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O golpe e a traição das elites

Temer e suas forças de sustentação insistem em apoiar a fracassada globalização neoliberal e deixam Brasil de fora do cinturão econômico que se ergue em torno da antiga rota da seda
por Marcio Pochmann* publicado 29/05/2017 10h31, última modificação 29/05/2017 19h24
Temer e suas forças de sustentação insistem em apoiar a fracassada globalização neoliberal e deixam Brasil de fora do cinturão econômico que se ergue em torno da antiga rota da seda
Ayrton Vignola/Fiesp
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Sem projeto de país, governo Temer segue fiel apenas a interesses da ultrapassada globalização neoliberal

No novo jogo da globalização, a elite brasileira escolhe o lado errado para se aliar. Ao invés do grandioso projeto de desenvolvimento multilateral deste início do século 21, em marcha desde a Eurásia, predomina a opção das forças reunidas em torno do governo Temer pelo projeto de armamento político-militar sob a liderança dos Estados Unidos.

Derrotada desde a grande crise de dimensão mundial a partir de 2008, a globalização neoliberal emite sinais cada vez mais evidentes de dependência de ações de guerra, tradicional e moderna, para evitar a decadência política e econômica ocidental. A elevação dos gastos militares, o redirecionamento de parte crescente dos orçamentos para ações antiterroristas e operações de contrainformação somam-se à ampliação das bases militares coordenadas desde a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Na América Latina, surgem as novas bases militares estadunidenses na Argentina e no Paraguai, além das já existentes no Chile, Peru e Colômbia. No Brasil, as iniciativas do governo Temer não se limitam ao uso do armamento e a militarização contra o povo, mas a presença crescente dos Estados Unidos, na cessão da Base de Alcântara (no Maranhão), na ocupação do espaço aéreo, no apoio ao uso dos serviços de inteligência aos órgãos de Estado e nos exercícios militares na região da tríplice fronteira amazônica.

Também a aceitação da venda de terras a estrangeiros e a adoção das reservas ambientais tendem a confirmar que a traição das elites compromete o futuro possível do desenvolvimento e soberania ao conjunto dos brasileiros.

E isso está em curso atualmente diante da maior iniciativa do desenvolvimento multilateral desde o final da segunda Guerra Mundial por meio da construção do inédito projeto de cinturão econômico em torno da antiga rota da seda. O arranjo político, econômico e social na Eurásia constitui um novo contexto para a globalização inclusiva, alternativa à fracassada globalização neoliberal que o governo Temer e suas forças de sustentação insistem em apoiar.

O inédito motor da globalização inclusiva encontra-se associado a um orçamento estimado em US$ 26 trilhões até o ano de 2030 estendido para as 65 nações que se encontram envolvidas e que respondem por quase dois terços da população mundial. Esta aliança, que produz interconectividade em escala global, nasceu em 1999 com a iniciativa de desenvolvimento regional para uma região da China (Xinjiang) e que a partir de 2013 foi sendo audaciosamente transformada em projeto de dimensão global.

Para tanto, mais de uma dezena de bancos encontram-se integrados (Banco Asiático de Desenvolvimento, Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, Banco de Desenvolvimento dos Brics, entre outros) tratando de constituir as bases do impressionante padrão de financiamento do desenvolvimento do futuro.

A ampliação da capacidade de produção e comércio e a eliminação dos obstáculos à infraestrutura do conjunto das nações envolvidas apontam para a construção de um futuro coletivo e inovador, com soberania, justiça e igualdade.

A resposta popular nas ruas brasileiras evidencia a construção de alternativas à traição das elites no Brasil. Mais um ótimo sinal de que o povo é melhor do que a sua elite e de como o Brasil é superior à grave crise que o governo Temer provocou.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)