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Número 24, Maio 2008

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1968: O vôo e a queda

O jovem é como Ícaro: Quer conhecer a vertigem Do vôo e da queda, Quer habitar a imagem Que julgou ter decifrado E deixará como um sonho. Como a luz das estrelas Não sabe o que é perecer, E se lhe choram a memória Perguntará: por quê? As manhãs se renovam Sem nenhuma explicação. “O Jovem”, de Paulo Neves
por Flávio Aguiar publicado , última modificação 01/11/2017 15h33
O jovem é como Ícaro: Quer conhecer a vertigem Do vôo e da queda, Quer habitar a imagem Que julgou ter decifrado E deixará como um sonho. Como a luz das estrelas Não sabe o que é perecer, E se lhe choram a memória Perguntará: por quê? As manhãs se renovam Sem nenhuma explicação. “O Jovem”, de Paulo Neves
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Protestos

“É preciso liquidar maio de 1968.” A frase, do conservador presidente da França, Nicolas Sarkozy, expõe toda a força que essa data, no auge de seus 40 anos, ainda guarda. Para os que a viveram e para os que dela são herdeiros. Como se pode querer “matar” um mês, um ano? Maio e 1968 não foram apenas um mês, um ano: foram um karma, uma explosão e uma implosão, uma escrita e um apagar, um vôo e uma queda, como diz o poema de Paulo Neves.

Como referência histórica, o ano de 1968 começou em 30 de janeiro, no Vietnã, continuou em fevereiro em Berlim, explodiu em maio em Paris, entrou em declínio em agosto em Praga, na então Tchecoslováquia, e, visto da América Latina, terminou melancolicamente no dia 13 de dezembro no Rio de Janeiro.

Em 30 de janeiro começou um episódio da Guerra do Vietnã conhecido como Ofensiva do Tet. Tet é o nome do ano novo lunar asiático, feriado naquela região. A ofensiva fora preparada desde um ano antes, 1967, considerado particularmente bem-sucedido pelo governo norte-americano, que sustentava o governo do Vietnã do Sul, capitalista, contra o do Vietnã do Norte, comunista, inclusive com a presença de milhares de militares engajados diretamente em combates. Os norte-americanos tinham iniciado um programa que chamavam de “pacificação”, que envolvia a neutralização de áreas dominadas por vietcongues, os guerrilheiros que se opunham ao governo de Saigon, capital do Sul. Esses guerrilheiros recebiam apoio do Norte, armas da União Soviética e da China.

Os Estados Unidos também planejavam começar, em 1968, um programa de reforço do Exército sul-vietnamita, com o objetivo de torná-lo auto-suficiente. Entretanto, no final de janeiro os norte-vietnamitas e os vietcongues lançaram um ataque maciço em todo o Sul, em uma centena de cidades, envolvendo 80 mil combatentes. Na madrugada do dia 31 a ofensiva chegou a Saigon e atingiu simultaneamente alvos como estações de rádio, quartéis, palácio do governo. No feito mais espetacular, 19 guerrilheiros conseguiram entrar no pátio da Embaixada dos Estados Unidos, com o objetivo de destruí-la. Não tiveram êxito: 17 foram mortos e dois capturados, sendo entregues à vingança, mais do que à Justiça, do governo sul-vietnamita.

Tecnicamente, essa macroofensiva é hoje descrita por analistas militares, em particular os de direita, como um fracasso. De fato, nenhum dos grandes objetivos militares foi conquistado. Mas, politicamente, o efeito para os norte-americanos e para os sul-vietnamitas foi devastador. As imagens do ataque à embaixada foram chocantes; a cena do general sul-vietnamita Nguyen Ngoc Loan disparando à queima-roupa na cabeça de um guerrilheiro vietcongue em trajes civis e de mãos amarradas percorreu as televisões do mundo inteiro. Ficou mais patente ainda que os Estados Unidos patrocinavam um governo impopular, corrupto e violento. Protestos contra a guerra se espalharam pelo mundo inteiro, sobretudo nas universidades e entre os estudantes. Ganhou força a resistência ao recrutamento: muitos e muitos jovens norte-americanos fugiam para o Canadá ou para a Europa.

Berlim, Paris e pelo mundo

Em fevereiro, estudantes universitários, liderados pelo jovem Rudi Dutschke, nascido em 1940, organizaram em Berlim Ocidental um congresso sobre a guerra no Vietnã. Formavam a Associação Alemã dos Estudantes Socialistas. Tinham vivido um ano agitado em 1967: durante um protesto contra a presença do xá da Pérsia (hoje Irã) na cidade, um estudante fora morto pela polícia. Os protestos contra a guerra logo incorporaram reivindicações locais contra o conservadorismo nas universidades alemãs, a presença de professores que tinham sido colaboradores do nazismo, e inclusive a presença de ex-membros do Partido Nazista na administração pública alemã.

A movimentação se espalhou por Berlim, pela Alemanha e por toda a Europa e incorporou reivindicações culturais e sociais: mais liberdade de organização nas universidades, mais liberdade para as mulheres, os homossexuais, luta contra preconceitos e o racismo, melhores condições de vida no Terceiro Mundo. Essas mesmas bandeiras também ressonavam nos Estados Unidos, onde crescia a oposição à guerra no Vietnã, e na América Latina, onde se radicalizavam movimentos de resistência aos regimes conservadores na região.

No final de março de 1968, na universidade de Nanterre, arredores de Paris, um protesto contra a guerra no Sudeste Asiático levou à prisão de alguns estudantes. A seguir, sob a liderança de Daniel Cohn-Bendit, então com 23 anos, 300 alunos ocuparam o prédio da administração. E ganharam relevância de novo os protestos contra o conservadorismo do meio oficial universitário, como na Alemanha, espalhando-se por outras universidades do país.

No dia 4 de abril dois atentados abalaram o mundo. No primeiro, o líder negro Martin Luther King foi assassinado em Memphis, Tennessee, nos Estados Unidos. No segundo, o jovem anticomunista Josef Bechmann atirou três vezes contra Rudi Dutschke em Berlim, atingindo-o na cabeça. A morte de Luther King abriu espaço para uma radicalização sem precedentes nos movimentos anti-racistas nos Estados Unidos: revoltas populares em bairros negros de várias cidades levaram a confrontos, incêndios e repressões brutais, além de fortalecer movimentos revolucionários como os Panteras Negras. O assassinato do líder negro seria seguido pelo de Robert Kennedy, em 5 de junho, em Los Angeles, que era candidato à Presidência dos EUA. Rudi ficou parcialmente incapacitado pela perda de massa cerebral.

A partir de maio, os movimentos ganharam mais força em Paris, com a adesão de sindicatos, trabalhadores e setores de classe média. Os protestos e os confrontos com a polícia eram diários na capital francesa. Notabilizaram-se palavras de ordem inventivas, escritas nos muros da cidade, como “Seja realista: peça o impossível” e “É proibido proibir”, que virou letra de música em peça de Caetano Veloso, apresentada num dos festivais daquele ano – em que grande parte do público ficou furiosa porque Caminhando (Para Não Dizer que Não Falei das Flores), de Geraldo Vandré, perdeu o primeiro lugar para Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim.

Deve-se dizer que em Paris a polícia jamais usou armas de fogo. Apesar da oposição do Partido Comunista Francês (seu líder Georges Marchais chegou a dizer que o movimento era de jovens da alta burguesia), o movimento cresceu, até arrefecer por si. Mas abriu caminho para temas que dominariam as próximas décadas, como reivindicações de minorias, liberdade nos costumes e meio ambiente. Rudi Dutschke, que morreu na Dinamarca em 1979, em conseqüência de seqüelas de seus ferimentos, é considerado um dos inspiradores do Partido Verde alemão. Daniel Cohn-Bendit é membro do Parlamento Europeu.

Praga

Na Tchecoslováquia, no começo de janeiro, fora eleito primeiro-ministro um político renovador: Alexander Dubcek. Sua eleição marcou o início de uma série de medidas que visavam liberalizar o autoritário regime vigente no país, sob a bandeira comunista. O governo de Dubcek levantou esperanças pelo mundo de que um regime comunista poderia resolver a contradição entre avanços sociais (que todos reconheciam) e falta de liberdade (que os jovens revoltados nas universidades do mundo, inclusive na próxima Polônia, também reconheciam). O período ficou conhecido pela expressão “Primavera de Praga”.

Em 20 de agosto, a União Soviética determinou que os tanques do Pacto de Varsóvia invadissem o país. Dubcek foi preso, levado para Moscou e renunciou. Apesar da resistência popular e passiva à invasão, a primavera chegou ao fim. As reformas foram anuladas. O impacto dessa invasão foi enorme. Se o apoio da União Soviética fora saudado na heróica luta de resistência do povo vietnamita ao governo de Saigon e aos Estados Unidos, agora se enterravam promessas de liberdade num país sob sua área de influência. Aumentou o distanciamento entre os movimentos preferidos pelos jovens e os partidos comunistas apoiados pela URSS.

América Latina e no Brasil

Em 1968 os protestos contra a ditadura cresceram em todo o Brasil. Como nos outros países, as atividades políticas se misturavam com a renovação dos costumes e nas relações pessoais. Nos festivais de música, nos teatros, nos espetáculos, os temas políticos e os protestos se faziam cada vez mais presentes. Manifestações dos estudantes nas ruas, sempre duramente reprimidas, tornaram-se rotina. Num ataque a uma delas, no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, a polícia acabou matando o estudante Edson Luís. Os protestos no Rio e em todo o país foram imediatos. Em São Paulo, estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP começaram uma revolução interna, com a formação de comissões paritárias para dirigir a instituição. No restante da América Latina também ocorriam protestos, sobretudo no México.

A repressão, igualmente, se intensificava. O clima de confronto cresceu, com muitos grupos de esquerda rompendo com a linha que consideravam “de contemporização” do Partido Comunista Brasileiro e partindo para a luta armada, na cidade e no campo. Em 26 de junho houve o maior protesto contra a ditadura e a repressão, a chamada Passeata dos 100 Mil (leia na pág. seguinte), no Rio de Janeiro, auge e início do declínio das manifestações de rua. Em julho houve ainda grandes greves de trabalhadores, sobretudo em Osasco (SP) e em Contagem (MG), reprimidas com prisões e violência.

Em 2 de outubro uma manifestação de estudantes foi duramente reprimida pela polícia mexicana, no Massacre da Tlateloco, nome da praça onde se deu o fato, com dezenas de mortos. No dia seguinte, a Faculdade de Filosofia da USP foi invadida e saqueada por estudantes de direita e pela polícia. Na madrugada do dia 12 de outubro, a polícia interrompeu o 30o Congresso da União Nacional de Estudantes, em Ibiúna (SP), prendendo quase mil pessoas, entre elas os líderes José Dirceu e Vladimir Palmeira. No mesmo dia, integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) mataram em São Paulo o capitão norte-americano Charles Chandler, acusado de ser agente da CIA e instrutor de torturas e da repressão.

O fim e o legado

No dia 13 de dezembro, durante uma reunião ministerial no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o presidente Arthur da Costa e Silva decretou o Ato Institucional
nº 5, “em nome da Revolução de 31 de março de 1964”. Dos presentes, apenas o vice-presidente Pedro Aleixo se opôs. O pretexto foi a negação pelo Congresso de autorização para processar o deputado federal Márcio Moreira Alves, que, em discurso, fizera duras críticas ao regime e elogiara a rebelião dos jovens. O AI-5 suprimia todas as liberdades constitucionais, sendo chamado de “golpe dentro do golpe”.

Seguiram-se imediatamente centenas de prisões em todo o país, novas cassações e expulsões de professores, estudantes, sindicalistas, políticos, enfim, de quem se opunha ostensivamente ao regime. O Brasil passou a colaborar ativamente com os regimes ditatoriais na América do Sul. Nestas plagas, foi o fim do ano da “rebelião dos jovens”. Muitos deles aderiram aos grupos clandestinos que tentaram sem sucesso derrubar o regime pelas armas.

Ainda hoje se debatem as causas e o legado dos protestos de 1968. Citam-se com freqüência a chegada aos primeiros anos da maturidade (e ao ensino superior) de uma geração de jovens nascida no final ou depois da Segunda Guerra Mundial, sem compromisso com os valores e as contradições das gerações anteriores. A notável ampliação das comunicações, notadamente da tevê, em escala mundial, também contribuiu, mesmo que contra seus dirigentes, para a difusão das informações e das imagens sobre as revoltas que se sucediam.

Aquele ano ficou, assim, marcado pela presença, ainda hoje evocada, desse personagem social e cultural algo romântico, ousado e rebelde: “o jovem”. Mas também com freqüência se esquece, nas evocações, que havia um clima revolucionário no mundo todo, tanto no mundo capitalista como no comunista. O ano de 1968 marcou o começo da derrota norte-americana no Vietnã, concretizada em 1975. Também marcou o fim das ilusões de que os regimes comunistas do Leste Europeu poderiam se democratizar por si mesmos. Esclerosados, terminariam por ruir no final do século.

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