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Remédio contra malária, em teste, não é solução mágica para coronavírus

Usada em tratamento da malária, droga Cloroquina ficou conhecida depois de Trump exigir aprovação rápida para uso contra o coronavírus

arquivo/ebc
Alguns medicamentos apresentam boas respostas no enfrentamento ao coronavírus, mas não existe milagre

São Paulo – Com o avanço da epidemia de coronavírus, a esperança de que uma vacina ou remédio seja desenvolvido logo é natural. Mas é preciso ter cuidado com soluções aparentemente mágicas que surgem, sobretudo propagadas por líderes mundiais. Desde ontem (19), muito tem sido falado sobre a Cloroquina, medicamento utilizado no tratamento da malária, que teve alguns resultados importantes contra o coronavírus. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigiu que a FDA, agência que regulamenta os medicamentos no país, agilize a liberação do uso desta substância para enfrentar a epidemia.

Acontece que o medicamento contra malária não foi efetivamente testado para combater o coronavírus, mas usado como parte de um combo, com outros medicamentos, no tratamento de pessoas infectadas que estavam em estado grave e não respondiam aos demais tratamentos, como explicou Luciana Costa, diretora adjunta do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Cloroquina é um medicamento que tem a sua eficácia comprovada contra três doenças: malária, lúpus eritematoso e artrite reumatóide.  

“Não teve estudo ainda. Isso que as pessoas têm de ter muita cautela. A Cloroquina foi utilizada, em conjunto com outros medicamentos, nos pacientes graves, internados, em uma tentativa de tirar o paciente do quadro grave. Ainda não se sabe a eficácia comprovada. No estudo da Universidade de Stanford fala-se que 75% dos doentes se recuperaram após tratamento com essa combinação. Só que ainda não foram divulgados os dados desse pequeno teste clínico”, explicou Luciana.

Luciana destacou que, em testes de laboratório, a Cloroquina se mostrou capaz de combater infecções pelo vírus influenza – da gripe –, de rinovírus – que causam resfriados –, e de vírus que causam febres hemorrágicas. Mas a situação mudou nos testes em animais e pessoas. “Quando foram feitos testes clínicos com a opção terapêutica de usar cloroquina para curar infecções por influenza, resfriados ou febres hemorrágicas, se mostrou ineficiente. Não funcionou nem nos animais, nem nos testes em seres humanos. Existe uma distância muito grande entre o que funciona no laboratório, até chegar no ser humano”, explicou.

“Cloroquina não é solução”

A médica também pede que as pessoas não usem o remédio contra malária por conta própria, sobretudo por poder faltar para quem realmente precisa. “Não acabou o problema. A Cloroquina não é a solução. Ela pode até ser o medicamento que futuramente vai ser usado contra o coronavírus, mas não é o que a gente sabe no momento. Ainda está cedo. É uma alternativa para pacientes graves, só no ambiente hospitalar. Não é para ser usada por indivíduos que estão em casa, com um resfriado, porque isso pode até piorar o quadro da sua doença. E pode faltar a Cloroquina para quem de fato precisa”, disse.

A diretora considera que foi irresponsabilidade de Trump ter feito uma cobrança à FDA, sendo que não existem dados consolidados. “Ele estava querendo realmente tirar atenção do problema que é sério e distrair as pessoas nesse momento. Quase como querendo desfazer a política mal-feita no início da epidemia nos Estados Unidos. O que pode ter um impacto muito ruim”, afirmou Luciana.

Aqui no Brasil, o Ministério da Saúde reconhece que a Cloroquina pode ser promissora no tratamento, mas precisa de testes mais amplos. “Não façam isso (tomar o medicamento por conta própria). Primeiro porque o Ministério da Saúde tem condição de produção muito grande. Hoje, já é disponibilizado. Se estudos mostrarem esse tipo de beneficio, poderemos prover esse tratamento para a população. Os dados são promissores, existe uma plausibilidade biológica de que esse mecanismo de ação faça sentido, só que os estudos ainda são insuficientes”, disse Denizar Vianna, secretário de Ciência e Tecnologia do ministério.

Hoje, no entanto, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, disse que a Cloroquina será usada no tratamento de pacientes graves de coronavírus que estejam internados.


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