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Número 21, Fevereiro 2008

Crônica

O esquerdista do Vietnã

A invasão do Crusp em 1968, as prisões e todos os abusos possíveis tiveram também seu lado cômico, não fosse o saldo trágico deixado
por Mouzar Benedito publicado , última modificação 03/10/2017 11h00
A invasão do Crusp em 1968, as prisões e todos os abusos possíveis tiveram também seu lado cômico, não fosse o saldo trágico deixado
Mendonça
cronica

Morar no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, o Crusp, em 1968, era bom demais. A gente se sentia fazendo história, contribuindo para mudar o mundo, pois ali estava um dos principais focos de resistência à ditadura. Outro era a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, que não era a mesma coisa que a atual FFLCH. Ainda incluía departamentos como de Física, Pedagogia, Psicologia, Matemática.

Mas veio o Ato Institucional no 5, conhecido pela sigla AI-5, baixado em 13 de dezembro daquele ano, por ironia, anunciado por um ministro da Justiça, Gama e Silva, saído da própria USP. A partir daquele momento, a ditadura se radicalizava. Deixava de existir o habeas corpus e intensificou-se o vale-tudo para a polícia e os militares: invadir residências sem ordem judicial, prender, torturar, matar...

O Crusp, claro, entrou na mira direta da repressão. Quatro dias depois, na madrugada de 17 de dezembro, numa operação de várias polícias e do Exército, o conjunto foi invadido. Cerca de 1.200 estudantes foram presos.

A invasão, as prisões e todos os abusos possíveis tiveram também seu lado que poderia ser chamado de cômico, não fosse o estrago que fizeram. Algumas coisas foram bobagens, como a apreensão de livros “subversivos” que não tinham nada a ver. Ficou famosa a história de um estudante de Engenharia Hidráulica que tinha, entre seus livros, um publicado em espanhol pelo Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade de Moscou. Fora a origem russa, havia mais dois fatos comprometedores: sua capa era vermelha e o título era revelador: “Bombas Hidráulicas”. Deu uma baita encrenca ao dono.

Os estudantes contavam isso gozando, inventando que o mesmo oficial que apreendeu esse livro pegou outro de um estudante de Geologia que morava no mesmo apartamento, mostrou ao estudante de Engenharia e disse: “Por que você não faz como seu colega e lê coisas melhores, mais construtivas, como essa biografia?” O título do livro, em inglês: General Geology.

Outras coisas que as autoridades exibiram orgulhosas aos meios de comunicação (que em sua maioria endossavam a ação dos policiais e militares) foram camisinhas, pílulas anticoncepcionais e um cartaz escrito com pincel atômico por um estudante imbecil com os dizeres “No Crusp não existem virgens”.

Mas teve coisas mais sérias. Para os policiais e militares, naquele lugar só havia comunistas e libertinos, por isso procuravam arrancar confissões malucas dos estudantes. Mas havia de tudo, até moralistas radicais. Pra começar, por opção das próprias moradoras, no Bloco A nunca foi permitida a entrada de homens, nem mesmo de pais de moradoras, que eram recebidos no térreo. Nada de libertinagem.

E havia militantes de direita também. Minoria, mas havia. Tinha um grupo de estudantes de origem asiática no qual só se conversava em seu idioma, para evitar assédio de brasileiros. O problema não era sua nacionalidade – nós, brasileiros, aliás, somos um dos povos mais hospitaleiros do mundo –, mas o fato de serem ultradireitistas e racistas.

Um dos membros desse grupo era daquele tipo que coleciona punhais e outras armas brancas. Toda a parede da sala do seu apartamento era enfeitada com essas armas. Durante o processo de imigração de sua família, o navio fez escala no Vietnã, e ele acabou nascendo em Saigon. Então, em sua certidão constava ter nascido no país que estava em guerra, resistindo aos poderosos Estados Unidos.

Na invasão do Crusp pela polícia e pelo Exército, quando viram aquele monte de punhais na parede, consideraram o sujeito um perigo. Depois viram seu documento... Pronto! Um “esquerdista” pra lá de perigoso! Como não sou politicamente correto, não contenho a ponta de malvadeza, e de riso, ao lembrar o que me contaram sobre o que o jovem racista passou na cadeia.

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é jornalista e geógrafo. Publicou vários livros, entre eles o Anuário do Saci (Editora Publisher Brasil, 2006), ilustrado por Ohi

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