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No Renascença Clube, samba para o trabalhador

Fundado para abrir um espaço que a classe média negra carioca não encontrava em redutos culturais no Rio dos anos 1950, clube virou espaço de resistência e referência do bom samba

Luciana Whitaker / RBA
Roda de samba renascença

Roda de samba no Renascença

“Meu destino eu moldei/ Qualquer um pode moldar/ Deixo o mundo me rumar/ Para onde eu quero ir/ Dor passada não me dói/ E nem curto nostalgia/ Eu só quero o que preciso/ Pra viver meu dia a dia.” Os versos de Filosofia de Vida, parceria de Marcelinho Moreira com Fred Camacho e o mestre Martinho da Vila, resumem o perfil do Renascença Clube, no Rio de Janeiro. Ponto de encontro de bambas de distintas gerações e polo irradiador da cultura e da consciência negra, o Rena, como é chamado pelos íntimos, colecionou glórias em seus 64 anos e sofreu com as voltas que o mundo dá. E redescobriu o samba para se tornar nos últimos anos uma referência que atrai brancos e negros, cariocas e turistas, homens e mulheres de diversas classes sociais em eventos que muitas vezes lotam o espaço no bairro do Andaraí, zona norte do Rio.

Luciana Whitaker / RBAMoacyr Luz
Moacyr Luz: “O elo em relação ao negro e às minorias me chamou a atenção”

Na programação do Renascença, a joia da coroa atende pelo nome de Samba do Trabalhador, roda de samba criada pelo músico e compositor Moacyr Luz e que é feita todas as segundas-feiras. O evento acaba de comemorar dez anos de existência – e, para a data não passar em branco, foi lançado o disco 10 Anos e Outros Sambas, com 12 faixas inéditas para o grande público, mas conhecidas dos frequentadores mais assíduos do Rena. Com a repercussão do álbum, a direção do clube já se prepara para novo período de casa cheia, com eventos que algumas vezes transcendem a capacidade de 1.500 pessoas e se espalham pela rua.

Tudo começou quase por acaso. “Eu conheci o Renascença pelo então presidente Jorge Ferraz. Ele me trouxe a uma feijoa­da quando o Nei Lopes (compositor e escritor) recebeu o prêmio da Medalha Pedro Ernesto. De cara, essa união que havia aqui, esse elo que se criava em relação ao negro e às minorias, me chamou a atenção”, conta Moacyr Luz, bebericando um vinho tinto, minutos antes de assumir o comando da mesa e da roda de samba.

Tyno CruzJorge Ferraz
Jorge Ferraz juntou talentos e abriu o espaço para a roda

Em busca de reproduzir o clima das rodas que organizava nos anos 1990 no bar Dona Maria, na vizinha Tijuca, e nas quais recebia amiúde amigos do naipe de Aldir Blanc, Paulinho da Viola e Zé Kéti, entre outros, Luz viu o caminho do Renascença cruzar com o seu. “O clube naquela época estava um pouco caidinho, não havia muito que fazer, e o Jorge tinha o desejo de rea­lizar alguma coisa. Aí, eu, de uma forma muito despretensiosa, pensei em fazer um encontro aqui na segunda-feira, que era o Samba do Trabalhador. O trabalhador, no caso, é o próprio músico, que não podia fazer festa no fim de semana porque estava trabalhando, aí fazia a própria festa na segunda-feira”, explica.

Não demorou para o evento, apenas com a propaganda boca a boca, se tornar um evento querido pelos cariocas. “A ideia era unir comida, música, encontros. Só que aconteceu algo inesperado, virou um fenômeno. Com dois meses, a gente começou a ter aqui mil pessoas. Nós começamos no dia 30 de maio de 2005, e no dia 29 de agosto já gravamos o primeiro CD e DVD”, conta Moacyr Luz.

O “fenômeno” foi possível graças à qualidade artística da roda de samba e, sobretudo, à espontaneidade de um tipo de música que ainda brota naturalmente na zona norte do Rio, longe dos esquemas comerciais. “Nossos olhos estavam voltados para a zona norte e, quando a gente viu, estava formada essa geração nova, e o Renascença começou a ganhar impulso”, lembra Luz. “Foi uma junção de novos parceiros a partir dessa roda de samba. Isso aqui foi virando um nicho alternativo para a zona norte. Eu brinco sempre que chegou a hora de essa gente não bronzeada mostrar seu valor.”

Encontro de gerações

O Renascença passou a reunir nomes consagrados como Moacyr­ Luz a grandes talentos de outras gerações de artistas, caso do percussionista, cantor e compositor Marcelinho Moreira, que comanda uma vez por mês, sempre no último domingo, o Canto do Batuqueiro, sucesso de público no clube. “A vinda do Moacyr com o Samba do Trabalhador acabou dando um conceito muito bacana e abriu espaço pra gente. Poucos conseguem chegar na rádio, chegar pra grande massa. É um problema da cultura no Brasil, infelizmente, e principalmente da cultura de raiz, que é o samba. As rádios preferem um tipo de samba mais descartável. Então, o movimento das rodas de samba se juntou naturalmente com esse lance de resistência representado pelo Renascença. O movimento não foi planejado, foi natural”, diz o músico.

Requisitado para shows e gravações em estúdio desde os 16 anos, quando começou acompanhando Martinho da Vila, Marcelinho é autor, ao lado de Arlindo Cruz e Fred Camacho, da música Rumo ao Infinito, sucesso na voz de Maria Rita. Mesmo com agenda cheia, tendo de acompanhar a cantora e outros artistas e ainda fazer seus próprios shows, ele nem cogita abandonar o Rena. “Sou mais um que estou desbravando e lutando para difundir a nossa cultura. Isso me deixa muito honrado. O Renascença tem uma história de resistência. Tive convites para fazer a minha roda de samba em outros lugares, mas não achei tão interessante. Minha família ajudou a fundar esse clube, um clube de negros”, diz Marcelinho, lembrando do pai, Aderbal do Estácio, também compositor e autor de Festa do Círio de Nazaré, samba-enredo da Unidos de São Carlos (atual Estácio de Sá) e um clássico do carnaval.

Convivência social

O Renascença foi fundado em 1951 por um grupo de advogados, médicos e comerciantes negros, todos de classe média. O grupo, segundo narrativa do próprio clube, “impedido de ingressar em clubes tradicionalmente frequentados por famílias brancas, resolveu criar uma agremiação onde as famílias negras pudessem se reunir e se divertir numa harmoniosa convivência social e cultural e onde não fossem, portanto, discriminados”.

Tyno CruzAraquem Azeredo
Araquém Azeredo frequenta o Renascença desde o fim dos anos 1950

Essa origem atrelou para sempre o nome do Renascença a um sentimento de orgulho do negro carioca. “Era uma época diferente, o pessoal pensava muito em dançar. As pessoas não tinham acesso a certos clubes, então resolveram fundar o Renascença para que a família pudesse dançar. Só que no início nós não tínhamos sede, então alugávamos clubes para fazer a nossa festa”, lembra Araquém Azeredo, vice-presidente de Relações Públicas e Comunicações e frequentador do Renascença desde o fim dos anos 1950.

“O Rena não foi pensado como um clube de negros para desagregar, para não deixar branco entrar. Todo mundo conhece a história, a gente não tinha lugar, os negros eram barrados em tudo o que era clube da alta sociedade e até da classe média. Então, o Rena foi feito para a gente ter um lugar para se divertir”, completa Marcelinho Moreira.

Tyno CruzMarcelinho Moreira
Marcelinho Moreira comanda o Canto do Batuqueiro: “O movimento das rodas de samba se juntou naturalmente à resistência representada pelo Renascença”

Com o passar dos anos, o Renascença conheceu fases distintas e passou por momentos de penúria financeira e quase falência. Na gangorra do sucesso, um momento de alta aconteceu nos anos 1960, quando o clube se tornou famoso por organizar concursos de misses e as representantes do clube no Miss Brasil e no Miss Universo levavam torcidas de toda a zona norte carioca. Depois, com a decadência dos concursos, o Rena viveu por alguns anos sua fase “clube de mulatas”, superada depois de um movimento liderado por antigos dirigentes que contestaram a desvirtuação – e, segundo antigas atas de reunião, sua “adesão à visão comum sobre o lugar e o papel dos negros na sociedade e na cultura nacionais”.

Nos anos 1970, o Renascença viveu novamente um período de sucesso como casa de shows de soul, graças a um fervilhante movimento black music, então em alta no Rio. Seguiram-se duas décadas de decadência, marcada por bailes funk e brigas. Até que o Rena reencontrou o samba. “O samba, graças a Deus, alavancou o clube novamente. Primeiro veio a família do Zeca Pagodinho. Acreditaram, tocavam no sol ou embaixo de uma lona. Um, dois meses depois, veio o Moacyr no mesmo ritmo e firmou negócio. Agora, o Rena virou uma coqueluche, todos querem fazer festa aqui, mas nós não podemos atender todo mundo por causa da restrição de horário. Os domingos são divididos entre o Marcelinho, a Feijoada do Rena e o Pagode do Arruda”, diz Araquém.

Tyno CruzRenato Milagres
Renato Milagres é pioneiro das rodas no Renascença

O diretor faz referência a outras atrações do clube, como Renato Milagres, o pioneiro, que é sobrinho e afilhado de Zeca Pagodinho e comanda roda de samba todos os sábados. A feijoada regada a samba é servida todo primeiro domingo do mês, e o Pagode do Arruda, formado por músicos do bairro de Vila Isabel, no segundo.

Motivo da queixa de Araquém, a restrição de horário acontece porque o Renascença não tem isolamento acústico. “Só podemos ficar abertos até as 22h e só pode ter evento de sábado a segunda. Cumprimos tudo fielmente, não queremos problemas com os vizinhos. Respeitamos o direito de quem não quer ouvir batucada na noite de domingo”, diz o diretor, que teve uma vaga promessa de ajuda por parte do prefeito do Rio, Eduardo Paes: “O prefeito esteve aqui no samba do Moacyr e se comprometeu a fazer a obra de isolamento acústico, que nos permitirá expandir o horário de funcionamento”.

Patrimônio carioca

Apesar de seu inestimável valor cultural para o Rio de Janeiro, o Renascença não tem isenção de IPTU. Curiosamente, o clube recebeu em 2000, das mãos do então prefeito Luiz Paulo Conde, o título de Patrimônio Cultural Carioca e passou a ser tombado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. “Ganhar o título de Patrimônio Cultural não mudou nada para o clube. Não temos subvenção nenhuma. Fica só o elogio”, brinca Araquém, para em seguida falar sério. “A gente sofre um pouco com dificuldades financeiras para bancar algumas coisas. Temos um número de associados que nos permite pagar conta de luz, gás e telefone e os salários dos quatro empregados. Temos o ganho do bar, que é sempre do clube em todos os eventos. Temos atividades esportivas e culturais, mas essas só gastam.”

Existe também um Renascença para além do samba. O Departamento Cultural do clube promove uma vez por mês o RenaCine: “São filmes só sobre a cultura negra. A maioria das pessoas que vêm no samba nem sabe que existe isso”, diz Araquém. Outras atividades frequentes são debates sobre cultura e política, como o organizado em 25 de maio, Dia da África, com representantes da Comissão da Verdade da Escravidão Negra no Brasil e dos governos de Angola e de Cabo Verde. Agenda marcante no clube é a Semana da Consciência Negra. “Fazemos solenidades, desfiles, dança e palestras sobre a cultura afro. A cada ano, elegemos uma Dandara e um Zumbi”, lembra o diretor.

Além de artistas e jogadores de futebol, é comum que autoridades negras deem as caras nas rodas de samba do Rena. “O Joaquim Barbosa, no auge da fervura da mídia, veio sem que a gente soubesse com antecedência. Ele ficou aqui na mesa, olhando o samba lá embaixo. E quando vem alguém de fora, pedem logo para conhecer o samba”, conta Araquém.

“Hoje, o clube é referência até internacional”, concorda Moacyr Luz, antes de fazer uma comparação, sem falsa modéstia. “A gente recebe pessoas que já chegam ao Rio com bilhete comprado para conhecer o Renascença. Aqui vem nego de tudo quanto é lugar no mundo para assistir a gente. Eu diria que somos um Buena Vista do samba. Todo mundo que vai a Havana quer conhecer a Bodeguita Del Medio, todo mundo que vem ao Rio quer conhecer o Renascença.”