Por Flávio Aguiar

Europa: quando o crime compensa
Ladrão que rouba ladrão pode ter muito mais do que um século de perdão: pode também ganhar um dinheirão.
O governo da Alemanha está em tratativas para comprar um cd-rom com informações sigilosas roubadas de alguns bancos com sede ou agências na Suíça (UBS, HSBC e Credit Suisse). O custo dessa operação seria de 2,5 milhões de euros (a bagatela de 6,5 milhões de reais), mas poderia render ao governo de Berlim um adicional de 400 milhões de euros (um pouco mais do que 1 bilhão reais) em seu orçamento, numa época de grave crise financeira e risco de agravamento da recessão que já devora a economia germânica.
O que há no cobiçado cd-rom? Informações sobre as contas de mais ou menos 100 mil cidadãos alemães que investem na Suíça e não declaram essas rendas ao fisco germânico, graças ao proverbial sigilo bancário do país vizinho.
Novidade? Nem tanto. No passado (em 2008) o governo alemão já fez o mesmo com relação a contas em bancos de Lichtenstein, um pequeno país (um dos menores do mundo), mas um gigantesco paraíso fiscal, com uma recuperação de impostos devidos estimada em 200 milhões de euros (pouco mais de 500,4 milhões de euros).
Essa compra, já autorizada pela chanceler Ângela Merkel e pelo Ministro da Fazenda alemão, está deixando muita gente de cabelo em pé, a começar por alguns dos sonegadores. Há informações de que alguns já se apresentaram ao escritório equivalente ao da nossa Receita Federal para negociar suas dívidas espontaneamente. Também há rumores de que o número de consultas a escritórios de advocacia especializados em tributação, na Alemanha e na Suíça, foi para a estratosfera nos últimos dias.
Por outro lado, há um problema grave para a Suíça. Pelo menos para seus governantes. O forte reduto do sigilo bancário suíço, tradicionalmente mais impenetrável que a Cortina de Ferro, o Muro de Berlim e o gol de muitos heróis da minha juventude, como Yashin (o Aranha Negra), Gilmar, Castilhos, todos juntos, está sob forte ataque já faz tempo. E vem cedendo. A pressão dos Estados Unidos para obter dados sobre seus sonegadores é enorme e poderosa, e parece estar tendo resultados positivos.
Mas os Estados Unidos fizeram e fazem uma pressão oficial, diplomática e financeira. Agora é diferente. O governo de Berlim está disposto a negociar com escroques, essa é a verdade nua e crua. Desse jeito o sigilo bancário suíço vai parecer uma peneira, a casa da Frau Joana, para falar bem claro. Já há também gente pensando em tirar o dinheiro da Suíça para algum paraíso fiscal “mais seguro”. Diante da ameaça de prejuízos, a Suíça anunciou que vai retaliar até em tribunais internacionais, caso o governo alemão concretize a operação e use os dados obtidos nesse mercado, digamos, “informal”.
O debate dividiu o próprio governo. A CDU (União Democrata Cristã, com sua parceira bávara, CSU, União Social Cristã) tem se mostrado amplamente favorável a essa operação, digamos mais uma vez, “não convencional”. Já o FDP, partido liberal, uma espécie de DEM sem coronelismo, que é da coalizão governista, tem se mostrado bem mais reticente, senão contrário.
Não que os sigilos bancários sejam coisa intocável. Já faz tempo que os Estados Unidos, mediante acordos com diferentes governos, mas numa escala européia, monitora contas bancárias atrás de movimentações que ele julgue capazes de financiar atos terroristas. O caso, inclusive, vai ser debatido no Parlamento Europeu nesta semana. Agora, no entanto, a coisa encrespou para o lado que, em tese, é caro e querido para partidos como o FDP. Também a classe média destas bandas manifesta dupla perplexidade: por um lado, pelo montante da sonegação (ah, se fosse num paiseco da América Latina...). De outro, pelo “crime” que está sendo “oficialmente” cometido, coisa de filme de gângster. E, claro, fica o pavor em relação aos seus próprios caraminguás supostamente sigilosos em algum banco.
Pessoalmente, além de estar tranqüilo, pois não tenho fundos na Suíça (aliás, em lugar nenhum), confesso que não acredito muito em sigilo bancário. Hoje está tudo na e ao alcance da internet, algo privadamente monitorado desde os Estados Unidos. Os sistemas de espionagem financeira, públicos e privados, são cada vez mais complexos e sofisticados. Nem mais os colchões, cuecas e meias de antigamente são seguros hoje, pois estamos sendo continuamente filmados em tudo quanto é lugar, até no escuro, pelas câmeras infravermelhas de alguma agência secreta.
Fica, no entanto, a dúvida sobre a legalidade e a natureza ética dessa operação. E a situação toda aponta o dedo em riste para a falta de fiscalização adequada e, mais uma vez, a falta de controle público e internacional sobre o sistema financeiro. Coisa que, por exdemplo, a adoção de um imposto compulsório sobre operações financeiras internacionais (uma espécie de CPMF mundial, mas mais robusta) poderia ajudar a resolver, como reivindica há anos a ONG Attac.
Ir ao museu? É só clicar no mouse...
Ir ao museu está ficando mais fácil. “Ir ao museu”: estou falando virtualmente.
A maioria dos museus da Europa e do mundo dispõe de páginas na internet. Exibem ali informações sobre horários, serviços, acesso e acervos. Um bom número deles exibe também seções de interatividade e multimídia. Nelas se podem ver algumas reproduções virtuais de ambientes ou obras, além de depoimentos de e sobre artistas cujas obras estão expostas temporária ou permanentemente. Isso acontece, por exemplo, com o MoMa de Nova Iorque (Museum of Modern Art – www.moma.org ), que no momento exibe um especial sobre o cineasta, escritor e artista norte-americano Tim Burton (1958 - ), cuja página na internet (www.timburton.com ) também mostra trabalhos seus de modo muito criativo, com uma espécie de besouro que guia o internauta através das telas “penduradas” nas paredes. Um bom exemplo brasileiro dessa iniciativa está na página do Museu Imperial de Petrópolis, Rio de Janeiro (www.museuimperial.gov.br ), onde, clicando-se sobre a opção “Tour”, é possível fazer uma “Visita interativa” ou uma “Visita guiada” sobre os pertences e espaços da família real.
Entretanto a maior parte dessas exibições pode ser descrita como uma “cópia” um pouco “desbotada” da visita original, em presença. Esta permite uma pluralidade de movimentos, ângulos de abordagem, closes, visões de conjunto, que a tela virtual tem dificuldade de dar acesso. Entrar de corpo presente numa sala de museu, dedicada a um artista ou a um tema, ter uma visão de conjunto, depois examinar quadro por quadro ou peça por peça, fazer comparações com o mesmo golpe de vista é, no mais das vezes, uma experiência insubstituível e irreprodutível de outro modo, que não seja o físico. Já não vou dizer entrar numa biblioteca que dá acesso aos livros nas estantes, tomar o livro nas mãos entreabri-lo, apalpar as páginas antes de lê-las, sentir a sua espessura, cheira-las... Êpa, dirá algum leitor mais conservador, isto está já parecendo perversão fetichista... Mas é a realidade. Quem ama os livros me entenderá.
Recomponhamo-nos depois dessa pequena aventura com alguma biblioteca guardada na memória, e voltemos aos vetustos museus. Vetustos? Já nem tanto. Uma das iniciativas que está tomando corpo é a de torna-los mais atraentes, mais acessíveis, mais ousados... na internet. Uma das melhores, senão a melhor iniciativa atualmente, está disponível nas páginas da Tate Gallery (www.tate.org.uk ), da Grã-Bretanha. A Tate Gallery é descrita como uma rede de cinco museus: o primeiro deles, Tate Britain, foi desmembrado administrativamente da National Gallery em meados do século XX. A este, juntaram-se três outros, com seus prédios, perfazendo quatro. E aí veio o quinto (a partir de 1998), que não é propriamente um prédio, é o, ou melhor, a Tate Online.
Inicialmente a Tate Online foi concebida como simplesmente a página on line da Tate Gallery. Mas foi ganhando vida própria, a tal ponto que hoje é considerada quase como “um museu à parte”, de direito próprio, com iniciativas cada vez mais ousadas.
Uma destas é a exibição especial, ora disponível, sobre o pintor vanguardista Francis Bacon (Dublin, Irlanda, 1909 – Madri, Espanha, 1992). Ao “visitar” a exposição, o internauta penetra num mundo semovente, como diria Riobaldo, o personagem de Guimarães Rosa, levado por diversas “salas” em que visões de conjunto, particulares, incursões por depoimentos históricos do artista, informações históricas e estéticas estão disponíveis conforme se mexe o mause e nele se clica, aproximando, afastando, revirando os olhos. Convido os leitores a experimentarem por si mesmos: www.tate.org.uk/britain/exhibitions/francisbacon/interactive
É claro que existe um suporte físico dessa exibição, na Tate Britain, a primeira da série inaugurada com o desmembramento meio século atrás. Mas acontece que a experiência virtual é tão dinâmica que não dá para dizer que ela é simplesmente uma “ilustração” da outra. Ela passou a ser uma experiência em si. Quem ver, verá.
A curadoria da exposição sobre Francis Bacon é de Chris Stephen e Matthew Gale com apoio de Rachel Tant, Bettina Kaufmann e Sandra Adler. Já a exibição online foi organizada por Bem Baylin, Kristie Beaven e Hanne Dahl, com apoio da BBC.
Além dessa exposição, a Tate Online oferece outras temáticas, como “I’ve just split up” (“Acabei de me separar”), ou “Rainy Day” (“Dia de chuva”), com diferentes quadros, de diferentes épocas, sobre tais assuntos.
É claro que esse tipo de desenvolvimento levanta dúvidas e perplexidades. Há quem diga que isso vai “retirar” público dos museus. Pessoalmente me alinho com os que não acreditam nessas ameaças, apesar de que é claro que para os “Viciados em internet” isso possa ser um prato feito, ops, quero dizer, uma tela feita, ou um download baixado, etc. Mas não será uma iniciativa dessas que irá viciar pessoas em internet: serão eventualmente deficiências ou carências na vida delas, e elas poderiam se viciar nisso tanto quanto em fazer compras ou trabalhar demais, conforme o temperamento e a história de cada uma.
Acredito que, pelo contrário, iniciativas como essa podem levar a uma maior democratização da consciência do patrimônio artístico nacional e mundial. Porque agora uma criança, numa escola ou mesmo em casa, levada pelo espírito aberto de quem lhe desperte o interesse (quem sabe o apetite?), em qualquer recanto do Brasil (por exemplo) poderá fazer uma visita guiada ao Museu Imperial de Petrópolis ou até quem sabe, numa aula de Educação Artística combinada com a de Inglês, ver as obras em movimento da Tate Online.
Boa navegação!
Fórum de Davos: a outra volta do parafuso
- Muito interessante, a frase do professor Paul Singer nesta página da Rede Brasil Atual, de que não existem apenas demônios em Davos, cidade/estação turística na gelada Suíça, onde começa hoje (27/01) o Fórum Econômico Mundial.
É verdade. Se algo existe hoje em Davos são perguntas. Se vai haver respostas, é outra história.
As perguntas começam por um acontecimento insólito: na véspera (26 de janeiro) da abertura do Fórum, foi descoberto em seu quarto de hotel o corpo do chefe de polícia responsável pela segurança do encontro, Markus Reinhardt. Aparentemente trata-se de um suicídio.
As outras perguntas, não menos inquietantes, são: Haiti, Metas do Milênio, Meio Ambiente, Economia, Bancos, e fechando a lista, Lula.
O presidente do Brasil, que receberia pessoalmente na sexta-feira o prêmio (dado pela primeira vez) de Estadista Global, não é em pessoa uma pergunta, mas aponta para uma: o próprio Fórum.
>> Cobertura completa do FSM 2010
Como recordou na abertura das rodadas dispersas pelo mundo do Fórum Social Mundial edição 10, em Porto Alegre, em 2003 o presidente Lula fez uma espécie de ponte entre o FSM e o Fórum de Davos. E agora, de certo modo, cumpre de novo esse papel. Isso confirma a avaliação de que Lula tornou-se, de fato, um “porta-voz do terceiro mundo”, seja lá o que isso quer dizer, e, nessa condição, um “global player”, como os participantes de Davos gostam de se auto-nomear.
Lula, como fez o presidente Sarkozy, da França, na abertura do evento, iria cobrar um controle maior sobre o sistema financeiro mundial (iniciativa também do presidente Obama dos EUA, com medidas que, apesar do apoio, por exemplo, do presidente do Banco Central Europeu, vêm sendo descritas pela oposição como “populistas”). Aliás, a palavra “populismo” entrou pisando firme na agenda do Fórum de Davos: banqueiros daqui e dali já estão arrepiando os cabelos (e talvez arreganhando os dentes) com medo do que vêm chamando de “medidas excessivas de controle” que poderiam provocar um “populist breakdown” (chique, não?) – uma “quebra populista” no sistema internacional.
Chris Giles, comentarista econômico do britânico Financial Times, escreveu em 27/01 que o clima em Davos era, em 2007, euforia; em 2008, medo da inflação; em 2009, “apocalíptico” (sic).
E em 2010? Uma única certeza parece, até agora, pontificar nesta edição do Fórum: os chamados “mercados emergentes” (tradução em financês pós-moderno para “países”) continuarão atraindo investimentos. Ou seja, China, Brasil, Índia, Rússia e mais alguns, como México e África do Sul. Isso segundo um organismo chamado Institute of International Finances, uma instituição criada em 1983 por 38 dos maiores bancos do mundo, em resposta à crise do pagamento de dívidas internacionais no começo daquela década. Quem dirige o seu Conselho hoje é Josef Ackermann, um suíço que também preside o Deutsche Bank.
Se isso vai ser bom ou vai ser ruim, provavelmente o futuro, não o Fórum, dirá.
O que é o Fórum
O Fórum Econômico Mundial ganhou esse nome em 1987. Antes chamava-se Fórum Europeu de “Management”, e fora criado em 1971 por iniciativa de um professor de “Business” da Universidade de Genebra, o alemão Klaus Martin Schwab. A idéia do sr. Schwab era, inicialmente, a de promover junto a empresas e governos europeus os métodos “mais modernos” de administração financeira vigentes nos Estados Unidos.
Em sua primeira edição esse Fórum congregou quase 450 participantes: um número pequeno se comparado aos 2.500 de hoje, sem contar o batalhão de jornalistas presentes no de outro modo pacato recanto suíço.
Desse modo, se o FSM, que hora está em Porto Alegre e em seguida vai para a Bahia, está em sua décima edição, o de Davos chega à sua quadragésima. Nesse percurso ele foi se ampliando cada vez mais, até alcançar uma dimensão mundial e o status de “Observador” junto ao Conselho Econômico e Social da ONU.
Atualmente, mais ou menos 1.000 empresas de estatura mundial custeiam o Fórum, descritas como tendo um patamar de movimentação anual de pelo menos 5 bilhões de dólares.
Para ser membro desse seleto e caro clube, empresas ou outras entidades jurídicas devem pagar quase 80 mil reais anualmente (42.500 francos suíços ou cerca de 30 mil euros), mais uma taxa de inscrição de quase 32 mil reais. Ou seja, só para enfrentar a conta das passagens e do hotel na Suíça, o vivente já tem de desembolsar mais de 110 mil reais. Há ainda duas categorias de associados, os “Industriais”, que desembolsam cerca de 460 mil reais/ano, e os “Estratégicos”, cuja contribuição vai aos módicos 920 mil reais/ano.
Genericamente o Fórum diz dedicar-se a “melhorar o mundo” através dos “mecanismos de mercado”. Acontece que ao longo do tempo ele foi pegando uma certa má fama, de ser assim uma espécie de “clube dos ricos”. Talvez a má fama tenha vindo menos de sua pauta interna do que sua repercussão externa, sobretudo depois que o neoliberalismo assentou-se no trono mundial, com o passamento da finada União Soviética e a conversão do Partido Comunista Chinês ao capitalismo deslavado e tardio do fim do milênio.
Naqueles tempos parecia que só quem era financista ou para eles trabalhava podia falar grosso – ou até mesmo fino – em matéria de economia. O resto tinha de baixar os olhos, as orelhas e ensacar o bico. Não tardaram os protestos (que levaram à criação do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 2001), que se dirigiam contra o G-7 (depois G-8), a Organização Mundial do Comércio e outros órgãos afins, a incluir o Fórum de Davos entre os favoritos em suas telas.
A criação do FSM, que inicialmente era “uma resposta a Davos” levou este Fórum a aprofundar sua “pauta social” e também o escopo de seus convidados, incluindo até pop stars do cinema, e do jet set internacional. Até da literatura, como é o caso de Paulo Coelho.
Isso não lhe valeu simpatias por parte dos participantes do FSM. Em contrapartida, levantou críticas de saudosistas mais conservadores, que passaram a reclamar que o excessivo envolvimento de ONGs e de temas políticos veio descaracterizando o caráter técnico (leia-se “sério”) das discussões nas incontáveis mesas que se realizam nos cinco dias em que o Fórum de Davos se reúne.
O que vai acontecer? Não sabemos. O Fórum não vai desaparecer, é claro. Mas pode ser que entre para a história como uma espécie de emenda ao soneto capitalista que foi o fim do século XX, assim como pode ser que o Fórum Social Mundial venha a ser descrito como o verdadeiro começo do século XXI e do novo milênio.
Enquanto se esperam as definições do futuro, o Fórum de Davos (assim como o FSM) também se interroga sobre seu futuro, na ordem mundial, se ainda não abalada, trincada pela crise financeira e econômica em que o capitalismo tardio se (e nos) atolou.
Uma dessas interrogações chama-se presidente Luis Inácio Lula da Silva, cuja homenagem dessa vez chama a atenção para o fato de que entre o céu e a terra, entre a produção capitalista e a rolagem financeira, havia mais ruído do que sonhava a vã filosofia dos adoradores dos mercados.
Vida abaixo de zero
De repente, me assaltou a consciência de que hoje, 25 de janeiro de 2010, era feriadão em São Paulo. Essa coisa de viver num país e ser correspondente da mídia de outro. Viver o duplo tempo. Com perdão do editor, não precisava correr para escrever o meu post cultural e político, ou ambos, para o blog. Podia até escrever “blogue”, “internete”, assim mais brasileiro, mais descontraído...
Então me assaltou uma vontade de me espreguiçar, e olhei pela janela. Surpresa: aqui em Berlim, onde vivo, era o primeiro dia de sol em um mês!
Falta de sol não é novidade. Me lembro (desculpem o erro de português, mas em dia de preguiça isso pode) de um ano, quando eu vivia em Itapecerica da Serra e dava aulas na USP, em que começou a chover em outubro e só parou num dia de janeiro do ano seguinte.
Mas... tinha luz! O maior problema do inverno nessas plagas do norte da Europa é a falta de luz. Tem dia que não amanhece. Dos fins de novembro até os começos de janeiro. É assim: 8h15 (não acredita, leitor/leitora: sim, oito e quinze) da manhã, começa timidamente a clarear. Mas é um dia nublado. Sem neve: são os piores. A neve alumeia, porque reflete a luz. Sem neve: o dia não chega. Não amanhece. Fica no lusco-fusco. No cinza. O tempo todo. Aliás, o tempo todo é muito curto. Quando a gente vê, já são 3h30, três e meia da tarde, e já está anoitecendo. Dez pras quatro, noite fechada. Cruz credo!
Mas como eu disse, a neve alumia. Neve é uma fixação nacional, no Brasil. É claro que temos uma experiência reduzida e limitada de neve. Folclórica, dava pra dizer. (Hoje, até pode escrever “pra”). Na verdade, neva mais do que se pensa no nosso país natal. Já nevou no Itatiaia, no Rio de Janeiro, em Maria da Fé, em Minas Gerais, e no Pico da Bandeira, no Espírito Santo. Uma das maiores nevascas do mundo foi registrada em Vacaria, veja só, no Rio Grande do Sul, em agosto de 1879 (!): dois metros! Outra em São Joaquim, Santa Catarina, nos idos de 50: um metro e trinta! Isso é um monte, coisa de Ártico, Antártida, Sibéria, Canadá.
Mas temos pouquíssima e reduzidíssima experiência de neve em metrópoles: nevou algumas vezes em Curitiba, e uma vez pelo menos a neve acumulou alguns centímetros no chão nos morros ao redor de Porto Alegre. Nevou em cidades médias, como Bento Gonçalves, Caxias do Sul.
Para falar a verdade, na maioria das cidades brasileiras nevava... em dezembro! Sim, era quando as revistas em quadrinho eram tomadas pela neve em Patópolis, do Pato Donald, tio Patinhas e sobrinhos, no Natal. Então víamos a neve branquinha, na impressão a quatro cores, tudo congeladinho e no seu lugar. Era tão impressionante que corríamos para colocar algodão nos pinheiros de natal, que naquela época eram araucárias, não os Pinus elióttis de hoje (ainda bem, precisamos proteger as araucárias).
Neve numa metrópole, como Berlim, é um fenômeno contraditório. No começo, é muito legal. É bonito. A paisagem silencia. Os flocos revoluteiam no ar. E vão cobrindo tudo: a neve no começo é democrática.
Depois vem o segundo momento: a neve derrete um pouco, depois congela de novo. Meu Deus! A cidade vira uma pista de rinque de patinação, ou uma mistura de neve, gelo, pedrinhas e areia (para não escorregar) e sal, para derreter (o que acaba com os carros e os sapatos).
Aí vem o terceiro momento, o pior: a neve derrete, vira uma coisa aqui chamada “Matsch”: uma mistura de neve derretida, pó de asfalto, areia, aargh! O frio e a umidade sobem pelas pernas, por debaixo do sobretudo, chegam até as pontas dos dedos por dentro das luvas. Os escorregões e as quedas tornam-se inevitáveis. Daria até para escrever uma crônica: “Traseiros brancos”!
Também temos de enfrentar os dramas da temperatura. No sul do Brasil, e mesmo em outros lugares onde faz muito mais frio, a diferença de temperatura entre o amanhecer e o meio da tarde é grande. Por exemplo: já vivi em Montreal, no Canadá, onde, se amanhece com menos 30 ºC, à tarde está a maravilha de menos 10 ºC! Aqui, por vezes, não: amanhece com menos 10 ºC e à tarde está o mesmo: menos 10 ºC. Ou pode ser diferente: amanhece com 0 ºC e fica o dia inteiro assim. Dá uma sensação de que “o tempo não passa”.
Mas não é verdade: o tempo passa sim, os dias vão mudando dramaticamente de tamanho, sob a neve medra o verde. Os berlinenses têm orgulho do seu inverno. Sobretudo este, que está sendo rigoroso. Outro dia ouvi um comentário de um meteorologista: “dizem que este inverno está sendo o caos. Não é verdade, está sendo apenas um verdadeiro inverno”.
Mais ou menos, na verdade. Antigamente havia muito menos vôos do que hoje. Nos aeroportos houve de fato um caos. Aproximadamente entre meados de dezembro e fim de janeiro um milhar de vôos foi cancelado na Europa, sem falar nos atrasos. Os trens foram congelando e, vejam só, primeiro os mais rápidos, de tecnologia nova, mas mais frágeis. Os metrôs foram parando também, e, em conseqüência disso, superlotando. Há muito mais gente circulando, e isso traz uma nova paisagem, novas inseguranças.
Há também na Europa uma nova miséria (claro que não se compara à dos países pobres, mas ela existe). Numa única noite em Varsóvia, na Polônia, morreram quinze pessoas de frio, todas “sem teto”, numa paisagem social que o mundo ex-comunista passou a ter de volta com o capitalismo triunfante.
Isso prova que o tempo passa de verdade. Mas nem sempre “para frente”. O tempo também pode regredir.
Quer sumir da web? Tem ajuda: "suicide machine"
Quer “se matar”? Tem ajuda. Calma: trata-se apenas do “pseudo-você” na web.
A situação pode ser descrita como a de um suicídio tranqüilo. Ou de uma eutanásia sem dor nem culpa.
Seus organizadores a descrevem como um processo de liberação e de libertação. Através do suicídio eutanásico ou da eutanásia suicida, o paciente libera falsos amigos e se liberta deles; libera energias represadas ou mal empregadas e se liberta para usufrui-las.
Só que, no que toca à eutanásia/suicídio, o processo é inteiramente virtual. É um serviço disponível na rede.
>> O alerta da ciberdependência
>> China proíbe castigo físico para viciados em Internet
>> Estudo associa vício de Internet e autolesão em adolescentes
Não sei se vou usar a terminologia adequada, cresci com caneta tinteiro e mata-borrão; a primeira virou uma bonequinha de luxo e o segundo uma espécie de sapo em extinção. O host desse serviço é um site chamado de moddr_ que tem sede em Rotterdamm, na Holanda. Já o server é uma entidade por eles criada, que se chama Web 2.0 suicide machine. Se puserem esses nomes num researcher da internet vão acha-los facilmente.
O moddr_ é uma criação de alunos do curso superior de Media Design and Communication (em nível de mestrado), do Piet Zwart Institute, da Willelm de Kooning Academy da Rotterdam University. É especializado em estudos críticos da mídia. Os organizadores do moddr_ o apresentam como parte do WORM, um programa de ação crítico voltado para vários aspectos do meio ambiente midiático, inclusive a web (media environment). Explicam que o nome – moddr – lembra o holandês “modder”, que quer dizer “lama” (em inglês “mud”). A intenção do nome é definir uma ou mais propostas de “remodelagem” de tudo, do meio ambiente, da vida, dos usos e dos usuários. Mais ou menos como Jeová fez com Adão, ou melhor, com Eva, moldando-a a partir de uma remodelagem da costela do primeiro.
Isso no mito bíblico. Passando à vida de hoje em dia, o Web 2.0 suicide machine se presta para exterminar o “alterego” do usuário/vítima na rede. Garantem seus organizadores que ele é capaz de fazer isso em 52 minutos, o que levaria 9 horas e meia se esse usuário/vítima/paciente decidisse dar conta do recado por si mesmo.
Qual é conceito por trás e na frente dessa proposta? Não é tanto uma visão daqueles computadores monstruosos que decidem tomar o freio nos dentes, ou nos chips, e saírem agindo por conta própria, cujo modelo mais famoso é o HAL do filme “2001, uma odisséia no espaço”, de Stanley Kubrick. Ao invés, é algo mais sutil, como o romance também famoso, “O médico e o monstro” (“Dr. Jekyll and Mr Hyde”), de Robert Louis Stevenson. Neste último um médico reconhecido e austero, Dr. Jekyll, usa meios químicos para criar em seu próprio corpo uma segunda personalidade, cruel e amoral, Mr. Hyde, que termina sufocando a primeira.
O processo apontado/denunciado pela proposta da Web 2.0 suicide machine é análogo. Levados por necessidades as mais variadas, usuários da internet filiam-se a espaço virtuais que promovem o “social networking”. Para isso criam personalidades virtuais que se relacionam cada vez mais intensamente com outras personalidades virtuais. Essa rede gera dependência e pode virar uma prisão, pois ao querer sair dela, eventualmente, o usuário que quer se libertar pode provocar uma reação em cadeia de seus co-dependentes, que partem numa busca desesperada desse “renegado”, literalmente um “escravo fugitivo” que deve ser recapturado e “recuperado” para aquele “corpo social”.
In extremis (perdoem o latim) essa dependência pode gerar efeitos patológicos e trágicos, como o da adolescente Megan Meier, de Missouri, nos Estados Unidos, que aos 13 anos se suicidou, em 2006, ao se sentir abandonada por “Lori Drew”, uma personalidade virtual, criada “de mentirinha” por um rapaz adolescente.
Dizem os organizadores da machine que uma fuga individualizada, sem assistência técnica adequada, no mais das vezes é fadada ao fracasso, pois o fugitivo tem de apagar não só os traços alheios no seu acesso à rede, mas também deve apagar todos os traços da sua personalidade virtual, para que ela não volte a “assombra-lo” ou propiciar pistas para seus perseguidores.
É isso, então, que a Web 2.0 suicide machine faz com prontidão profissional: não só destrói seus “falsos” amigos, como destrói esse “alterego” que também pode virar um “superego”, cobrando exigências cada vez mais pesadas do seu suporte físico, isto é, o você de carne e osso – e espírito – que passa a ser simplesmente o cavalo (como no candomblé), ou o mordomo obediente e passivo do Mr. Hyde que despertou no seu mundo virtual. Diz que a machine faz isso sem deixar traço nem pistas. E você, dizem os organizadores, “se vê livre de novo como um passarinho”.
Os organizadores dizem que já atenderam 1.166 “suicidas”, desfizeram mais de 80 mil conexões. Seus alvos principais têm sido serviços como o Twitter e redes como a Myspace, a LinkedIn e a Facebook, que, até agora, foi a única a bloquear o acesso da machine a seus endereços e a ameaçar a moddr_ com “outras medidas” que ainda não ficaram muito claras, caso a machine continue a “invadir os seus espaços”.
Há uma discussão generalizada no mundo inteiro sobre se existe ou não uma “Internet Addiction” – em português, “Vício em Internet”. É claro que instituições médicas de prestígio internacional reconhecem que existe, em alguns casos, uma dependência que se manifesta pela adesão à internet, seja através das “redes sociais” ou da busca de pornografia, trabalho obsessivo ou compras compulsivas. Mas o que se discute é se essa manifestação pode ser vista como algo específico (como o alcoolismo, o tabagismo, a compulsão sexual obsessiva, etc.) ou se deve ser encarada sempre e apenas como o sintoma de alguma outra coisa.
De todo modo, o assunto desperta o interesse e a pesquisa em vários níveis e em vários países, sobretudo em relação aos jovens e crianças: entre outros, os Estados Unidos, a China, a Coréia do Sul e também o Brasil. Em nosso país já existem áreas especializadas em psicologia e informática pelo menos no Hospital das Clínicas e na PUC de São Paulo.
É cedo ainda para tirar conclusões definitivas sobre o problema, seu alcance, e a adequação das propostas da Web 2.0 suicide machine. Mas o auê que já provocou, com reações simpáticas e outras céticas, tanto na rede como na mídia convencional (p. ex., Los Angeles Times, The Guardian, cautelosamente simpáticas), demonstra a relevância do tema e também do bom humor dos que a organizaram.
Uma tragédia chamada Haiti
A declaração do cônsul do Haiti em São Paulo, numa gravação inadvertida para o SBT, de que a desgraça de seu país se deve à religião (que ele chamou de “macumba”) e à quantidade de “africanos” em seu país, não é um fato isolado: apenas reflete um preconceito generalizado, em escala mundial, contra o país fundado por ex-escravos.
Ainda assim não sei como ele ainda não renunciou ao cargo de representar o país e o povo que insultou.
Na verdade, a história do Haiti é, ao mesmo tempo, grandiosa e trágica. O país foi e é o cenário “privilegiado” de um dos maiores esbulhos políticos e saques econômicos da história da humanidade.
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Não raro lê-se que no tempo do colonialismo francês, estabelecido na parte ocidental da ilha, “Santo Domingo” (como era então chamado o território) era “a pérola das Antilhas”. Pérola para os senhores brancos e seus apaniguados e protegidos: para os escravos era um inferno. 40 mil escravos negros eram trazidos anualmente da África para a colônia; a sua expectativa de vida era de pouco mais de 20 anos. O código de comportamento a que eram submetidos era dos mais brutais do continente.
É claro que a Revolução Francesa teve um impacto de grande alcance na colônia, levando a uma revolta de escravos que é um dos acontecimentos mais extraordinários da história da humanidade, e a única que triunfou sobre seus senhores e seus exércitos.
O principal líder dessa revolta, Toussaint Louverture, foi um dos políticos e militares mais brilhantes e de visão de longo alcance das lutas pela independência em territórios das três Américas.
Toussaint era, como muitos políticos, militares e intelectuais da época, católico e maçom. Liderou a revolta com o tato de tentar evitar a destruição das plantações e de evitar que ela se transformasse simplesmente numa vingança contra os senhores brancos ou as “gens de couleur”, mestiços de europeus, africanos e, em algumas poucas regiões, do povo Taíno”, nativos que habitavam a ilha antes da chegada de Colombo.
Tinha consigo uma elite de militares formados no Exército Francês, alguns dos quais tinham, inclusive, combatido pela Independência dos Estados Unidos, contra os britânicos. Toussaint conseguiu a proeza de derrotar sucessivamente e várias vezes alguns dos principais exércitos da época: o francês, o espanhol e o britânico.
A princípio, Toussaint não tinha, entre seus intentos, proclamar a independência. A constituição que apresentou ao país, em 1801, dizia que todos os habitantes da ilha eram “livres e franceses”. Diante das tentativas, por parte dos governos franceses cada vez mais conservadores, depois da Revolução, de restabelecerem seu controle sobre a ex-colônia e também a escravidão, voltou-se, sem sucesso para a Espanha, que dominava a outra metade da ilha, depois das cordilheiras que a cortam em dois.
Ao fim, aceitou fazer um acordo com tropas francesas recém chegadas, sob o comando do cunhado do próprio Napoleão, Gen. Leclerc. Traído, foi por ele aprisionado e deportado para a França, onde ficou preso. Morreu numa prisão na região montanhosa do Jura, perto da Suíça, de frio, desnutrição e doenças conexas, como a pneumonia.
Seus comandados Henri Christophe e Jean-Jacques Dessalines assumiram a liderança da luta, e em 1º de janeiro de 1804, o segundo proclamou a independência do país, depois de derrotar definitivamente os franceses.
Independente, o Haiti se viu presa de uma disputa interna violenta entre seus líderes, que levou ao assassinato de Dessalines e à divisão do país em dois, uma liderada por Henri Christophe, que se proclamou rei e instituiu uma corte; a outra por Alexandre Pétion. Pétion teve um papel importantíssimo na libertação da América do Sul. Acolheu em 1815 o fugitivo Simon Bolívar, cuja primeira tentativa de luta contra os espanhóis malograra. Deu-lhe dinheiro, armas e pessoal militar, com a condição de que abolisse a escravidão nas terras que libertasse. Sem essa ajuda Bolívar não teria podido voltar e recomeçar sua luta, afinal, vitoriosa.
Além das disputas internas que minaram a resistência do país e sua capacidade de recuperação econômica, o Haiti se viu vítima de um isolamento internacional. Os Estados Unidos, divididos entre o norte capitalista e o sul escravocrata, logo esqueceram sua dívida para com os militares haitianos. À Europa da Restauração pós-napoleônica não interessava um país de ex-escravos. Ao Brasil independente e escravista o exemplo haitiano era uma ameaça. E depois da morte de Bolívar e de alguns de seus principais generais, como Sucre, as antigas colônias espanholas se viram ocupadas por oligarquias autocráticas para quem os nativos e os africanos nada mais deviam ser do que força de trabalho submetida.
Em troca do reconhecimento francês o Haiti, sob o governo de Jean Pierre Boyer, cercado por pela frota da ex-metrópole, concordou em assinar um tratado pelo qual seu país pagaria à França uma indenização de 150 milhões de francos (!) a título de “indenização”(!!). A dívida depois foi reduzida para 90 milhões, mas assim mesmo isso exauriu a economia. Desde então, o país se viu sempre na condição de buscar grandes empréstimos internacionais para seu auto-financiamento, num atoleiro sem fim. A vida política haitiana passou a ser, nos próximos séculos, a ser uma via estreita entre governos violentos e corruptos, na maioria, e banqueiros ingleses, norte-americanos, alemães, franceses e outros que tomaram conta da economia alquebrada do país e a sangraram mais ainda.
Entre 1915 e 1934 os Estados Unidos ocuparam militarmente a ilha, e instituíram a Guarda Nacional, que viria a ser a base dos tristemente célebres Tonton Macoutes, um corpo para- militar que deu sustentação à longa ditadura da família Duvalier, Pai (Papa) e Filho (Baby) Doc. Juntos, Papa e Baby amealharam uma fortuna considerável com os fundos do país arrasado, o que garantiu ao último, pelo menos de início, uma vida folgada em Paris quando afinal teve de se exilar, em 1986. Uma (outra) triste curiosidade: um dos descontentamentos que levaram à queda de Baby Doc foi o massacre de 10 milhões de porcos da população camponesa, exigência dos Estados Unidos por causa de um surto de gripe suína.
Desde a queda da dinastia Doc o Haiti assistiu uma série de tentativas de criar governos populares, revoltas militares de remanescentes dos Tonton Macoute, e intervenções lideradas pelos Estados Unidos, que continuaram exaurindo o país miserável.
Agora mesmo estamos assistindo, em conseqüência do nefasto terremoto, a mais uma intervenção norte-americana: 5 mil marines preparam-se para desembarcar no país, já ocupado por 9 mil efetivos das tropas da ONU comandados pelas brasileiras.
Uma das causas dessa constante intervenção norte-americana (que desta vez, pelo menos, se escuda em interesses humanitários) é a incômoda (para Washington) vizinhança com Cuba (o canal que separa as duas ilhas tem 100km. de largura, algo assim como a distância de São Paulo a São José dos Campos) e agora com a Venzuela de Hugo Chávez.
Esperemos que desta vez haja a possibilidade de reinventar o país por sobre seus escombros, com a dignidade que ele, seu povo e sua história merecem.
P.S.: – Há pelo menos dois livros imperdíveis sobre a história revolucionária do Haiti: “Os jacobinos negros”, de CLR James (São Paulo: Boitempo Editorial) e “O reino deste mundo” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira), romance do escritor cubano Alejo Carpentier. Em seus respectivos campos, são clássicos.
Uma história sem pé nem cabeça; nem mãos
Normalmente esta história é contada a partir dos grandes nomes envolvidos.
Mas vou abrir espaço aqui no blog para que seja contada a partir do ponto de vista do nome mais desconhecido de todos. Pelo menos até agora. Passo a palavra à narradora, conforme a ouvi numa noite de insônia, dessas de dormir acordado:
“Meu nome é... ninguém sabe. Então quem sou eu?
Sou um cadáver. Um corpo de mulher, mediano na altura, com pernas de tamanho desigual graças a um problema de atrite ou atrose, não sei nem se sabe muito bem. Estive embaixo d’água por algum tempo.
Acontece que não tenho cabeça, nem pés nem mãos. Sou apenas um torso com braços e pernas incompletos.
Estou congelada há mais ou menos 90 anos do Instituto Médico Legal do complexo da Charité (equivalente a uma mistura do Complexo das Clínicas e da Santa Casa em São Paulo – nota do responsável pelo blog).
Quem me trouxe à luz dos refletores (que agora me incomodam, apesar de meus olhos estarem ausentes de mim) foi o dr. Michael Tsokos, diretor deste departamento da Charité, que por tanto tempo foi o meu lar.
Fez uma série de exames em mim. Acredita que eu possa ser o cadáver da grande Rosa Luxemburgo, a legendária Rosa Vermelha, assassinada em 15 de janeiro de 1919 pelos Freikorps, bandos de para-militares de extrema direita com seu companheiro de partido e lutas Karl Liebknecht, além de vários outros, num progrom contra comunistas.
Esses Freikorps eram formados por militares alemães que se consideravam traídos pelos políticos civis ao fim da Primeira Guerra Mundial. Tinham especial ódio aos comunistas, por causa da campanha pacifista que estes faziam, dizendo que as guerras só beneficiavam os muito ricos, e que os trabalhadores de todos os países deviam se unir para criar governos deles que fizessem a paz.
Na confusão que na Alemanha sucedeu à derrota na guerra, o Imperador renunciou e proclamou-se a República. Não, minto, proclamaram-se as Repúblicas. A Oficial, a partir do Parlamento existente, no Reichstag, um prédio então reluzente de novo. E a dos Trabalhadores, proclamada no bairro operário de Alexanderplatz. Uma não ficava longe da outra. Talvez isso tenha acirrado a disputa.
O governo oficial tinha à testa, essa maravilha que não tenho, um político do Partido Social Democrata, que fora até uma espécie de discípulo de Karl, Friedrich Ebert. Até hoje se discute muito sobre quanto o Friedrich sabia dos crimes planejados pelos Freikorps, se ele foi cúmplice ou só permissivo em relação ao que se seguiu. Mas algo ele foi.
Não me perguntem como eu ouço essas coisas, já que não tenho orelhas. Acontece que aqui na Charité e na Berlim inteira, até as paredes têm ouvidos. E há muita história ainda incontada pra contar.
A minha, por exemplo. Mas por ora vou voltar à história da Rosa e do Karl. Eles foram presos, bateram muito neles, depois levaram os dois para um bosque chamado de Tiergarten e lá os assassinaram. E o corpo da Rosa foi jogado num dos tantos canais de Berlim, o Landwehrkanal. Quatro meses depois, acharam o corpo. Ele foi trazido para cá, fizeram uma autópsia, e enterraram o corpo num cemitério então também novo, o Cemitério Central de Friedrichsfelde, no bairro de Lichtenberg.
Aqui começa a discussão. O dr. Tsokos tem dúvidas de que o corpo enterrado seja o da Rosa. Diz que pode ser que seja eu o seu corpo. Isso porque o corpo enterrado não tinha, ou não constava dos documentos, o tal de defeito nas pernas que a Rosa tinha e que eu tenho. Mas a advertência do dr. Tsokos despertou a fúria de muita gente, inclusive a do seu antecessor neste departamento, o dr. Volkmer Schneider. Também pudera: se ficar provado que eu sou a Rosa, vai ficar muito mal para ele. De todo modo, as coisas não estão bem para muitos: não conheço a história de algum outro IML pelo mundo, mas acho estranho que um cadáver de mulher como eu fique 90 anos na geladeira sem identificação, sem, parece, que ninguém, até a chegada do dr. Tsokos, tenha se preocupado comigo ou com isso. Ademais, sopra-se pelas paredes aqui do hospital que a cabeça de Rosa não teria sido enterrada com o corpo. Naquela época tinha muito médico que gostava de examinar a cabeça de gente "não normal", para ver se tinha alguma relação entre o seu formato e o comportamento "irregular" dessas pessoas. E os revolucionários eram vistos por muitos como gente "anormal".
A briga pegou fogo. Tem gente que até pode perder a cabeça com isso. Desculpem, acho que disse algo de mau gosto. Mas é verdade. O dr. Schneider chamou um historiador amador em sua ajuda, o sr. Klaus Gietinger, que passou a reunir documentação para provar que o corpo da Rosa foi enterrado e que, portanto, eu sou alguma outra pessoa. Para ele tudo é uma jogada sensacionalista do dr. Tsokos, que quer lançar um livro sobre casos de identificação de cadáveres misteriosos. E ele, Gietinger, está lançando um outro livro, para provar que eu sou... bem, sei lá quem, e que a Rosa é a Rosa, diferente de mim.
É capaz de tudo acabar numa guerra de livros.
Bem, há uma dificuldade em tudo isso. É que, quando os nazistas tomaram o poder, destruíram o mausoléu onde estavam os corpos de Karl e o suposto de Rosa, profanaram os túmulos e sumiram com os corpos. Depois da Guerra o mausoléu foi reerguido, e hoje lá está no cemitério, num imponente monumento dedicado aos socialistas. Mas o lugar dos túmulos de Karl e Rosa está... vazio.
Vazio por vazio, existe um outro túmulo de Karl, num parque, chamado Friedrichshein. Veja só no que essas coisas vão dar: dois túmulos sem nenhum corpo, e até agora, pelo menos, um corpo sem túmulo, que sou eu, seja quem eu for. Todos os anos, neste inclusive, milhares de pessoas acorrem ao monumento do Friedrichsfeld para homenagear Karl e Rosa no dia 15 de janeiro. Só neste de 2010 estiveram lá um número estimado em 40 mil para os organizadores, 20 mil para a polícia! E estava um frio de rachar, com 30 centímetros de neve! A multidão leva cravos e rosas vermelhas para por sobre os túmulos dos dois, mais o de outros que lá estão. Dizem que as rosas e os cravos são imagens dos corpos que lá não estão, ainda a verter sangue e memória para nos lembrar dos crimes cometidos e dos sonhos que aqueles revolucionários tinham, e a se multiplicar em milhares de idéias e corpos libertários pelo mundo inteiro.
O dr. Tsokos tem também um historiador do seu lado, o professor Jörn Schütrumpf, para quem pairam suspeitas sobre a veracidade dos documentos de 1919, inclusive as autópsias.
Uma confusão!
Para o dr. Tsokos, só um exame de DNA pode solucionar quem de fato, eu sou, ou quem, pelo menos, eu não sou. Ele descobriu uma sobrinha neta de Rosa em Israel. Mas o parentesco é muito distante para permitir uma identificação segura. Por outro lado, há o túmulo dos pais de Rosa, em Varsóvia, na Polônia. Mas vejam só, que coisa! Primeiro a sobrinha neta, Irene Borde, concordou em permitir a abertura dos túmulos. Mas depois “desconcordou”! Será que foram soprar alguma coisa nos ouvidos dela? Ou ela só ficou mesmo com medo? Vá se saber o que passa pela cabeça das pessoas! Ah, se eu tivesse uma... Pelo menos já poderiam saber se eu era de fato parecida com a Rosa ou não!
Agora as esperanças do dr. Tsokos estão numa história de arrepiar cabelos! Dizem que a Rosa teve um caso com seu advogado, Paul Levi, para quem ela teria dado uma mecha de seus cabelos. Ele morreu em 1930. A família de Levi fugiu para os Estados Unidos em 1933, quando Hitler assumiu o poder. Quem sabe, se ele conseguir encontrar descendentes, a mecha ainda estará lá?
De momento, não sei o que pensar. É claro que para mim seria uma honra se eu descobrir que sou de fato a Rosa. Haveria um enterro com grande pompa naquele memorial. Anualmente, eu receberia milhares de flores. Isso não me incomoda, porque nas noites frias eu teria como descansar, acompanhada pela vagareza das estrelas.
É verdade que muita gente ficaria incomodada com isso. Espero que isso não atrapalhe as investigações.
Por outro lado, se eu não for, teria direito, nessa altura, (espero) a um enterro tranqüilo, nalgum lugar desconhecido, onde eu poderia descansar, e não ficar exposta à curiosidade pública. As mesmas estrelas me acompanhariam nas noites calmas de uma campa solitária, mas pelo menos minha.
O frio da noite, ao invés do da geladeira onde me encontro há noventa anos, seja lá quem eu seja, me seria mais confortável, mais acolhedor, mais bondoso para comigo.
Em ambos os casos, eu encontraria o que, afinal, os mortos merecem: respeito”.
Na minha noite insone, mais o corpo não disse.
Gás pimenta não é colírio
Gás pimenta é um perigo à vista. Muito mais do que se pensa à primeira vista.
Chamou-me a atenção a foto no alto da página desta quinta-feira (7) da Rede Brasil Atual: o PM joga gás pimenta nos olhos do manifestante rendido, de mãos levantadas. Ao lado, uma moça tenta se proteger com um lenço (Ato contra aumento da tarifa de ônibus em São Paulo acaba em confusão).
Confesso logo: nunca levei uma pimentada dessas no rosto. Sou do tempo da combinação do gás lacrimogêneo com cassetetes de madeira. Cheguei até a pegar o tempo em que os cassetetes da polícia eram de borracha e mais curtos, e os policiais não usavam escudo. Deixavam vergões enormes na pele.
O gás pimenta foi introduzido nas manifestações, ou melhor, contra elas, no mundo inteiro, a partir dos anos 1990. Baseia-se num produto chamado de “capsaicina”, encontrado em pimentas vermelhas ou do tipo cayena, ou ainda na páprica e no pimentão. Este produto é a base para um delicioso e picante prato muito comum em festas na Europa, no Estados Unidos e nas Américas, o chamado “chili com carne”, uma mistura de carne moída, feijões do tipo mexicano, o “pó de chili”, além de outros temperos, como pimenta-do-reino, alho, orégano etc. Dependendo do caso, pode ser uma bomba de efeito moral a enfogueirar a boca. Além disso o chili (palavra que vem da língua Náhuatl, dos aztecas, que nos deu também outras como abacate, chocolate, coiote, tomate; dizem que até chiclete tem a ver com ela) também é largamente usado na comida indiana.
Mas isso aqui não é um livro nem um blog de receitas. Nada contra que seja, penso até um dia discutir coisas de culinária. Hoje o assunto é outro. Acontece que um pesquisador norte-americano, John Mendelson, do Califórnia Medical Center, de São Francisco, encontrou evidências suficientes de que uma associação entre o uso do gás pimenta e drogas de uso ilícito (como o ecstasy, a maconha e sobretudo a cocaína) ou de uso terapêutico, como sedativos, pode ser fatal.
O artigo de Mendelson, que é um conceituado pesquisador sobre uso de drogas e tratamentos recomendáveis, coassinado por mais sete pesquisadores de várias universidades norte-americanas, foi publicado em 2/10/2009 na revista “Forensic Toxicology”.
A experiência do dr. Mendelson e de seus colegas foi algo cruel, mas muito eficaz e sugestiva. Consistiu em aplicar uma certa dose de cocaína em algumas dezenas de camundongos; e em outros tantos, uma combinação de cocaína com “óleo-resina capsicum”, ou capsaicina. 24 horas depois alguns poucos camundongos que tinham recebido só cocaína estavam mortos. Mas todos os que tinham recebido a mistura tinham passado desta para a pior.
O motivo da experiência foi o crescente uso do gás pimenta por parte da polícia, no mundo inteiro, para tentar controlar indivíduos drogados e/ou descontrolados. Um caso dramático, relatado recentemente pela revista Der Spiegel, foi o de um conturbado homem de 42 anos, que corria nu pelas ruas de Munique em julho do ano passado, gritando que era Deus. Os policiais que vieram atender a ocorrência jogaram-lhe gás pimenta no rosto, sem efeito aparente. Assim mesmo conseguiram dominá-lo. Mas poucas horas depois o homem entrou em coma e morreu dali a dois dias. A autópsia apontou uma overdose de cocaína como causa mortis. Mas a publicação da pesquisa de Mendelson pode possibilitar a reabertura do caso.
Há diferentes relatos, de diferentes partes do mundo, sobre essa conjugação – que até então era tida como puramente ocasional – de gás pimenta e drogas. Há relatos de mortes ocorridas quando o gás pimenta foi usado contra doentes mentais descontrolados, que estavam submetidos a altas doses de sedativos.
É certo que até agora tudo está ainda no campo das hipóteses. Mas elas são consistentes e merecem mais investigação. Na Califórnia do dr. Mendelson foram estudados 63 casos de mortes onde havia envolvimento de uso de drogas ou sedativos e gás pimenta. Em apenas dois dos casos o Departamento de Justiça concluiu taxativamente que o uso do gás fizera parte da causa mortis. É pouco, mas é muito: o suficiente para por as barbas – ou melhor – os olhos de molho. Sem chili.
União Européia: Arca de Noé ou Titanic?
Por dever de ofício, os arautos da direita brasileira se sentem na obrigação de descrever o Brasil como o país dos problemas sem solução (enquanto a coligação popular estiver no poder...), os Estados Unidos ainda como a “terra das oportunidades”, e a Europa..., bem a Europa como uma espécie de “mundo de Sissi”(com perdão da Romy Schneider, uma grande atriz), bonitinho, arrumadinho, cheio daquelas torrezinhas e casinhas de tijolinho vermelho que encantaram a minha infância. Ou um mundinho de casitas suíças ou tirolesas onde só Gepetos e Pinóquios habitam. Onde politicamente, só há gente madura e organizada.
No real, a realidade é bem outra. Ainda mais hoje, quando a crise econômica, deflagrada entre setembro de 2007 e outubro de 2008, continua devastando as economias da União Européia e suas proximidades.
Pela primeira vez em tais letras graúdas, um artigo de jornalista conceituado descreve o que pode vir a ser uma “implosão da zona do euro”, como é chamado o conglomerado de economias sob a nova moeda (e o novo Banco Central Europeu) criada em 2002. Trata-se de um artigo do jornalista Peter Oborne, colunista do britânico Daily Mail, mas publicado na revista The Observer, seção de artigos de fundo do diário The Guardian.
Peter Oborne, hoje com 52 anos, é descrito por seus colegas jornalistas britânicos como um “conservador da cepa”, ou “à antiga”. Isso quer dizer que ele é um conservador que leva a sério seu conservadorismo, não o esconde, não se disfarça, nem disfarça sua ligação com uma certa ala do Partido Conservador. Defende ostensivamente a família, os bons costumes, a pouca intervenção do estado na economia, e ao mesmo tempo defende o pequeno comércio, a transparência na gestão pública e privada. Atacou com veemência o primeiro ministro Tony Blair e a intervenção britânica no Iraque; o primeiro, porque mentiu para o público britânico para justificar a segunda; e esta, porque atrelou definitivamente a política da Ilha de Sua Majestade à despótica, tirânica e algo suicida política de George Bush Filho.
Oborne é um “eurocético tradicional”, ou até mesmo um “eurocontra”. Isto é, não vê a União Européia com otimismo desde sempre. Talvez por ter presenciado, em 1992, o desastre a que a adesão da Grã-Bretanha ao “Mecanismo de Taxa de Câmbio” europeu levou a política dos conservadores, fazendo o governo despender bilhões de libras de modo infrutífero na tentativa de manter a moeda valorizada frente ao marco alemão, pressionado pela reunificação das Alemanhas. Foi o que abriu caminho para os trabalhistas de Tony Blair na década seguinte.
Mas no seu artigo ele chama a atenção para uma série de fatos relevantes, ainda que se possa discordar de sua radical conclusão, isto é, a de que a União Européia (ou mais especificamente a zona do euro) já está irremediavelmente fadada à implosão.
Partindo do artigo, mas também dele se distanciando um tanto e misturando-o com outras informações, pode-se adiantar a visão de que, se o euro, como moeda unificada de uma Europa unificada, é freqüentemente descrito como uma verdadeira “Arca de Noé”, de salvação na catástrofe da crise, ele dá sinais também de poder ser um verdadeiro Titanic, cujo tamanho tira de seus tripulantes (mais do que de seus diretores...) a possibilidade de manobrar rapidamente num oceano sobrecarregado de armadilhas.
Na Alemanha, por exemplo, a atual situação é crítica, mas não tão devastadora, por exemplo, quanto na Espanha. Na Alemanha a taxa de desemprego está nos 8% da mão de obra ativa. Isso já é alto. Diariamente uma tropa de pequenos negócios entra no brete do abate. Isso é um fato visível a olho nu. Mas o ainda forte (embora vá piorar, com a nova coligação CDU/CSU – FDP no poder) sistema previdenciário alemão segura as pontas.
Na Espanha, essa taxa está em 20%. Entre os jovens (16 - 24 anos), essa taxa chega a absurdos 42%.
O desemprego da juventude chega a 25% na Grécia, aos 27% na Itália, e passa dos 28% na Irlanda. Devasta a vizinha Islândia e seus 300 mil habitantes. A Islândia não entrou na União Européia. Mas como a Irlanda, tornou-se na última década uma das meninas dos olhos e dos investimentos da EU(sobretudo da Holanda) e também da Grã-Bretanha. Resultado: teve de pagar a esses países mais do que o seu orçamento em educação como ressarcimento de investidores que perderam dinheiro com a quebra de seus três maiores bancos. Isso se traduz em políticas violentas de cortes na previdência e outros investimentos sociais. Mais da metade dos jovens entre 18 e 25 anos deve emigrar nos próximos meses. Na Grécia o governo socialista que assumiu o poder em outubro do ano passado teve de rever a previsão de déficit orçamentário para o próximo ano, de 6,7 % (dado do governo conservador anterior) para 12,7%. O débito do setor público chegou a 125% da renda nacional anual. Ou seja, Islândia, Grécia, e provavelmente Espanha e Itália terão de bater às portas da União Européia e do FMI ;pedindo ajuda. A Islândia talvez tenha de aderir à zona do euro – não mais como menina dos olhos dos investidores, mas como mendicante em andrajos.
Trocando em miúdos – ou em graúdos – a zona do euro está criando a sua própria “neo-periferia”. Ela pode ser a Arca de Noé para alguns e ao mesmo tempo o Titanic para muitos. Voltando ao artigo de Oborne, para o jornalista conservador isso se deve ao fato de a União Européia ter criado uma unidade monetária antes de criar uma unidade política. Para ele, a União Européia foi criada (e não é uma lógica de esquerda, veja-se bem, a ditar essas palavras) por e para banqueiros, para atacar “o modo de vida do trabalhador comum” (sic!) através da imposição de uma desregulamentação unificada de relações de trabalho (sic, sic, sic!), “para eliminar barreiras comerciais e borrar fronteiras nacionais” mas apenas em função de “criar mercados eficientes e maximizar os lucros”. Tudo isso embalado por uma retórica (que poderia muito bem caber nos nossos tradicionais defensores do “império dos mercados”) do que ele chama de “sadomonetaristas”.
Aponta o jornalista que, na sua visão, isso se deve a uma nova forma “pós-moderna” de democracia, que é a da “democracia sem povo”. Por isso, diz ele, há um vácuo por detrás das políticas implementadas, um vácuo de perguntas que “sequer podem ser formuladas”. É isso, diz ele, que impede que os partidos que tradicionalmente deveriam assumir o interesse dos trabalhadores e dos sindicatos organizados o façam. Ele refere-se, naturalmente, a partidos como o social-democrata na Alemanha, o socialista na França, na Espanha e na Grécia. Para ele isso vai levar a uma situação que o seu pensamento conservador rejeita, que é a do crescimento dos partidos mais à esquerda [como já ocorreu em Portugal e na Alemanha]. Mas também, adverte ele, isso deixa um campo aberto para partidos de extrema direita, com sua pregação nacionalista à européia, que é sempre (ao contrário da nossa tradição latino-americana) excludente e xenófoba [como já ocorreu na Áustria, na Suíça e na Hungria e, de certo modo, na Itália de Berlusconi]. E o pesado fardo da moeda única impede a observação de soluções tradicionais, como a de, por exemplo, a Espanha poder desvalorizar a sua antiga peseta para tornar-se competitiva e gerar negócios externamente e empregos internamente.
Discordo de Oborne quando ele diz que por isso a União Européia está na franja do colapso, embora isso possa levar algum tempo. Também discordo do viés conservador de suas soluções, como a da diminuição das intervenções estatais (afinal ele vê a história da União Européia como uma sucessão de vigorosas intervenções dos estados na vida política). Também discordo de que não seja possível chegar a um equilíbrio econômico através da organização de mecanismos supra-nacionais, como são o euro e a União Européia [e o Mercosul]. A questão, sim, é como furar o bloqueio conservador e como reverter o quadro de dominância de “virtudes neo-liberais” que tomou conta dos partidos antigamente de centro-esquerda na política européia.
Agora, que ele botou o dedo em algumas feridas, botou.
Poema de fim e começo de ano: o amor segundo Erich Fried
Envio às leitoras e aos leitores deste Blog do Velho Mundo este poema de Erich Fried* como reflexão e força de pensamento para enfrentar o novo ano que se avizinha. Muita luta, alegria, paixão, amor, na nossa busca comum de um outro mundo possível, de acordo com o lema dos Fóruns Sociais Mundiais. Uma boa saída e uma melhor entrada de ano para todos, com os votos e o abraço do Flávio Aguiar, de Berlim, mais o lema que sempre me encantou desde a adolescência: "Um por todos, todos por um".
O que é
É absurdo
diz a Razão
É o que é
diz o Amor
É só desgraça
diz a Medida
É pura dor
diz o Medo
É sem esperança
diz o Juízo
É o que é
diz o Amor
É ridículo
diz o Orgulho
É imprudente
diz a Cautela
É impossível
diz a Experiência
É o que é
diz o Amor
Tradução: Flávio Aguiar
(Colaboração de Zinka Ziebell e Jorge de Almeida).
A seguir, o original em alemão:
Was es ist
Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinning
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe
*Erich Fried
Poeta austríaco de origem judaica cujo pai foi assassinado pelos nazistas. Ele e a mãe se refugiaram na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra, onde ele se tornou tradutor de Shakespeare e funcionário da BBC. Foi poeta engajado e lírico de grande renome. Retornou à Áustria depois da Guerra, e morreu na Alemanha no fim do século XX.
Nefertiti: uma rainha egípcia com a cabeça a prêmio
Ele (ou ela) tem 47 cm. de altura, pesa cerca de 20 quilos, é de pedra calcária, não tem o olho esquerdo, é uma escultura de 3.300 anos atrás com a reputação de ser uma das mais belas do mundo, e também uma das mais controversas do planeta.
Seu autor foi o artista Thutmose, o escultor favorito do faraó Akhenaten, e seu modelo, a rainha Nefertiti, esposa do monarca egípcio. O busto – ou cabeça – de Nefertiti estava entre as descobertas das escavações no Egito, promovidas pela Companhia Oriental Alemã (Deutsche Orient-Gesellschaft), uma empresa/fundação criada em 1898. Seu descobridor foi o arqueólogo Ludwig Borchardt, em 1912. No ano seguinte, em 1913, ele sentou-se à mesa com autoridades egípcias para negociar que peças, dentre as descobertas, seguiriam para a Alemanha, quais ficariam no Egito. Aqui começam as controvérsias.
Para Zahi Hawass, do Conselho Supremo do Egito para Antiguidades, o arqueólogo teria enganado as autoridades egípcias, fazendo-as crer que a peça era banal, quando já sabia que se tratava de algo de valor incalculável. Para Friederike Seyfried, da direção da coleção egípcia do Neues Museum, onde hoje se encontra Nefertiti, e outras autoridades alemãs da área, a retirada foi legal, já que contou com a anuência dos egípcios.
Hawass pediu durante anos a exibição de documentos que comprovassem a legalidade da transação. Afinal os documentos vieram à luz. E aumentaram a controvérsia. Porque na ata da reunião Nefertiti aparece como um “busto de argila de uma princesa egípcia”, enquanto no diário de Borchardt a peça já aparece como sendo da rainha e tendo um valor arqueológico e estético de primeira linha. Ou seja, o arqueólogo teria enganado os egípcios. Segundo versões teria até recoberto a peça com uma camada de argila para tornar a (suposta) fraude verossimilhante.
Ainda assim, até o momento as autoridades alemãs da área afirmam que não vão devolver a peça, até porque ela seria “frágil demais” para uma tal viagem. Esse argumento fica relativizado diante da viagem que a cabeça fez do Egito até Berlim, em condições certamente mais precárias do que quaisquer das que hoje são possíveis, e diante dos inúmeros deslocamentos que ela sofreu ao longo de sua permanência na Alemanha, inclusive os provocados pelos bombardeios de Berlim durante a Segunda Guerra.
A “fragilidade” da cabeça é outra: ela tornou-se um símbolo de Berlim. O Neues Museum, onde ela agora está exposta, foi reinaugurado em outubro desse ano, com a presença da chanceler Ângela Merkel. Anualmente milhares de visitantes acorrem à cidade para vê-la. Tudo isso desapareceria, se a cabeça fosse devolvida, além do reconhecimento, nessa altura, de que a retirada da peça do Egito não fora de todo “limpa”, mesmo que legalizada pelas atas da ocasião. Exposta em Berlim desde 1924, desde então o Egito tenta recupera-la, sem sucesso. Houve até uma proposta de devolve-la por volta de 1935, como um gesto de boa-vontade em relação ao Egito, mas o então chanceler Adolf Hitler vetou-a.
A questão é mais ampla: abrange toda a riqueza dos museus europeus (e de outras partes do mundo), conseguida em grande parte pelo verdadeiro saque (legalizado ou não) das potências imperiais antigas e modernas em países do terceiro, do quarto ou do quinto mundo. As reivindicações de devolução de peças, como as frisas do Parthenon de Atenas, que hoje estão no Museu Britânico, em Londres, são antigas. Os argumentos contrários variam, indo desde a legalidade ou legitimidade da posse até o de que os países de origem das peças não teriam condição de guarda-las. A este último argumento muitos países respondem que essas potências que se apossaram de seu patrimônio arqueológico deveriam contribuir com seu know-how – e suas finanças – para criar museus neles que pudessem guardar as peças em segurança, como parte de uma indenização pela exploração a que foram submetidos historicamente. Há casos extremamente complexos, como os das peças arqueológicas de Tróia, que estavam em Berlim, e que os russos levaram ao fim da Segunda Guerra. Berlim que-los de volta, a Rússia não devolve, alegando que são "despojos de guerra". A Turquia entrou na guerra, porque a antiga cidade de Tróia, de onde os despojos foram levados, fica em seu território. Até a Grécia, cujos guerreiros no poema de Homero destruíram Tróia, entrou na peleja.
A controvérsia promete ir longe, perturbando a paz da sem dúvida bela cabeça de Nefertiti. Já houve também quem afirmasse ser ela uma fraude, uma peça feita de encomenda para abrigar um colar que Borchardt, o arqueólogo, encontrara nas escavações. Mas além de seu autor, um pesquisador de nome Henri Stierlin, ninguém mais pareceu, até o momento, disposto a leva-la a sério. Examina-la a sério equivaleria, por exemplo, a abrir o túmulo de D. Sebastião, no Convento dos Jerônimos, em Portugal, para fazer um exame de DNA nos despojos que lá estão (ou devem estar) para verificar se são mesmo do rei morto ou desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir. A história de Portugal tremeria.
Agora, a disputa entre o Egito e a Alemanha por Nefertiti vai continuar. Ou até se agravar. Depois da Segunda Guerra uma Comissão Internacional moveu céus e terra para devolver aos donos ou herdeiros obras de arte que tinham sido tomadas, roubadas, saqueadas ou simplesmente compradas a preços irrisórios pelos nazistas de famílias judaicas presas ou em fuga. Muitas delas estavam em museus, e muitos deles, no início, se recusavam a devolve-las, alegando o interesse da arte e a legitimidade das suas aquisições, feitas durante ou depois da Guerra. Ou ainda que os herdeiros não estavam interessados em arte, mas apenas no valor pecuniário das peças.
Na maior parte dos casos, esses argumentos não prevaleceram e as devoluções foram feitas. Houve até casos (raros, é verdade) de herdeiros que, uma vez de posse das mesmas, as redoaram aos museus onde elas se encontravam.
A pergunta que fica no ar é por que não se agir do mesmo modo em relação aos países do terceiro mundo.
Natal branco, Natal em branco: os desastres na Europa
Enquanto a Europa congela, a falha dos modelos meteorológicos mostra mais uma vez os danos das mudanças climáticas.
Ninguém esperava o frio tenebroso que se abateu sobre a Europa nos últimos dias. Todo mundo torcia por um Natal branco, isto é, com neve. Mas não se esperava tanta neve, nem tanto frio. Muita gente vai passar o Natal em branco, isto é, sem as viagens programadas, os encontros desejados. Até Papai Noel vai ter dificuldades para voar com suas renas.
Em Varsóvia, capital da Polônia, país em que as benesses do capitalismo triunfante depois da Guerra Fria produziram bastante pobreza e muita miséria, só na noite de sábado para domingo 15 pessoas morreram de frio, na maioria do grupo dos sem-teto. Em todo o país já foram assinaladas 47 mortes por congelamento, segundo a rede de TV TVN24.
Trens estão parados, aeroportos cancelam vôos às centenas, as estradas estão perigosíssimas. Na Bulgária um apagão deixou 220 cidades sem energia elétrica durante horas a fio, sob as temperaturas baixíssimas da estação. Na Alemanha, além do aeroporto de Frankfurt ter cancelado mais de 100 vôos, duas pessoas morreram de frio. Todos os grandes aeroportos europeus foram afetados, suspendendo vôos e operações pelo menos durante algumas horas, senão por um dia inteiro. Trens quebraram no interior do Euro-túnel sob o canal da Mancha, deixando 2 mil pessoas – muitas delas crianças – no escuro, sem água e sem comida durante 16 horas, até que pudessem ser retiradas.
Enquanto isso, na costa leste dos Estados Unidos em um dia nevou, em alguns lugares, o que neva durante o mês inteiro, como em Washington D.C., a capital.
Atualmente, a maioria dos boletins meteorológicos segue modelos computadorizados (inclusive no Brasil). Com base em alguns pontos-chave, um mapa de temperaturas e outros dados de previsão do tempo é elaborado, como se fosse um mapa-modelo que recobre as regiões que lhe servem de referentes. Tudo isso é feito com base na coleta de dados naquele momento e com base em séries históricas.
Pois bem, os modelos elaborados estão com dificuldades para se encaixarem nas regiões de referência. Um indício cotidiano disso, e aberto ao leigo no assunto, é a velocidade com que as “previsões para os próximos dias” têm mudado. Na segunda-feira prevê-se que vai nevar na quarta; já na terça a previsão muda para quinta, e aí começa a nevar na terça mesma, e não neva nem na quarta nem na quinta, enquanto na sexta-feira a temperatura despenca para níveis imprevistos e por aí vai. É verdade que houvera advertências de que esse período que antecedeu a abertura oficial do inverno no hemisfério norte (21 de dezembro) seria rigoroso. Mas ninguém esperava tanto rigor.
Diante disso até as desculpas esfarrapadas ganham algum crédito. Por exemplo, porta-vozes oficiais da Euro-Star, a companhia responsável pela linha férrea operada no Euro-túnel, entre a Grã-Bretanha e o continente, disseram que a inesperada quebra dos trens no interior da passagem se devia às quantidades inesperadas de neve, à sua “fofura”, que seria maior do que a habitual, e ao choque térmico com o ar mais quente e mais úmido dentro dela. No momento, isso soou como uma desculpa improvisada. Mas vá se saber. Na verdade ninguém sabe muito bem o que está acontecendo com o clima na Europa e no mundo, só se sabe que as condições estão piorando rapidamente, enquanto os governantes dos países ricos se enrolavam nas próprias pernas na Conferência de Copenhague. Bons tempos em que se dizia que quem regulava o tempo era São Pedro.
Só falta uma coisa, de fato, para completar o cenário: algum comentarista, no Brasil, atribuir a culpa por esse caos na Europa à política externa do governo Lula e ao atraso nas obras do PAC. Sem falar na redução dos impostos para os aparelhos da linha branca, que faz certamente o povo pobre do Brasil comprar mais eletrodomésticos do que as linhas de transmissão de energia elétrica na Bulgária podem suportar.
Foto: Tom O'Donoghue/Flickr - Alguns direitos reservados
Clima quente, morno e frio em Copenhague
Em Copenhague há temperaturas para todos os gostos, apesar do frio que impera na cidade.
Na Conferência sobre o clima mundial, há de tudo. A resistência dos governos (conservadores, neo-conservadores, semi-liberais, neo liberais, etc.) dos países ricos em assumir compromissos sobre o desaquecimento e a sua sofreguidão em desassumir compromissos já assumidos no protocolo de Quioto quase levaram a Conferência a um congelamento.
Salvou-a a quente resistência dos países pobres, sobretudo dos mais pobres na média, os africanos, cujo protesto voltou a colocar na ordem do dia a necessidade de um acordo mais abrangente que delineie responsabilidades definidas. É com esta consigna na pauta que, a partir de quinta-feira, 17/12, chegam à capital dinamarquesa os principais chefes de estado, entre eles os presidentes Lula e Barack Obama.
Mas é possível que tudo desande numa espécie de banho-maria morno sobre o clima, com declarações de princípio e remissão de acordos mais definidos para o futuro, seja o próximo, ou mais distante. Parece possível que os governantes dos países desenvolvidos levem a sério uma piada de e sobre o famoso economista, Lord Keynes. Perguntado por um repórter se suas previsões apontavam para uma catástrofe da economia mundial em 200 anos, o grande economista do bem estar social teria respondido: "sei lá. Até lá estaremos todos mortos".
Mas fora do recinto da conferência é que o clima anda quente mesmo. Milhares de manifestantes têm acorrido à capital dinamarquesa para sobrarem soluções mais vigorosas sobre a catástrofe que pode se abater sobre as novas gerações. E os confrontos com a polícia tornaram-se inevitáveis.
Em parte, esses confrontos, que no começo foram localizados e sem grande importância, cresceram em volume com a aplicação, por parte dos policiais, de uma "tática preventiva". Ela consiste em prever e neutralizar prováveis focos de tensão, através de incursões e prisões em massa. Pelos relatos que têm saído na imprensa européia, essa tática levou à prisão indiscriminada de ativistas de toda espécie, inclusive daqueles cuja intenção pacifista era manifesta. Os conflitos, como dizia o presidente Figueiredo no fim da ditadura, "recrudesceram".
A atitude da polícia nesta conjuntura expõe uma falha grave cuja presença tem sido observada em diferentes países da Europa e em diferentes circunstâncias: uma falta de adequação ao mapa de fato deste continente, povoado por migrantes, imigrantes, jovens desempregados, e multidões que acorrem aos eventos num número cada vez maior, com um crescente descentramento de atitudes, propostas e ações.
As atitudes policiais terminam favorecendo e incitando aqueles que, do outro lado da barricada, querem de qualquer modo e sob qualquer ou mesmo sem qualquer pretexto, partir para o quebra-quebra e a porrada, esvaziando as manifestações de sua repercussão política mais consistente, pelo menos imediata. Forma-se assim um círculo vicioso e viciado, em que se prevê que os que ganharão as manchetes serão os portadores de coquetéis molotoves improvisados e cassetetes previsíveis, forjando uma falsa impressão de irresponsabilidade por parte dos manifestantes. A imprensa sensacionalista agradece, obrigado, e também o pensamento conservador.
Mas é verdade que dos que acorreram à Copenhague, a grande maioria está cobrando uma ação mais eficaz de todos perante a catástrofe que poderá acometer as próximas gerações. No dizer tão elegante quanto alarmante de um amigo meu, que pede para ficar anônimo, nós, os mais velhos, já estamos olhando nos olhos dos que verão a perdição ou a salvação do mundo.
O rim e o coração: uma pequena história de terror
Yitzhak Ganon era um homem mais ou menos comum. Mais ou menos: aparentemente tinha boa saúde. Mas nunca consultava médico. Sempre que se sentia mal, alegava “cansaço”. E a esposa e a filha, Íris, acreditavam. Assim era numa cidade perto de Tel Aviv, capital de Israel.
Até que um dia, neste dezembro de 2009, o tal de “cansaço” não passou. Ao contrário, só piorou. Yitzhak não era jovem: tinha 85 anos. Sua vida não fora fácil, ao contrário, fora bem complicada. Nascido em 1924, na Grécia e numa família judaica, ele, mais o pai, a mãe e alguns irmãos foram deportados para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, em março de 1944.
O pai morreu no caminho. A mãe e os irmãos foram enviados diretamente para a câmara de gás. Yitzhak não. Sobreviveu. Estava vivo, quando o Exército Vermelho, da União Soviética, libertou o campo, em 27 de janeiro de 1945. Tinha – e tem – o número 182558 tatuado no pulso. Voltou para a Grécia, e com os parentes que ainda restavam, emigrou depois para Israel, onde casou e teve filhos.
Diante do “cansaço” que não passava, a filha Íris rebelou-se contra o pai e chamou um médico. Este veio, viu e sentenciou que o paciente deveria ser removido imediatamente para um hospital. O paciente resistiu, mas assim foi feito. Dando entrada no hospital, Yitzhak teve um enfarto do miocárdio. Salvo pelos médicos, estes explicaram à família que fora um milagre ele se salvar, pois estava muito debilitado, e tinha só um rim.
Como assim, só um rim? Despertado da anestesia, Yitzhak esclareceu: o outro rim lhe fora retirado, em 25 de março de 1944, no campo de Auschwitz, pelo Dr. Josef Mengele, durante uma de suas sessões de “experimentos científicos” com pacientes selecionados. Por isso ele Yitzhak, sobrevivera: fora um dos tais pacientes. Só que, como costumava fazer em outras cirurgias “experimentais”, o Dr. Mengele lhe retirara o rim sem qualquer anestesia. Por essa razão Yitzhak nunca mais adentrara hospital nem consultara médico. Até esta vez, em 2009, quando a filha, a mulher e os médicos lhe salvaram a vida. Ganhou um marca-passo: se não houver outras complicações, Yitzhak poderá ter ainda muitos anos pela frente.
O dr. Mangele nasceu na Baviera, em 1911. Tornou-se membro da SS, e em 1944 estava em Auschwitz onde, embora não fosse o médico-chefe, dirigia o setor de seleção dos prisioneiros que deviam morrer ou que deviam fazer trabalhos forçados. Ou servir aos seus “experimentos científicos”. Foi assim que Yitzhak entrou para o seu “serviço”, onde foi de grande valia, pois, além de ser cobaia dos experimentos (que incluíram passar uma noite inteira dentro de uma banheira com água gelada), ajudava na limpeza dos instrumentos cirúrgicos e outros.
Terminada a guerra, Mengele fugiu para o setor norte-americano, de onde, provavelmente com ajuda do bispo católico (do Vaticano) Aloïs Hudal, fugiu para a América do Sul em 1949. Viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil. Parece que em seu temor de ser pego pelos caçadores de nazistas, tornou-se solitário, embora tivesse ajuda de amigos que conheciam sua identidade, irritadiço, agressivo, macambúzio, o que talvez pudesse ser sintoma de uma tendência depressiva. Nunca manifestou arrependimento.
Passou os últimos anos de sua vida entre os municípios de Embu das Artes e Itapecerica da Serra, perto de São Paulo. Morreu solitário: como costumava fazer, foi nadar sozinho na praia de Bertioga em 7 de fevereiro de 1979. Não se sabe se teve um enfarto porque se afogava ou se afogou porque teve um enfarto do coração. Esperemos que, como no extraordinário poema de Pablo Neruda sobre a morte do ditador espanhol Francisco Franco, em sua agonia os olhares das pessoas por cuja morte ou tortura foi responsável tenham brilhado na escuridão de sua mente, até ofusca-lo. E que tenha mergulhado numa noite de terror.
Lula e Dilma: o Brasil nos trilhos
Na sexta-feira, dia 4 de dezembro, a viagem do Presidente Lula e sua comitiva à Alemanha continuou com a visita a Hamburgo, no norte do país, quase fronteira com a Dinamarca.
A viagem de ida foi feita num trem-bala especial, que saiu de Berlim às 8h20 da manhã, ainda amanhecendo. O trem viajou a cerca de 230 km/h, e percorreu a distância em menos de uma hora e meia. O presidente e comitiva viajaram no vagão presidencial alemão, além de outros especiais, e nós, os jornalistas, tivemos um vagão à disposição, com direito a café, sucos e outros acepipes comestíveis. Tudo muito simpático, organizado pela Siemens, interessada em projetos ferroviários no Brasil, pelo governo alemão (responsável pela iniciativa), com colaboração da Rede Ferroviária Alemã, a Deutsche Bahn.
Durante a viagem o Presidente conversou com engenheiros, empresários e até com os maquinistas da locomotiva. Esse trem tem uma peculiaridade: tração não apenas na locomotiva, mas em todos os vagões.
Não sei se foi uma estratégia do Presidente, ou se a coisa aconteceu por acaso. O fato é que lá pelas tantas, faltando cerca de meia hora para chegarmos a Hamburgo, anunciou-se que ele viria até o vagão dos jornalistas para dar uma entrevista. Fizeram-se os arranjos rapidamente: um vagão de trem não é propriamente um estúdio, e deu trabalho para por as diversas câmeras e os diversos jornalistas em posição. Tudo pronto, houve alguns minutos de espera e... quem apareceu foi a Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Dilma tem acompanhado o presidente (segundo suas próprias declarações) em suas viagens ao exterior sempre que a pauta envolve o PAC, de que ela é coordenadora, e era o caso nesta viagem, sobretudo em Hamburgo, como se verá. Mas também é fato que se pode ver que há uma estratégia concertada do Presidente em “expô-la” a diversas circunstâncias da política externa brasileira. A Ministra acompanhou ao vivo e em cores diversas das conversações do Presidente, por exemplo, com George Bush, Barack Obama, Sarkozy, Gordon Brown, Ângela Merkel, dentre outras.
Durante a entrevista, a Ministra explicou qual o interesse do Brasil naquela viagem específica, de Berlim a Hamburgo. É um plano ambicioso. Trata-se de criar e motivar uma concorrência para a construção de um trem de alta velocidade ligando Campinas – São Paulo – Rio de Janeiro. Os pontos principais da concorrência (que envolve outras empresas e outros países, como o Japão) são: 1) o custo da construção; 2) o custo final do transporte para o usuário; 3) transferência de tecnologia, que permita ao Brasil construir seu próprio sistema depois. Esse projeto, cuja concorrência será lançada em 2010, é o projeto piloto para a construção de outras redes, no sentido norte – sul e oeste – leste, além de interligações entre, por exemplo, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, conforme depois foi exposto em Hamburgo. Devido a esse item 3), a motivação para a concorrência não é apenas internacional, pois implica também a formação de um conglomerado da iniciativa privada no Brasil, e de Institutos Tecnológicos com apoio na rede universitária. Em suma, é um plano ambicioso de “por o Brasil nos trilhos”, rearticulando a capacitação de rede ferroviária brasileira, desestimulada desde que, nos tempos da ditadura, se optou pelo transporte rodoviário, consumidor dos derivados do petróleo, também pelo estímulo ao uso “descontrolado” do automóvel como principal meio de transportes das classes médias e abastadas do país.
Esse plano também tem a ver com a posição do Brasil na conferência sobre o clima em Copenhague, que se desenvolve nesse momento na Dinamarca, como foi também exposto em Hamburgo, onde o Brasil está levando uma ousada proposta de redução de emissão de gás carbono na atmosfera.
Em Hamburgo houve um seminário organizado pela universidade local e pelas autoridades da cidade-estado (a Alemanha tem três cidades com status de estado: Hamburgo, Bremen e Berlim), na casa de governo (Rathaus). O alvo desse seminário era composto de empresários alemães, os brasileiros que acompanhavam a comitiva presidencial e outros, como jornalistas, acadêmicos especializados no Brasil, etc. Havia cerca de 600 pessoas presentes ao seminário. De quebra, a Universidade de Hamburgo concedeu ao Presidente o título de Doutor Honoris Causa, que, no entanto, ele disse que aceitaria receber oficialmente só depois de cumprir o seu mandato. Há também um movimento para criar um Centro ou Núcleo [academicamente a diferença é relevante] de Estudos Brasileiros na universidade.
Hamburgo foi um dos primeiros estados (naquele tempo não existia uma Alemanha) europeus fora do eixo Grã-Bretanha/Portugal/França a reconhecer a independência do Brasil e a fazer um acordo de cooperação econômica, isso em 1827, como lembrou o Presidente em sua fala.
O seminário consistiu em exposições, feitas por diversos ministros, sobre a “oportunidade-Brasil” como local de investimento. A iniciativa tem pano de frente um futuro promissor; mas seu pano de fundo é a diminuição que houve, em 2008/2009, dos investimentos/ano da Alemanha no Brasil, que, tendo chegado a 25 bilhões de dólares, caíram para 13,5. Em todo caso, o pano de frente promissor é o Brasil, e as exposições foram eloqüentes em bater nessa tecla.
É claro que, de todas as exposições, cujos temas passavam por indústria, comércio, serviços, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos, as principais de mais comentadas foram as do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, da Ministra Dilma e a do Presidente. Pode-se dizer que o “alvo inspirador” das três foi a demonstração de que havia um forte conjunto de iniciativas por parte do governo no sentido de ampliar e consolidar o mercado interno, e que foi isto que ajudou o Brasil a se recuperar mais rapidamente do que o conjunto das outras economias diante da crise financeira que varreu o mundo a partir de 2007 e sobretudo a partir de setembro de 2008 com a quebra do Lehman Brothers. O Presidente atacou duramente a pregação neo-liberal sobre as vantagens do “Estado Mínimo”, além de fazer um discurso eloqüente sobre o conceito de que o principal investimento que o governo tem a oferecer como garantia para o investidor internacional é o “esforço de capacitação” do próprio povo brasileiro, em temas que vão desde a capacidade econômica para o consumo até sua formação educacional, tecnológica, cultural e cidadã.
Lula foi muito aplaudido, diversas vezes, também ao retomar sua história de menino pobre, “filho de mãe que nasceu e morreu analfabeta”, no seu dizer pitoresco, que chegou à presidência, e que, por isso [ao contrário do que seus opositores gostam de apregoar], sabe o valor da educação e da formação em todos os seus níveis.
O principal trunfo que o Brasil guarda e apresenta, apesar de todas as suas desigualdades permanecerem acentuadas, e seus problemas de segurança e outros temas que também estão na pauta, é o de ser nessa altura um país na contramão – que, na verdade, é a melhor mão da história: é um país cuja pobreza e/ou miséria está diminuindo a olhos vistos, ao contrário de outros onde, mesmo se ricos e melhor organizados, ela está aumentando (como é o caso de muitos países europeus, inclusive a Alemanha).
Fica uma questão importante a considerar. Ficou claro nos discursos, sobretudo no do Presidente, que o carro-chefe (a expressão vem a calhar) da recuperação econômica pós-crise do Brasil foi ainda a indústria auto-motiva e automobilística. Para quem tem metas ambiciosas de redução de emissões de CO2, junto com o esforço de por o país “nos” e “sobre” trilhos, esse é um tema estratégico nada trivial, e que merece uma reflexão mais profunda no sentido de motivar, econômica, social, política e culturalmente, o transporte coletivo em larga escala e a construção mais eficaz e consistente do sentimento de solidariedade que isso implica. Mas de momento, pelo menos, o Brasil vai melhor, obrigado.
Para não esquecer: nessas andanças para lá e para cá, houve conversas também sobre a crise em Honduras e seus desenvolvimentos presentes e futuros. Mas isso fica para outros artigos.
Cobertura compartilhada: Rede Brasil Atual/Revista do Brasil - Agência Carta Maior
Lula em Berlim: “Quem tem moral para falar com o Irã é o Brasil”
“Quem tem moral para falar com o Irã é o Brasil”: essa declaração do presidente Lula, em sua visita oficial a Berlim, contém algumas das palavras-chave de sua presença na capital alemã. Ela surgiu durante a entrevista coletiva que ele e a chanceler (equivalente ao cargo de primeiro-ministro) Ângela Merkel deram no prédio da chancelaria alemã, perante quase uma centena de jornalistas.
A pergunta, feita por um jornalista alemão, teve uma resposta quase, eu diria, protocolar, por parte da chanceler alemã. Referiu-se às preocupações do bloco ocidental em relação ao programa nuclear iraniano, além de mencionar o cuidado com que se vê a receptividade do governo de Ahmadinejad em espaços políticos outros (como o Brasil). Já o comentário de Lula foi contundente, embora registrando também as dificuldades da posição brasileira. Disse que se os Estados Unidos e a Rússia quiserem de fato pressionar um país já de “forte presença internacional” como o Irã, eles devem começar por diminuir de modo significativo os próprios arsenais nucleares. Já o Brasil, continuou o presidente, pode falar de cátedra, por ter na sua Carta Magna artigo que proíbe – o presidente frisou – “PROÍBE” – a construção de armas nucleares. E completou com a observação de que o empenho no diálogo, por mais problemático que isso seja, é melhor e – também frisou, o que não é desprezível – “mais barato” para todo mundo. De sobremesa, serviu o prato de que, se o Brasil recebeu o presidente do Irã, no mesmo período recebeu também os presidentes de Israel e da Autoridade Palestina.
Claro que isso expõe também o fato de que o Brasil não é uma presença militar maior nesta questão e em outras – o que pode ser visto como uma limitação e uma praga, ou como uma limitação e uma bênção (caso deste escriba). Freqüentemente o pensamento conservador brasileiro considera a política externa do governo Lula “megalomaníaca”, querendo assumir ares que o país não teria como oferecer. Tem sim, como neste caso. A aposta permanente do Brasil (que não foi invenção do governo Lula, mas sim potenciada por ele) em fóruns multilaterais e no campo das negociações diplomáticas credencia o país – de resto uma economia e uma nação do tamanho de metade da América do Sul – para isso.
Mas na entrevista coletiva houve também outros temas abordados. Copenhague e a negociação climática: Lula e Merkel se mostraram, digamos, cautelosamente otimistas. Apostam que Copenhague não será um ponto de chegada, mas de partida, nos impasses mundiais sobre a questão. Lula ressaltou que é necessário prestar atenção às realidades de cada país, de cada continente (como a África, que necessita de linhas de investimento especiais para se desenvolver sem comprometimento meio-ambiental). Referiu-se à China e suas dificuldades internas, e também ao governo de Barack Obama e suas dificuldades domésticas. Fez um elogio indireto ao presidente norte-americano, ao ressaltar que tinha certeza de que, se dependesse só dele, Obama, os Estados Unidos teriam propostas mais ousadas no sentido da preservação planetária. Mas por outro lado, ressaltando a limitação do presidente mais poderoso da Terra, lembrou que ele precisa atender a compromissos internos.
Rio de Janeiro e o tema Copa/Olimpíadas: Lula e Merkel ressaltaram a cooperação alemã (foi assinado um acordo específico sobre isso) no caso da segurança. Lula ressaltou mais o aspecto policial da questão, em relação à criminalidade e à possibilidade de violência, ressaltando que o Brasil está estudando as últimas copas e olimpíadas pelo mundo para fazer “uma média” de realizações e problemas. Já Ângela Merkel sublinhou que o acordo abre o caminho para uma série de temas, incluindo, por exemplo, o do relacionamento entre policias e torcedores, e que ele abre também a possibilidade da presença física de policiais de outros países no Brasil antes e durante os eventos esportivos.
Essa entrevista coletiva foi até o momento o ponto culminante da visita oficial, de Estado, de presidente Lula à Alemanha, que começou na quarta-feira, 02/12, a Berlim, provindo da Ucrânia, onde realizou conversações sobre, inclusive, lançamento de foguetes espaciais.
Uma visita dessas é uma maratona, que exige dose dá aos jornalistas um atestado de preparo físico e moral. Num clima nada acolhedor (não por parte dos organizadores, mas do clima mesmo), de um frio de um ou dois graus centígrados, deve-se correr de um lado para o outro, fotografar, ver, registrar, prestar atenção nos detalhes, etc. No decurso de uma manhã, até a hora do almoço, o presidente brasileiro visitou o palácio oficial do presidente alemão (Horst Köhler), passou em revista a tropa formada, depois de ouvir os respectivos hinos nacionais, assinou acordos (inclusive um que terá de ser definido em cada setor sobre reciprocidade na previdência social), conversou com escolares e assinou seus cadernos, visitou o Portão de Brandemburgo, colocou uma coroa de flores no Monumento às Vítimas da Tirania, e seguiu para a chancelaria, onde houve assinatura de novos acordos de cooperação e a referida entrevista coletiva. Ele trotando por tudo isso e nós, os jornalistas, a galope atrás.
Um sucesso: assim pode ser descrita essa visita do presidente Lula a Berlim. Todos os jornais deram notas elogiosas sobre ele e o Brasil, sem desconhecer nossos problemas tradicionais. A manchete do dia ficou por conta do Süddeutsche Zeitung: “O presidente brasileiro na Alemanha: Lula superstar”.
Amanhã haverá uma excursão em trem-bala, especialmente fretado pelo governo alemão, a Hamburgo, onde ocorrerá um seminário sobre oportunidades de investimento no Brasil. Acompanham o presidente diversos ministros, entre eles a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, e o Assessor Especial para Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia.
*Cobertura compartilhada: Rede Brasil Atual/Revista do Brasil – Carta Maior.
A guerra dos minaretes no centro da Europa
A Suíça é um país encantador, com calendários de paisagens bucólicas, floridas e/ou nevadas que fizeram felizes milhões de brasileiros durante gerações, um recanto de paz onde as guerras não entram, cujo lema (não oficial) é um manifesto pela solidariedade, a famosa frase dos três mosqueteiros (que eram quatro) de Alexandre Dumas Pai, "um por todos, todos por um", certo? Errado.
A Suíça é um país estremecido por uma vaga de intolerância que ameaça projetá-la internacionalmente como um território ocupado por políticas e propaganda de inspiração racista, ondas de xenofobia, perseguições contra minorias étnicas e culturais, voltada para a defesa de uma "pureza européia" como raramente se viu desde as sinistras campanhas de arianismo dos anos 20 e 30 que levaram ao nazismo no mundo germânico. Errado? Não, certo.
Infelizmente, certo. Mas felizmente não é toda a Suíça (assim como não foi todo o mundo germânico que mergulhou na sandice nazista). Há ainda quem manifeste indignação, perplexidade, repúdio diante do que aconteceu.
E o que, afinal, aconteceu?
No domingo, 29 de novembro, houve um plebiscito na democrática Suíça, onde tudo pode ser plebiscitado, desde que seja objeto de uma petição com um certo número de assinaturas. O tema do plebiscito era se a construção de minaretes (as torres com sacadas circulares, junto às mesquitas muçulmanas, de onde o muezzim anuncia as preces) deveria ser proibida em território suíço, ou não. Autoridades, religiosos de todas as religiões, o Vaticano, militantes dos direitos civis, ecologistas, até políticos conservadores e de direita se posicionaram contra a proibição, a favor dos minaretes. Ademais, a população muçulmana na Suíca é pequena (400 mil em 7,75 milhões, cerca de 5,1%) e, na maioria, não provem de países árabes, mas da Turquia, da Albânia e da Bósnia; em todo o país há apenas 4 minaretes.
As pesquisas de opinião davam uma confortável maioria para o "não". Talvez isso tenha contribuído para afrouxar o ímpeto dos que defendiam a liberdade para os minaretes e para todos os cultos religiosos. O fato é que o "sim" venceu, com 57% dos votos, e mergulhou o país numa crise de credibilidade e também de temor.
Crise de credibilidade: a Suíca deixou de ser aquela "terra de tolerância" descrita no primeiro parágrafo desse "post". Aliás, já vinha deixando de ser. Em campanhas eleitorais anteriores, um poster racista, em que três ovelhinhas brancas chutavam uma negra para fora da bandeira suíça, já chamara a atenção. Agora o poster principal da campanha pró "sim", ou seja, contra os minaretes, mostrava uma mulher com trajes muçulmanos, ao lado de minaretes negros sobre a bandeira suíça, cuja forma (a das torres) se confundia com a de mísseis. Tão ameaçador e intolerante era o poster, que ele chegou a ser proibido em algumas cidades.
Crise de temor: teme-se agoras que haja represálias por parte dos países de predominância muçulmana, não propriamente sob a forma temida do terrorismo, mas sim sob a forma apavorante da retirada de investimentos e de depósitos em bancos.
Segundo a revista Der Spiegel (artigo de Michel Soukup), por trás de ambas as propagandas (a das ovelhinhas e a das torres/mísseis), está um alemão residente na Suíça, Alexander Segart, de 46 anos, que se declara um defensor ardoroso do cristianismo. Mas a campanha, cujo efeito na Europa é temido e pode de fato ser ameaçador, parece ter um tipo de apelo diverso do que o religioso. A sua base de propagação, também manifesta em vídeos e outros meios da mídia (inclusive no Brasil) difundidos pela internet, é uma suposta "islamização" da Europa e do mundo. Essa "islamização" teria como armas uma taxa de crescimento populacional maior entre os muçulmanos e uma militância religiosa e cultural mais empenhada do que aquela dos "frouxos" cristãos e ocidentais. Em tempos recentes uma acirrada polêmica marcou a licença para a construção de uma grande mesquita em Colônia, na Alemanha, e um dos argumentos brandidos pelos opositores era o de que a "cultura muçulmana" não "pertence à Europa", seja lá que insensatez isso queira traduzir. Insensatez? Sim, além de intolerância absurda, insensatez. Por exemplo: não fossem os sábios muçulmanos, os europeus e outros povos teriam "esquecido" quase todo o seu mundo da antigüidade grega.
Parlamentares e ativistas suíços estão se mobilizando para averiguar a possibilidade de declarar o resultado do plebiscito inconstitucional, além de pretenderem levar o caso à consideração do Parlamento e do Tribunal da União Européia em Estrasburgo, numa medida, na verdade, preventiva, já que a Suíça não faz parte da UE.
A adesão de movimentos de direita à campanha da proibição não surpreendeu. O que trouxe mais mal estar à história toda foi a adesão de grupos que se consideram "de esquerda" ou "militantes dos direitos humanos", argumentando com sua preocupação diante da "posição da mulher" nas culturas muçulmanas. Essa posição, disfarçada de "progressismo", esconde na verdade um ranço neo-colonial, baseado na idéia de que "como sou mais adiantando eu sei o que é melhor para você". Uma coisa é debater posições autoritárias ou machistas na cultura islâmica - aliás, em todas as culturas e sociedades. Outra é sair proibindo, barrando, impedindo a liberdade de expressão (é disso que se trata) em nome de que "nós" somos "o" modelo para o mundo, o que no mínimo revela a arrogância de quem nào consegue se focar no espelho.
Infelizmente, a proibição dos minaretes, como também aponta o artigo do Der Spiegel, têm precedentes em outros tipos de proibição: na Arábia Saudita torres de igrejas cristãs são proibidas, o que apenas prova que a insensatez não tem fronteiras.
Bombas no Afeganistão explodem em Berlim
A primeira versão da notícia foi a mais dura: o Ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg demitiu o Comandante-em-Chefe do Exército Alemão, General Wolfgang Schneiderhan. De quebra, foi também o Secretário da Defesa Peter Wichert. (www.t-online.de) (26/11/2009).
Depois veio uma versão mais "soft": ambos os demitidos teriam "pedido demissão". De qualquer modo, a crise é grave. Tão grave que na sexta-feira, 27/11, produziu mais uma vítima: o Ministro do Trabalho, Franz Josef Jung, um colaborador próximo da chanceler Ângela Merkel, renunciou ao cargo.
Motivo: no dia 4 de setembro o comandante das tropas alemãs que, como parte da OTAN, estão na inóspita região de Kunduz, no norte do Afeganistão, pediu o bombardeio aéreo de dois caminhões-tanque carregados com gasolina, tomados pelos talebãs. No momento do bombardeio, uma pequena multidão esvaziava a gasolina de um dos veículos, que atolara ao cruzar um rio da região. Duas bombas foram lançadas e tudo foi pelos ares, matando mais de uma centena de pessoas.
Entretanto, desde o dia 6 de setembro um relatório secreto já dava conta que entre os mortos havia inúmeros civis, entre eles adolescentes e crianças. Atraídos pela gasolina, habitantes de uma vila próxima tinham se misturado aos talebãs na esperança de conseguir algum combustível.
O relatório foi confirmado por um relatório do governo afegão: houve pelo menos 142 mortos, e destes, um número entre 30 e 40 seriam civis. Além disso, já havia relatos também de inúmeros feridos civis atendidos nos hospitais da região.
Seguiu-se um jogo de empurra-empurra quanto à responsabilidade pelo ataque, entre a aviação norte-americana (que despejou as bombas) e o comando alemão em terra (que pedira o ataque). Mas o mais grave de tudo é que os relatórios oficiais foram mantidos em segredo, enquanto as autoridades alemãs responsáveis pela área - o comandante Schneiderhan inclusive - garantiam ter informações seguras de que as vítimas eram apenas guerrilheiros talebãs.
Ao se inteirar do episódio, a chanceler Ângela Merkel prometeu uma investigação completa. Entretanto, a bomba só explodiu em Berlim no dia 26 de novembro, quando a edição do jornal Bild revelou, com exclusividade, não só o conteúdo do relatório, como algumas das fotos que o acompanhavam.
As reações foram imediatas e a notícia das demissões entraram na internet pouco depois do Bild chegar às bancas. Explique-se que o Bild é um jornal considerado nos meios jornalísticos como uma mistura de sensacionalista e conservador. Algo assim como se fosse uma mistura do antigo Notícias Populares com a Veja de hoje.
O caso respingou feio no então Ministro da Defesa, Franz Josef Jung (da União Democrata Cristã, partido da chanceler Merkel), o superior imediato tanto do Secretário Wichert como do General Schneiderhan. Interpelado duramente pelos deputados da oposição no Bundestag (Congresso) alemão, onde tem assento, Jung saiu-se mal, dizendo nada saber porque não tinha lido o relatório. A emenda foi pior do que o soneto, porque, como declararam os oposicionistas à mídia, é inadmissível que um Ministro da Defesa não lesse o material relevante sobre um caso que desde o início fora tratado como controverso e potencialmente contundente - pois com certeza influenciou na votação nacional que hove ao final daquele mês. Afinal, na sexta-feira 27 Jung admitiu que sabia desde o início sobre a existência de vítimas civis, e a seguir renunciou ao novo cargo que tinha no governo, o de Ministro do Trabalho.
Toda a confusão aumentou ainda mais a repercussão negativa não só da presença das tropas alemãs como da OTAN como um todo no Afeganistão. Certamente haverá novas investigações, porque o caso põe em dúvida a transparência das informações sobre uma guerra que parece cada vez mais problemática e sem futuro.
Crise diplomática na Europa. A mão de Thierry Henry
Volto a Berlim depois de uma rápida excursão a São Paulo*. Encontro a Europa em pé de guerra.
As ameaças vão desde mensagens e farpas diplomáticas à ameaça de boicote internacional ao vinho francês. Motivo: a "mãozinha" que a mão do atacante Thierry Henry deu para classificar a França, contra a Irlanda, para o mundial de 2010 na África do Sul.
O jogo foi em Paris, no dia 18 de novembro pp. Na ida, em Dublin, a França ganhara por 1 a 0. No finzinho do jogo do dia 18 a Irlanda ganhava de 1 a 0. O resultado levava a decisão para os pênaltis. E para os dois times era o fim do fim ou o recomeço do recomeço: já corria a fase da repescagem.
Falta contra a Irlanda. Cobrada pelo alto, fica claro na hora mesmo que há dois jogadores franceses em impedimento, e um deles era Thierry Henry. O árbitro não apita. Thierry se adianta e junto à linha de fundo, ajeita claramente a bola com o braço (1a. vez) e com a mão (2a. vez), e dá um tapa (desta vez com o pé) na bola para o centro da pequena área. William Gallas cabeceia e empata para a França. Reclamações, gritos, dedos em riste dos jogadores irlandeses. O juiz sueco Martin Hansson nem se abala e valida o gol. A França está classificada.
Thierry: herói ou vilão? Herói e vilão? É isso aí e muito mais. O jogador, cuja equipe hoje é o Barcelona, reconhece a falta. Há reportagens que lhe atribuem até o dito de que a partida deveria ser jogada de novo. Ao mesmo tempo, ele diz que se sente "só" e que, não fosse o apoio da família e de amigos, entraria em depressão, desistiria da seleção francesa.
O primeiro ministro irlandês Brian Cowen também acha que a partida deveria ser anulada. Exorta o presidente francês Nicolas Sarkozy a pedir o mesmo. Sarkozy reconhece o erro do árbitro, mas diz que não se mete nessa cumbuca. Já o presidente da FIFA, Sepp Blatter diz que nem que o rebanho de gado Hereford da Irlanda morra de gripe suína (ou algo assim) a partida será anulada. Mais ministros, dessa vez da área esportiva, entram na discussão. O ministro de esportes da Irlanda, Martin Cullen, se dirige diretamente ao presidente da FIFA, sem resultado.
Fora das quatro linhas especula-se sobre se haveria uma espécie de "inclinação informal" para que grandes equipes, ou melhor, equipes de grandes países não fiquem fora das copas.
Por outro lado, o jornal francês Le Monde promove uma consulta informal sobre se a França mereceu a classificação: 80% dos que respondem (até hoje, 23/11) dizem que não. Na França predomina um sentimento de perplexidade; na Irlanda, de ódio e frustração; no resto da Europa, de estupor.
Na França, a extrema direita se agita: ela já reclamava do "escurecimento" do time francês; agora há quem se regozije pelo fato de que o pivô do "crime" não seja um "francês da gema". Afinal, se Thierry Henry nasceu nos subúrbios de Paris, é filho de pai de Guadelupe e de mãe da Martinica (aquela da banana nanica), ambas nas Antilhas. Se o leitor ou a leitora estão escandalizados com o racismo, acalmem-se: certamente outras sandices piores virão à tona.
A Irlanda passa por um mau momento de baixa auto-estima. Era uma das meninas dos olhos do neo-liberalismo europeu e mundial, junto com a Islândia. Ambas as ilhas naufragaram fragorosamente com a crise dramática de setembro de 2008. A copa seria uma oportunidade para reerguer o moral, unificar o sentimento nacional. Tudo isso lhes foi roubado pela mão de Thierry, pela cegueira do juiz e pela injustiça da mão divina, quem sabe.
Mas ainda há quem preserve a lucidez e o bom humor. O comediante irlandês Ardal O'Hanlon lascou: "800 anos de opressão britânica? Deixa pra lá. Agora sim temos algo para reclamar".
Em outros quadrantes a situação também não está fácil. Na semana passada a Argélia desclassificou o Egito também na disputa por uma vaga no próximo mundial. Resultado: ataques contra residências, escritórios e lojas de egípcios em Argel; ameaça de invasão da embaixada da Argélia no Cairo. Na Alemanha há investigação sobre suspeita de manipulação de até 32 jogos do campeonato nacional.
Caramba, que saudade da lisura dos jogos do futebol das várzeas de antanho. Por vezes o clima de confraternização era tal que os capitães dos times, além de apertarem as mãos, tiravam ostensivamente as respectivas navalhas de dentro das meias e, num gesto mais que simbólico, as entregavam ao juiz. Que as devolvia depois do jogo, é claro. Isso é que era espírito esportivo. O resto é canapé.
Agora, se a França ganhar a copa, quem deve por a mão no caneco e levantá-lo, no gesto inventado e consagrado pelo capitão Bellini em 58, é o Thierry.
*Para uma jornada de estudos literários sobre as obras de Antonio Candido e do crítico uruguaio Ángel Rama no Memorial da América Latina.
9 de novembro: foi e é hoje que o muro caiu
As comemorações correm céleres por Berlim e pelo mundo a fora. Foi na madrugada de 9 para 10 de novembro de 1989 que o muro de Berlim se abriu, caiu e o desenho do mundo começou a mudar radicalmente.
Há muita euforia no ar e nas comemorações oficiais. Tanta euforia, que começou a gerar um certo e subreptício malestar. Quase ninguém lamenta a queda do muro. Somente aqueles - sobretudo no ex-lado ocidental, que reclamam que essa queda saiu muito cara em matéria de impostos. No ex-lado oriental, há quem lamente a perda de direitos sociais. Mas do ponto de vista político há uma enorme concordância sobre ter sido o muro um erro e sobre o autoritarismo da ex-Alemanha Oriental ter se tornado insuportável.
>> O Muro de Berlim: uma experiência concreta
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A questão não é essa. A questão que se coloca é sobre a natureza do que aconteceu a seguir.
Para muitos não houve propriamente uma "reunificação" da Alemanha, mas sim uma espécie de "anexação" do lado oriental pelo ocidental. Aquele foi "ocupado" de repente pelo capitalismo triunfante, seus valores, suas qualidades e também -sobretudo - por seus problemas, como o desemprego estrutural e, na versão neoliberal, a desregulamentação de direitos do trabalho.
Os indícios mais visíveis dessa sensação de mal estar são de sentidos opostos. De um lado, no ex-lado oriental, a propaganda de grupos de extrema-direita é muito forte, tentando capitalizar o lema "emprego para os alemães" e com uma pregação clara ou veladamente xenófoba. Durante as recentes eleições havia um cartaz do NPD, de extrema-direita, que dizia: "Expulsão para os criminosos estrangeiros". Isso em si já é xenofobia; mas a palavra "criminosos" era tão pequenininha que o que se lia era só o pedido de expulsão para os estrangeiros.
O outro indício, na outra ponta do espectro político, é que o ex-lado oriental tornou-se o baluarte eleitoral do novo partido de esquerda, a Linke, cujo desempenho no ex-lado ocidental tem sido bem mais modesto, apesar de haver progressos. A Linka formou-se a partir de dissidentes do Partido Social-Democrata, descontentes com sua marcha para a direita, remanescentes do antigo lado oriental, mais sindicalistas também descontentes com a adesão do SPD ao ideário neoliberal, e mais alguns grupos de extrema-esquerda.
Essa divisão remanescente ficou dramaticamente estampada em Berlim, na capital, onde, no antigo lado ocidental, o partido democrata cristão, CDU, de direita, levou tudo. enquanto no antigo lado oriental a Linke e o Partido Verde levaram quase tudo, este último em redutos de jovens e estudantes.
De todo modo, o clima é de festa em Berlim e na Alemanha. Mas já ouvi declarações de muita gente que comemorou na rua naquele 9-10 de novembro de 1989, dizendo que hoje preferem ficar em casa. Claro, pode-se dizer: 20 anos se passaram, essa turma está 20 anos mais velha... Mas não é só isso não: há tanto o que comemorar quanto o que refletir sobre esses 20 anos de triunfos e de novos problemas.







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