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Número 35, Maio 2009

especial

Fábrica de líderes

Sérgio Nobre fala da responsabilidade de dirigir o sindicato que apresentou Lula ao Brasil e que completa 50 anos em maio
por Paulo Donizetti de Souza publicado , última modificação 05/03/2018 10h48
Sérgio Nobre fala da responsabilidade de dirigir o sindicato que apresentou Lula ao Brasil e que completa 50 anos em maio
Roberto Parizotti
nobre

O  Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema foi fundado em 12 de maio de 1959, desmembrando-se da entidade que servia a todo o ABC e atuava desde 1933 – a reunificação seria retomada em 1993. Desde os anos 1970, quando surgiu Lula, a entidade vem se destacando pela formação de novas gerações de dirigentes de projeção nacional. Cria dessa fábrica de lideranças, Sérgio Nobre ingressou na categoria em 1980, como aprendiz de ajustador mecânico do Senai. Na Mercedes-Benz, para onde foi em 1986, debutou como representante eleito ao integrar a Comissão de Fábrica. Três anos depois entrou para a diretoria do sindicato e, no ano passado, tornou-se seu 11º presidente desde Lino Ezelino Carziel, em 1959. Aos 43 anos, Sérgio reconhece a grande responsabilidade de dirigir o sindicato que apresentou ao Brasil um dos principais líderes sindicais do mundo e o primeiro presidente da República de origem operária de sua história. Mesmo mergulhado numa agenda de trabalho intensa, não abre mão dos estudos no último ano do curso de Relações Internacionais da Fundação ABC e da convivência com a família. Sérgio vê os desafios impostos ao movimento sindical como gigantescos; um deles é recuperar a própria essência da luta sindical, que, lembra, surgiu após a Revolução Industrial com objetivos de melhorar a vida do trabalhador e caminhar para um mundo mais justo e equilibrado. “Essa segunda questão se perdeu e precisamos recuperá-la; é o tal do desenvolvimento sustentável. Está aí o debate futuro”.

É possível comparar os momentos do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC hoje e há 50 anos, quando a entidade surgiu?

Eu divido a trajetória do sindicato nesses 50 anos em três fases. Da fundação, em 1959, ao início dos anos 1980 foi a luta pela redemocratização do país. O empresariado era mais truculento, arcaico, e negociação naquele período era praticamente nenhuma. O segundo período, de meados dos anos 1980 até o final dos anos 1990, tem a luta dos sindicatos contra o neoliberalismo que, para funcionar, privilegia os interesses do mercado, desregulamenta as funções do Estado e, inclusive, o mercado de trabalho. A proteção do emprego e dos direitos ocupou a agenda e, mesmo entre os sindicatos mais fortes, a atuação era na defensiva. Esse modelo chegou até o início desta década. A gestão atual já começou (em 2008) num momento totalmente diferente. Se você tem a economia crescendo e tem democracia, abre-se espaço para o sindicato discutir não só as condições de trabalho, mas também a qualidade de vida do trabalhador. Portanto, são 50 anos de história marcados por momentos bem distintos.

Como você lida com o desafio de ser presidente de um sindicato que tem como maior expressão um líder como Lula?

O sindicato, sob liderança do Lula, foi decisivo no momento em que esteve à frente daquele processo muito rico na história do país, que desencadearia, inclusive, um período muito próspero para a formação de novas lideranças, de novas lutas sociais. Às vezes as pessoas tendem a cometer o erro de pensar que o sindicato enfraqueceu porque antes tinha muitas greves e hoje não tem mais. Ao contrário. Naquela época você não tinha espaço, qualquer demanda tinha de resolver na força. Hoje, 70% da categoria conta com organizações no local de trabalho, onde o dia todo se discute e se negocia, de problemas da higiene a assuntos complexos como a estrutura salarial, a gestão, a crise financeira. Quando se tem espaço para soluções negociáveis, o número de greves diminui. É uma evolução. Por que uma empresa negocia? Porque você se consolidou como um poder dentro da fábrica. Se você não representasse nada, o patrão apenas impunha a vontade dele. Tem parcela do movimento sindical que não compreende isso.

Os sindicatos têm força para influenciar nos rumos do país, mas a reforma da estrutura sindical parou.

Os sindicatos passaram a ter um papel mais importante no governo Lula, porque há uma estratégia de desenvolvimento pela qual passam o combate à pobreza e uma melhor distribuição de renda. E Lula tem os sindicatos como interlocutores. Um estudo do Banco Mundial mostra que todos os países que alcançaram democracia forte e melhor distribuição de renda têm uma característica comum: um movimento sindical forte. A reforma sindical não deu certo porque a proposta era muito boa, uma reforma dos sonhos. As relações de trabalho no Brasil não vão mudar em uma canetada. Uma parte do movimento sindical e do empresariado avançou e se modernizou. Os sindicatos, de trabalhadores e patronais, que não se conformaram com a estrutura sindical defendida por nós são sindicatos alijados no processo de desenvolvimento do país, e que não precisam do trabalhador para existir, pois vivem do imposto sindical.

O sindicato patronal também arrecada muito imposto sindical?

Também. Se não fosse o imposto sindical, dificilmente a Fiesp teria aquele prédio na Avenida Paulista. Por isso que a reforma sindical, quando tentou acabar com esse imposto, enfrentou oposição dos dois lados.

O movimento sindical tem aproveitado o bom momento, com democracia, crescimento econômico, e se preparado para intervir no futuro? Por exemplo, como o setor lida com um futuro em que o carro é um grande vilão na questão ambiental.

O automóvel não deveria ser a primeira opção de transporte no dia-a-dia. O seu carro, como se diz, é de passeio. No Brasil, a ausência do transporte coletivo de massa eficaz provoca o caos, a poluição. A busca de novos combustíveis e de novos conceitos de veículos é importante, inclusive, para a sobrevivência da indústria automobilística.

Em 2002, o Conselho Nacional de Meio Ambiente havia fixado para 2009 o prazo para que os motores passassem a utilizar um diesel menos poluente. O prazo foi prorrogado para 2013.

Esse é mais um dos grandes desafios. Hoje o movimento sindical tem de se preocupar com a questão internacional, o meio ambiente, a tecnologia. No caso desses motores, nós cobramos a montadora e a montadora apresentou o motor. O problema é que não havia como testá-lo, porque não havia o combustível. A questão ambiental nos força a discutir o modelo de desenvolvimento. O movimento sindical surgiu após a Revolução Industrial com dois grandes objetivos: melhorar a vida do trabalhador e caminhar para um mundo mais justo, mais equilibrado. Essa segunda questão se perdeu e precisamos recuperá-la; é o tal do desenvolvimento sustentável. Está aí o debate futuro.

Há quem considere o sindicalista um privilegiado. Como é a sua vida, a sua rotina?

O dia em que trabalho menos são umas 14 horas, o dirigente sindical não tem jornada. É dirigente de domingo a domingo. E o tamanho das coisas com que você tem de lidar? Falar do direito, lei, saúde dos trabalhadores, Mercosul, reestruturação nas empresas... Você é obrigado a conhecer muita coisa, ler, estudar muito. E a agenda é maluca,  é chamado na universidade para falar, tem a negociação de uma empresa, a assembleia de madrugada. Se você não tomar cuidado, acaba doente. Por exemplo, tem semana que não consigo almoçar. Aliás, ainda não almocei (olha para o relógio, que marca 17h).

E a relação com a família?

Tenho dois filhos, que só vejo aos domingos, não tem jeito. Eles estudam. Um tem 17 e o outro, 20 anos. Eu estudo à noite também, Relações Internacionais, me formo este ano, se Deus quiser. Tenho muita sorte, porque minha companheira, a Juraci, sempre me apoiou para eu fazer tudo em que acredito. A relação de confiança e de apoio tem de ser forte. O número de divórcios no movimento sindical é muito alto. O cara que entra para o movimento sindical nunca vai voltar para a fábrica e ser o mesmo, o mesmo professor, o mesmo operário, o mesmo bancário. Nem há democracia nas empresas para isso. Então ele tem de se preparar. Há pouco espaço para a vida social. Aliás, uma das coisas preocupantes no mundo do trabalho moderno é que o trabalho vai ocupando cada vez mais a vida das pessoas.

É como se costuma dizer entre os executivos: a pessoa precisa decidir se quer um relacionamento bem-sucedido ou uma carreira bem-sucedida.

Exatamente. É preciso tomar cuidado com isso, impor limites. A família é importante, os filhos são importantes.

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