Mazelas latinas

‘Nós queremos que o Chile seja a tumba do neoliberalismo’, diz sindicalista

Dirigente da CUT chilena afirma que país é "mercantilizado" e tem sistema de aposentadorias "imoral". Para argentino, conservadorismo atacou governantes que se dispuseram a combater a pobreza

Adonis Guerra/Sind. Met. ABC
Baradel, da CTA argentina (o segundo à esquerda), e Alejandra (última à direita), da CUT Chile, com sindicalistas brasileiros e Gleisi Hoffmann, do PT: defesa dos direitos dos trabalhadores

São Paulo – Com um mês de mobilização e protestos, o Chile expõe “muita raiva acumulada depois de 30 anos de uma política neoliberal imposta a sangue pela ditadura”, define a vice-presidenta de Relações Internacionais da CUT chilena, Alejandra Valenzuela. “Não são só 30 pesos. São 30 anos”, afirma, referindo-se ao estopim das manifestações, a reação contra aumento de tarifa no transporte coletivo. Ela participou de encontro, nesta segunda-feira (18), de centrais sindicais brasileiras e movimentos sociais, para discutir propostas de crescimento econômico.

Ontem (17) à noite, o presidente Sebastiãn Piñera fez pronunciamento sobre um acordo político fechado na véspera que envolve a realização de um plebiscito sobre a atual Constituição, de 1980, remanescente do período Pinochet. “Se a população assim decidir, avançaremos para uma Constituição, a primeira elaborada em plena democracia e aceita e respeitada por todos”, declarou Piñera, em meio a uma onda de protestos. Para a dirigente sindical, o acordo pode ser também uma tentativa de “desmobilizar o povo”.

Ela também destacou as várias mortes já ocorridas desde o início das manifestações – pelo menos 23 – e as centenas de pessoas feridas. O presidente reconheceu que houve “uso excessivo da força” em alguns casos.

Para Alejandra, há muito o que fazer em um  país “todo privatizado e mercantilizado”, e uma série de demandas sociais reprimidas, além de um sistema de aposentadorias que ela classificou de “imoral” e que exige mudanças. “Nós queremos que o Chile seja a tumba do neoliberalismo”, afirmou. A dirigente da CUT disse ainda que a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um fato que transmite esperança.

Contra a pobreza

Se o Chile vive um momento conturbado, a Argentina passa por um período de expectativa, após a eleição do oposicionista Alberto Fernández, que tem a ex-presidenta Cristina Kirchner como vice. O secretário de Relações Internacionais da CTA, Roberto Baradel, também convidado para o evento no Brasil, disse que hoje aproximadamente 40% da população está abaixo da linha da pobreza. Citando Argentina, Brasil e Bolívia, entre outros países da região, ele relacionou o recente avanço conservador no continente às tentativas de governantes progressistas de, justamente, atacar esse problema. Foram governos que também se empenharam em políticas de integração regional. Todos foram atacados sob o pretexto do combate à corrupção.

“Com diferentes atores ou personagens, são os mesmos métodos que se aplicam. Tomaram os trabalhadores como inimigos, procuraram deslegitimar os movimentos populares”, afirmou o sindicalista argentino, acrescentando que as três centrais sindicais daquele país estão procurando priorizar o que as une em vez das divergências. A questão da unidade vale também para as forças políticas que se opõem ao conservadorismo, observou.

“Os trabalhadores temos que ser capazes de tomar as próprias decisões. A luta política é fundamental para conquistar as demandas populares. Claro que temos de ser autônomos, mas não podemos ser neutros”, afirmou Baradel. Ele observou que na Argentina se criou um dos primeiros comitês “Lula livre” fora do Brasil. “O triunfo de vocês é o triunfo de todos. Temos de mudar a América Latina e somos capazes de fazê-lo.”