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Gregório Duviver diz como fazer humor em tempos de cólera

Ele nunca foi tão urgente quanto agora, diz o ator, escritor e humorista. Sua função principal talvez seja 'cutucar as certezas'
Publicado por Helder Lima
14:46
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PAULO PEPE/RBA
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Duvivier: ‘O principal inimigo da arte é essa outrofobia, que domina o pensamento conservador. Esse medo, a palavrachave da direita é medo. Essa função da arte acho que é a mais bonita, a luta contra o medo’

“O humor nunca foi tão urgente quanto agora. Para mim, sua função principal talvez seja cutucar as certezas. E nós estamos em um tempo de certezas muito exacerbadas”, afirma o ator, escritor e humorista Gregório Duvivier, definitivamente engajado na defesa da democracia e preocupado em firmar um diálogo com quem defende o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Acima de tudo, com quem pensa diferente, no que ele chama de outrofobia.

“O medo é filho da ignorância e da desinformação. Eu acho que a arte e a informação impressa, o humor, o principal alvo é esse medo, que é um medo do outro. Outrofobia inclui o medo da diferença, o medo da alteridade. Eu acho que a função da arte é promover esse encontro com a alteridade”, diz.

Isso acontece na política, observa Duviver, que vê uma situação fomentada por meios de comunicação. Para ele, notícias e vazamentos seletivos da Operação Lava Jato têm construído convicções que alimentam o medo de perda de privilégios por parte das classes mais privilegiadas, que se sentem ameaçadas. Um medo que, no fundo, dá vazão ao ódio ao outro, ao semelhante, e dificulta ainda mais o diálogo, o respeito a quem pensa diferente.

Nesta entrevista, concedida em São Paulo em 25 de março, o artista nascido no Rio de Janeiro fala sobretudo de política, deste momento conturbado para a história, em que o país se vê dividido. Critica a mídia por alimentar essa divisão e reflete também sobre o seu trabalho. Duvivier conta que gosta de transitar entre gêneros, como o humor e o drama, em seu trabalho atual, o monólogo Uma Noite na Lua, e reflete sobre os seus 30 anos, completados agora em abril. Já desistiu de salvar o Fluminense, mas espera que as dúvidas ajudem a esclarecer as certezas.

Como fazer humor em tempos tão bicudos?

O humor nunca foi tão urgente quanto agora. Para mim, sua função principal talvez seja cutucar as certezas. E nós estamos em um tempo de certezas muito exacerbadas. A função do humor, assim como a do jornalismo e do ensino, é a função de fazer perguntas, mais do que dar respostas. E no momento em que só se vê respostas e soluções, e as pessoas desesperadas por meio de manchetes sensacionalistas ou políticos também muito veementes, com fórmulas tipo “para acabar com a corrupção é preciso varrer o PT do Brasil”, a função do humor é perguntar: como assim? É isso mesmo o que vocês estão querendo, vocês acreditam nisso? É duvidar onde só se vê certezas.

E essa narrativa dominante que vem temperada com intolerância? O que para você causa essa intolerância?

Essa intolerância não é natural, nossa, brasileira, uma coisa espontânea. Acho que ela é fomentada pelos meios de comunicação. Quando você vê uma capa em que a figura do Lula ou da Dilma é sempre diabólica, como as capas da Veja ou da IstoÉ, é sempre uma arte que tenta transformá-los em demônios, literalmente mesmo: orelhas pontudas, uma coisa sempre no escuro, luz debaixo para cima. São estratégias demonizantes não só com Lula e Dilma, mas com os militantes – essa própria criminalização da palavra militante, e O Globo disse assim, ‘a diferença de uma passeata para outra é que no dia 13 (de março) eram cidadãos, e no dia 18 eram militantes, ou milícias’, e usa militante de forma negativa, como se militante não fosse cidadão. Esse antagonismo, imagem de terror, enfim, eu acho problemático. Quando tem uma passeata qualquer, se as pessoas não estão militando, estão fazendo o quê? Essa demonização do militante, da esquerda de um modo geral, é fomentada pela imprensa, não é uma coisa natural da nossa sociedade, sabe?!

Você escreveu sobre as palavras e a apropriação de seus significados. Hoje é comum a autoridade ou a mídia se apropriar de uma palavra e dar a ela o conteúdo que quiser. É um sintoma dos nossos tempos. Chega a incomodar?

Sim, incomoda, as palavras são muito mal empregadas. Talvez por ter feito graduação em Letras, minha formação é nesse campo e eu sou apaixonado pelas palavras. Incomoda muito quando vejo as palavras roubadas, que estão roubando no jogo das palavras. A direita, por exemplo, se apropria da palavra ‘mudança’, mas essa é uma palavra de esquerda por definição. A direita por definição, o que a define, é que ela quer a manutenção, a concentração do lugar de poder, do status quo, do establishment. E a esquerda não. Quando a direita pede mudança, você vê que isso não é uma mudança, é uma troca. O que ela quer é trocar em vez de mudar, porque o problema todo é que está se mudando, então, que fique claro isso, o uso das palavras corretas: “O que nós queremos não é a mudança, nós queremos o retrocesso diante das mudanças” – é importante usar as palavras corretas.

Você vê essa disputa na perspectiva da luta de classes? O quanto isso é importante para você?

Eu acho que importa bastante pensar que você vê claramente uma diferença gigantesca de renda, mesmo entre as manifestações dos dias 13 e 18. Isso é claro. No entanto, é perigoso a gente classificar todo mundo do dia 13 como elitista, como uma pessoa que está revoltada com a distribuição de renda e está indo às ruas contra isso, o que também não é verdade. Acho que o que existe, que é um fato, é o PT fez sim, bem, eu acho, um pouco, aumentou um degrauzinho para as pessoas mais pobres do país, da miséria. Como pode um partido, um candidato, se eleger contra a mídia inteira? Que foi o que aconteceu, não é? Porque em termos de distribuição é muito irrelevante a mídia de esquerda no país, ela é muito pequena comparada em termos de distribuição e de tiragem, não como expressão, mas em termos de distribuição.

O que está gritante agora, talvez, mais até do que a luta de classes, o que está levando as pessoas às ruas, que fique bem claro, não é a corrupção. Esse é o pretexto, a chamada, mas na verdade mesmo é o medo da perda de alguns privilégios. O dólar está mais alto realmente, e tem gente de amarelo nas passeatas falando da dificuldade de você ter uma empregada hoje em dia. Isso é um fato, é uma coisa que incomoda a elite. Está mais caro para ter uma empregada doméstica que dorme na sua casa. Isso está dificílimo, e tem gente que se incomoda com isso. Não são todos, claro. Mas o que existe de modo geral é uma insatisfação legítima com a situação atual, não só a corrupção, mas o país não crescendo. Mas essa insatisfação que é justificada e que é compartilhada pela esquerda – na verdade, a esquerda está insatisfeita há muito mais tempo – se canaliza em uma coisa que eu acho muito burra, que é a vontade de erradicação do PT. Essa é uma grande estupidez da direita: o que a erradicação do PT vai trazer para o país?

A arte tem o espírito de transformar o mundo, mas neste momento é importante ter isso voltado para transformar o conservadorismo político?

A arte de um modo geral produz empatia. Um bom filme é aquele que te comove, que te tira do seu lugar, que te move de onde você estava e leva para outro lugar. Não existe arma maior contra o ódio, por exemplo, porque a comoção, a empatia fazem com que você repense suas certezas, repense sua outrofobia. O principal inimigo da arte é essa outrofobia, que domina o pensamento conservador. Esse medo, a palavra-chave da direita é medo. Medo no Brasil você consegue colocar com a revolução comunista, até hoje. Estamos em 2016, e a direita não convence as pessoas que está em curso um golpe comunista. Essa função da arte acho que é a mais bonita, que é a luta contra o medo. O medo é filho da ignorância e da desinformação. Eu acho que a arte e a informação impressa, o humor, têm como principal alvo esse medo, que é um medo do outro. Outrofobia inclui o medo da diferença, o medo da alteridade. Eu acho que a função da arte é promover esse encontro com a alteridade.

O paradigma politicamente correto te preocupa, como você vê isso?

Sabe que as pessoas falam muito do politicamente correto mas não é uma coisa que me incomoda, porque eu vejo a necessidade de conscientização do humor, humorista, como algo muito positivo. Acho que o fato, por exemplo, das minorias hoje reclamarem quando são ofendidas é um fato muito positivo também. Faz parte de um processo civilizatório do qual a gente hoje tem de se responsabilizar, sim, pelo jogo político do que a gente fala. Antigamente, não é que não existia o politicamente correto, é que as minorias não estavam empoderadas o bastante para manifestar a sua insatisfação. A expressão politicamente correto expõe uma certa rejeição, mas a correção na verdade não se adapta muito à política. Ser politicamente responsável eu acho muito necessário para o humor. Não me atrapalha, ao contrário, acho que isso me inspira a pensar que o que a gente escreve tem um alcance e pode ser positivo ou negativo. A responsabilidade política sobre aquilo que a gente diz é inerente ao nosso impacto. A gente hoje, por exemplo, tem impacto grande, eu não só escrevo na Folha ou no Porta (dos Fundos), eu me incomodo muito com os humoristas que dizem: ‘Ah, mas é só uma piada’. O cara é processado e diz, ‘Não, é só uma piada’, gente, mas não é só uma piada. Você vive disso. Jornalista dizendo é só uma matéria, ou o engenheiro, cai o prédio e ele diz, mas era só um prédio. Como assim? Ele vive disso, paga as contas. E a piada é a mesma coisa. É um negócio muito nobre para ser desmerecido.

A peça que você está fazendo agora (Uma Noite na Lua) vai além do humor, é um monólogo em que você transita por diferentes gêneros. É uma proposta a seguir daqui por diante na sua carreira?

Sim, gosto muito de misturar os gêneros, gosto de humor, mas talvez mais ainda de comoção, não só do drama, mas dessa tentativa de comover as pessoas, sabe, porque eu acho que o humor vai muito bem quando ele está junto com algum drama, alguma tristeza, algo que se imprime na alma. Os humoristas que ficam, você vê, o humor volta e meia passa, a gente deixa de achar graça. Um programa humorístico de 20 anos atrás é difícil de fazer você rir. No entanto, você vê o Chaplin, por exemplo, e você ainda ri, porque aquilo está em algum lugar histórico, canônico, e por quê? Eu acho que é por causa do drama, não por causa do humor, porque o humor fica quando tem uma pitada de drama. O que fica do Chaplin é o drama, junto com a graça. A graça está ligada a essa tragédia humana, você está rindo da condição humana, tem um peso, fica. Quando você está falando da atualidade, da semana, do que passou, aquilo se esvai, eu acho que é uma grande diferença.

No dia 11 de abril você completa 30 anos, o que significa esse momento?

É difícil porque tem uma coisa muito louca da vida que é quando você começa a ficar mais velho que as pessoas que você… Por exemplo, os jogadores de futebol. E todo mundo sonha em ser jogador de futebol, pelo menos no Brasil, e até pouco tempo atrás eu sonhava, achava que podia largar tudo se me dedicasse muito, podia tentar salvar o Fluminense, aí hoje começa a ficar distante. Nem que eu largue tudo, e só faça isso, eu já estou bichado. Isso é uma besteira, claro, mas é quando você começa a ver que várias coisas você não foi e não fez, e eu tenho uma angústia muito grande por não viver a vida plenamente, de não estar nunca… Nunca morei em outro lugar que não o Rio de Janeiro, é uma vida pequena em vários sentidos, não viajei muito… Eu gosto muito de ler, então viajo de outras maneiras, mas as vezes meu problema é esse, ter uma vivência de mundo ainda um pouco curta.

Como a poesia e a música afetam você?

Eu tenho muita inveja dos músicos porque eles rompem as barreiras das palavras, da língua e até do intelecto. Você pode se comunicar com alguém que acha tudo completamente diferente de você, e ainda assim se emociona. Wagner (Richard Wagner) não era um compositor menos brilhante porque era nazista. Porque aquilo era do mundo e emociona um judeu a música que ele faz. E vice-versa também. Um nazista talvez chorasse ouvindo Gershwin (George Gershwin), é uma coisa que eu acho que é muito bonita da música. Ela transcende suas certezas, enquanto a literatura faz isso mais dificilmente porque trabalha com as palavras. E a palavra é carregada, alimenta as convicções. É muito mais difícil você romper essas barreiras. Tenho inveja da música.

E da poesia também. Eu queria até voltar a escrever poesia, porque ela diz as coisas de uma maneira tão sutil e tão por debaixo do pano, e eu tento botar isso no que eu escrevo para não ficar só entre convicções, entre porradas. O humor vai bem com poesia, porque dá uma amaciada quando você joga para o lúdico. Sempre que escrevo uma coluna eu releio pensando: ‘Será que eu tenho como deixar ela menos direta, mais poética?’. Porque com isso se passa muito melhor a mensagem, por meio de imagens, do que por meio de frases duras e peremptórias.

Quais escritores o influenciaram?

Da minha geração tem o (Mário) Prata, que faz isso muito bem, que eu acho genial, tem bons romancistas também, a Carol Bensimon, que eu adoro, o Daniel Galera, um cara que escreve bem à beça. Alguns escritores têm deixado assim a nossa literatura mais poética, não perdem nunca o leitor de vista, acho isso muito saudável. A Tatiana Salem Levy é outra que eu gosto, ela está em Portugal agora, e das outras gerações, claro, Verissimo (Luis Fernando Verissimo). A gente tem a tradição da crônica no Brasil: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, porque a crônica por ser um gênero feito para o jornal tem a vantagem de nunca perder o leitor de vista. Você não pode nunca esquecê-lo. Nossos melhores escritores são os que escreviam em jornal, como Nelson Rodrigues. Nunca perderam o leitor de vista e cujo rabo preso sempre foi com o leitor. Essa é uma grande qualidade do escritor.

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