contra a flotilha do Movimento Gaza Livre, com os conhecidos resultados catastróficos e lamentáveis, começa a guerra das diferentes versões.
É desnecessário detalhá-las aqui. Estão em larga exposição na mídia, em declarações e imagens. Assim como a indignação internacional contra a ação de Israel.Conceitualmente, a operação armada foi um desastre.
Quem diz é Alon Liel, ex-embaixador israelense na Turquia e na África do Sul, até hoje um influente analista internacional em Israel, ao The Guardian: “definitivamente, cometemos erro e, numa [visão] retrospectiva, qualquer coisa teria sido melhor – inclusive permitir que os barcos chegassem a Gaza”.
Professor do Depto. de Ciência Política da Universidade de Tel Aviv, em artigo no Haaretz, diz: “uma ação que a Marinha Israelense planejou por tanto tempo acabou nesta severa débâcle”.
Claro, houve outras reações, argumentando que Israel é vítima de um complô orquestrado internacionalmente. Zvi Mazel, ex-embaixador na Romênia, Egito e Suécia, argumenta no Jerusalem Post que tudo será feito para deslegitimar a ação de Israel, porque assim estava planejado desde sempre, e conclui citando orgulhosamente a Bíblia: (Números, 23, 9): “Eis que este povo habitará só, e entre as gentes não será contado”, na versão clássica de João Ferreira de Almeida. A de Mazel é mais enfática, porque ao invés de “gentes” ele põe “nações”.
Uma coisa é certa, seja qual for a versão ou mesmo a inclinação dos articulistas. A catástrofe da operação partiu de sua concepção. Do seu conceito. Um dos argumentos mobilizados pela defesa oficial da ação israelense foi o de impedir uma “escalada” nesse tipo de desafio ao bloqueio imposto à população de Gaza por causa do Hamas. “Sabe-se lá o que viria depois”, diz esse argumento, repetido em várias versões: “armas, mísseis, até terroristas”.
Mas a presente flotilha já era uma “escalada”, embora de outro tipo que não a dessa versão “aterrorizada” e “aterrorizante” dos argumentos lançados. As flotilhas do Movimento Gaza Livre começaram em 2008. Inicialmente, nem flotilha eram: na verdade tratava-se de um barco, depois dois ou três, com dezenas de pessoas.
Essa, a oitava na ordem das coisas, não. Tinha seis barcos, pelo menos um de grande porte, que levavam 10 toneladas de carga e de 600 a 750 pessoas a bordo, segundo diferentes versões. Iam parlamentares de diversos países, um prêmio Nobel da Paz, um escritor de projeção internacional, organizações religiosas cristãs, muçulmanas e judaicas, pelo menos um sobrevivente do Holocausto: um “exército” considerável. Só a bordo do Marvi Mármara, o navio tomado de assalto, havia de 500 a 600 pessoas, também segundo diferentes fontes.
Li versões estapafúrdias – se mentirosas – e mais estapafúrdias – se verdadeiras – de que os primeiro soldados lançados ao convés do navio estavam armados apenas com armas “de brinquedo”, dessas que jogam tinta ao invés de balas. É difícil acreditar nisso, mas que seja: assim sendo, lançaram bois de piranha no meio de uma multidão sabidamente hostil. E no escuro.
Em todo caso essa versão, repetida por alguns dos comandos que primeiro invadiram o barco, conflita com a de que alguns dos passageiros teriam desarmado os militares e disparado suas armas contra eles. Se fossem de pintura, que mal isso representaria, exceto a desmoralização do soldado “de elite” (!?)?
Além de despreparo (talvez) de seus executores, essa missão conota outra coisa: uma espécie de sentimento de impunidade misturado com o de onipotência. "Podemos tudo em todo e qualquer lugar". Mas não é mais bem assim. O caso do assassinato de um militante do Hamas acusado de tráfico de armas, em janeiro passado, por agentes do Mossad (que Israel não reconhece nem confirma) que usaram passaportes falsificados, com identidades de cidadãos reais de diferentes países, ilustra bem esse novo estado da arte. Fotografados e detectados pelas câmeras de aeroportos e hotéis, pelo menos 11 desses agentes tiveram seus rostos expostos na mídia e o caso provocou o estremecimento das relações de Israel com aqueles países, incluindo o Reino Unido, a Alemanha e a Austrália.
Seja como for, seja visto de onde for, esse triste e inaceitável acontecimento com a flotilha do Movimento Gaza Livre não serve à hipótese da paz. Num extremo, pode servir de alimento para o sempre rastejante anti-semitismo; do outro, para o não menos ignóbil sentir-se parte de um povo “eleito” que se arroga o direito de tudo fazer contra todos.
De Obama para Lula: as cartas não mentem jamais
Os críticos do protagonismo lulo-brasileiro parecem dizer que o país não está à altura dessa briga de cachorro grande (Foto: Pete Souza/Divulgação Casa Branca)
Cego mesmo é quem não quer ver. A turma do contra acusa o governo Lula e o chanceler Celso Amorim de tudo, na questão do Irã: de ingenuidade à megalomania, de confrontar os Estados Unidos a meter-se com um demagogo meio ensandecido.
A divulgação da íntegra da carta (Folha de S. Paulo, 27/05/2010) do presidente Obama ao presidente Lula, enviada em abril, sobre a questão, traz elementos muito importantes para a compreensão do problema e das atitudes tomadas, inclusive a dos críticos do governo brasileiro.
Essa carta teve um destino curioso. Primeiro, divulgaram-se trechos dela que favoreciam a atitude de Lula e da diplomacia brasileira ao propor o acordo ao Irã. Depois, vieram à luz outros trechos, que depunham contra, porque diziam que enquanto o Irã prosseguisse no seu programa de enriquecimento de urânio a apresentação das sanções ao Conselho de Segurança continuaria sendo inevitável.
A divulgação da íntegra da carta (estou confiando na tradução apresentada) não deixa dúvidas: Lula seguiu as balizas assentadas por Obama, que sugeria ser a disposição de entregar o urânio não enriquecido a um outro país, antes de receber o enriquecido de volta, uma condição sine qua non para a realização do acordo. Assim foi dito, assim foi assinado, assim talvez venha a ser feito, se a letra do acordo for respeitada.
Lula e suas atitudes nada tiveram de “ingênuas”, nem de “megalomaníacas”, portanto. Seguiram um roteiro definido por uma série de conversações entre dois chefes de estado. Fica claro também na missiva que Obama confia essa “missão impossível” a Lula, movido talvez pela credibilidade do presidente brasileiro como negociador.
Mas o mais interessante é que a carta confirma a existência de uma frincha – talvez uma queda de braço – no governo norte-americano. Obama comanda a Casa Branca, com a perspectiva que na política interna norte-americana se chama dos “Doves” – “Pombas”. Hillary, e nisso parece muito à vontade, comanda a herança guerreira dos oito anos da administração de Condoleeza Rice (Bush nunca foi um intervencionista, até o 11 de setembro, e até colocar sua política externa sob a batuta desta sua assessora): os “Hawks”, - “Falcões”.
Ambos os lados da disputa não renegam o imperialismo norte-americano: seus métodos é que são diferentes. Para os primeiros, a guerra é um acidente de percurso, uma inevitabilidade que interrompe processos de negociação; para os segundos o acidente de percurso é a paz, que interrompe o inevitável confronto permanente.
Para os primeiros, a vitória significa “comprar” os adversários; para os segundos, a vitória é herdar os seus despojos. É nessa tensão (também) que o Brasil entrou. Desculpem a presunção, mas se Obama preparou (mesmo que sem querer...) alguma armadilha foi para Hillary, e por isso ela está cuspindo fogo. Aí sim, reconheço uma ousadia (mesmo que sem querer...) sem par da diplomacia do governo Lula.
Pelo menos desde que D. Pedro II resolveu apoiar o telefone de Graham Bell, no século XIX, eu não via uma intervenção tão aguda do Brasil na cena interna norte-americana.
Dizer que o Brasil não tem interesses no Oriente Médio é de uma cavalar cegueira. Então o Irã faz negociações com a Venezuela, por exemplo, enquanto os Estados Unidos negociam bases militares com a Colômbia, e o Brasil deveria fechar os olhos e desconversar? Só quem não quer ver a cena internacional, ou a quer ver ainda com a perspectiva de distinguir “mocinhos” e “bandidos”, pode pensar de forma tão anacrônica e insensata.
Além de que o governo do presidente Lula está impulsionando velho projeto da diplomacia brasileira – talvez desde o Barão do Rio Branco – que é o de projetar o país no cenário internacional como uma estrela de primeira grandeza, ainda (e felizmente) que não do ponto de vista militar.
Os críticos desse protagonismo lulo-brasileiro parecem dizer que o país não está à altura dessa briga de cachorro grande. Mas uma coisa é certa: estar presente no cenário internacional, hoje, não é briga para cachorro míope.
A pauta Israel/África do Sul e a declaração de Teerã
Shimon Peres no centro de polêmica desencadeada por reportagem do jornal The Guardian sobre relações entre Israel e o regime do Apartheid sul-africano (Foto: E.T. Studhalter/WEF-Divulgação)
Mais do que um rosário de certezas, a revelação pelo jornal britânico The Guardian de documentos secretos sobre as controvertidas relações entre Israel e a África do Sul do apartheid, na segunda metade do século passado, abriu uma leva de debates, afirmações e contra-afirmações em parte da mídia mundial.
A primeira e maior revelação dos documentos foi a sua própria existência. Não era novidade que Israel possuísse armas nucleares, suposição largamente aceita pela comunidade internacional da área. Também não era novidade que houvesse cooperação, inclusive no campo militar, entre Israel e África do Sul, um capítulo que muitos jornalistas e analistas israelenses definem como “vergonhoso” na história do país.
Os documentos abriram uma série de especulações sobre seu conteúdo e suas decorrências. Teria de fato o então ministro da Defesa e hoje presidente Shimon Peres oferecido ogivas nucleares a Pieter Willem Botha, ministro da Defesa sul-africano, em 1975? Peres nega veementemente, mas também nega ter assinado qualquer coisa. No entanto, sua assinatura está no acordo sobre o sigilo das conversações, no memorando divulgado pelo atual governo sul-africano. Porta-vozes do governo de Tel Aviv negam credibilidade ao documento, e dizem que eles são “sul-africanos”, ajuntando que não há um só documento israelense sobre o assunto. Sim, claro, mas por ora isso só reitera o tradicional e ambíguo silencio do governo de Israel sobre tais temas, inclusive o da questão da posse de armamento nuclear. Esse silêncio compromete, na verdade, tudo o que o governo de Israel venha a dizer daqui para frente sobre o assunto.
Avner Cohen, analista e autor do livro Israel and the Bomb, já lançado, e do futuro The Worst-Kept Secret: Israel’s Bargain with the Bomb, bastante crítico em relação ao muro de silêncio do governo israelense, garante que não houve oferta oficial de ogivas por parte de Tel Aviv. Já outros analistas, desde o autor do livro em que os documentos apareceram pela primeira vez (Sasha Polakow-Suransky, The Unspoken Alliance: Israel’s Secret Alliance with Apartheid South África) a jornalistas do The Guardian levantam a hipótese de que Shimon Peres estivesse fazendo uma oferta preliminar ou agindo em seu próprio nome, sem certeza de que o governo do então premiê Yitzhak Rabin concordaria com a proposta.
Vai rolar muita água debaixo da ponte desta questão.
Entretanto, um impacto da revelação se deu pelas coincidências da própria segunda-feira.
- O anúncio da existência dos documentos se deu no mesmo dia que o governo de Teerã anunciava o envio da carta detalhando os termos da Declaração envolvendo o Irã, Turquia e Brasil, à Agência Internacional de Energia Atômica, sobre o envio da 1,2 tonelada de urânio a 2% para Ancara. Também se deu – é bom assinalar – ao lado da notícia de que Mordechai Vanunu foi novamente conduzido à prisão, por três meses, em Israel. Quem é Vanunu? É o ex-funcionário das instalações nucleares israelenses, em Dimona, que denunciou pela primeira vez, com fotos, a existência de um arsenal atômico em Israel, em 1986. A denúncia foi feita em Londres. Depois, em Roma, levado por uma agente do Mossad, Vanunu foi sequestrado pelo serviço secreto israelense. Em Israel, foi condenado a 18 anos de prisão. Atualmente vive num regime de liberdade vigiada, que proíbe seu contato não autorizado com estrangeiros, inclusive com sua namorada norueguesa. Por desobedecer essa determinação, de vez em quando é detido temporariamente.
- A coincidência dos anúncios renovou a certeza de que os Estados Unidos usam de dois pesos e duas medidas no Oriente Médio, algo do tipo: “aos amigos, tudo, aos inimigos o rigor da lei”, coisa que nós conhecemos muito bem. Isso não é novidade, mas a complicação vem do fato de que ao mesmo tempo em que isso ocorria, o governo de Obama está tentando, na reunião sobre o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, em curso na ONU, enfatizar a realização de uma conferência em 2012 com o objetivo de declarar o Oriente Médio uma área livre de tais armas, o que envolveria, naturalmente, o Irã e também Israel, é claro.
- A dificuldade maior agora fica por conta de que, diante das denúncias, seria necessário que Israel autorizasse o que nunca autorizou: uma inspeção por parte da AIEA nas suas instalações nucleares em Dimona, no deserto de Neguev. Avner Cohen garante que, nessa altura, seria benéfico para Israel admitir a posse das ogivas, mas isso significaria uma guinada exponencial na sua política de ambigüidade.
- Enquanto isso não ocorrer, o resultado dessa situação é aumentar o cisalhamento interno do governo norte-americano, entre os muitos “falcões” comandados agora por Hillary Clinton e as poucas “pombas”, abrigadas debaixo do guarda-chuva de Barack Obama. De qualquer modo, os Estados Unidos estão com a fratura exposta, e a carta que o presidente Obama enviara ao presidente Lula encorajando-o a fazer o acordo é sintoma disso.
- Mesmo que apenas nos bastidores, essa situação aumenta o isolamento político dos Estados Unidos em relação a uma parte dos seus “aliados” no Conselho de Segurança, como China e Rússia, talvez a França também. O Reino Unido ficará em sua política de alinhamento com Washington.
- Essa é uma situação delicada no exato momento (terça-feira, 25 de maio de 2010) em que o Conselho de Segurança deve começar o debate da resolução das novas sanções econômicas ao Irã, proposta pelos EUA em declaração que dizia ter o apoio dos demais membros permanentes e da Alemanha. Ao mesmo tempo, enfraquece o argumento de Israel, ao insistir nas sanções contra o Irã, de que um tratamento diferenciado se justificaria porque ele seria um país “responsável” e o Irã não, pelo menos até que o governo de Tel Aviv decida abrir a caixa preta de sua política nuclear, o que não está nos horizontes do momento.
- Como dizem os ingleses, the plot thickens, o enredo se complica, ou o caldo engrossa. Podem estar dando de mão beijada uma oportunidade para Teerã saltar fora do acordo, sem que seja possível afirmar com certeza que pensara nisso desde sempre; ao contrário, o que se poderá concluir é que Hillary e seus falcões planejaram tudo desde o começo, usaram todos os argumentos e afirmações para sabotar a Declaração de Teerã antes e depois que ela acontecesse.
- A posição brasileira (e da Turquia) como negociador internacional de peso sai reforçada desse embrulho, mesmo que o acordo venha a ser anulado no meio da confusão. E que o Brasil fez o que pode e o que devia.
- Last but not least, essa situação complicada demonstra que “ingênua” é a miopia da turma do contra no Brasil, os arautos da desgraça, que querem ver o Brasil retornando a uma posição subalterna na política internacional. Como vários analistas já sublinharam em diferentes pontos do mundo, essa posição hoje é impossível e não corresponde mais à crescente complexidade da cena internacional, nem ao tamanho do Brasil nela.
- Com as Coréias em pé de guerra, o mundo está na UTI e inspira cuidados. Não será enfiando a cabeça no buraco, nem mesmo se escondendo atrás de Hillary Clinton, como querem os arautos da subordinação, que o Brasil irá contribuir para melhorar a situação – o que inclui a sua própria.




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