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Número 21, Fevereiro 2008

Retrato

O terno do capitão

por Paulo Pepe publicado , última modificação 03/10/2017 11h01
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C om seus olhos infantis, José, aos 7 anos, começava a tomar pé daquela alegria, ainda sem entender o porquê. Mesmo assim, foi ali que a beleza do ritmo, a leveza graciosa da dança, a afinação das vozes, as canções de significado ainda estranho passaram e se instalar em seu coração. Agora, 45 anos depois, o capitão José Inácio sabe a real importância de seu terno de Moçambique para a comunidade negra de Ibiraci, sul de Minas. Moçambiques e congos estão na gênese de nossa formação como uma nação plural. A tradição remonta à habilitação da Capela de Nossa Senhora do Rosário, em 1865.

Após a Abolição, a saída desses grupos, que sempre figuravam nas procissões católicas, marcava o início dos festejos pela libertação dos escravos. A data ainda é comemorada em maio, mas uma grande festa se dá também em novembro, no mês da Consciência Negra. O terno – expressão que designa o grupo que executa essa arte – de Moçambique o tem como capitão há 28 anos. A responsabilidade, hereditária, fez José Inácio perceber, dia após dia, que a afirmação de um povo passa pela história, pelo sonho e pela alegria. E que tradição, fé e resistência completam o ideário dessa rica manifestação cultural surgida ainda nas senzalas.