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Um olho no espaço, outro no cotidiano

Jóias da ciência brasileira, pontas de diamante sintético criado no laboratório do Inpe, em São José dos Campos (SP), têm tudo para revolucionar o tratamento dentário. Como tantas outras invenções que nasceram das pesquisas espaciais e acabaram facilitando nosso dia-a-dia
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
12:25
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Jailton Garcia
reator de carbono

O reator de carbono que produz os diamantes

Tudo bem que a ida do brasileiro Marcos Pontes ao espaço este ano tenha suscitado de orgulho a revolta. Política, economia e estratégias à parte, o fato é que poucos se dão conta do quanto o cotidiano terrestre já mudou graças à tecnologia que começou voltada à exploração espacial. Nem é preciso ir às agências dos Estados Unidos (Nasa) e da Europa (ESA). Em São José dos Campos (SP), pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, trabalham no desenvolvimento e aperfeiçoamento de diversos equipamentos e dispositivos. Entre eles estão as pontas de diamante ultra-sônicas CVDentus, já usadas por muitos dentistas no Brasil, México e Israel, entre outros países.

O acessório, inédito no mundo e vencedor de vários prêmios nacionais e internacionais, ajusta-se ao ultra-som, um aparelho vibratório comum em muitos consultórios, porém usado basicamente na limpeza dentária. Como o atrito pela vibração de alta freqüência com o dente gera menos calor que as brocas convencionais, que funcionam por rotação, a dor é menor e a anestesia torna-se dispensável na maioria dos casos. O ruído é mais discreto, deixando o paciente menos tenso. “O diamante puro tem corte seletivo. Fura tecidos duros, como o dente e o osso, mas não afeta gengiva, língua ou lábios”, explica o dentista Roberto de Paula Macedo, que fez mestrado na Universidade de São Paulo sobre essas pontas de diamante. Com tudo isso, o profissional trabalha mais tranqüilo, seguro, rápido e melhor.

No Departamento de Clínica Infantil da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, a ferramenta tem sido usada e estudada há três anos na pós-graduação. A professora Rita Cordeiro diz que, por serem construídas com diamante maciço, a durabilidade é maior que a das brocas convencionais, feitas com uma mistura de diamante e metal. “Além disso, suas hastes longas e as pontas anguladas permitem maior visão da área que está sendo tratada”, diz. Aparentemente revolucionárias, substituirão as brocas comuns?

“Não. É uma tecnologia alternativa, que proporciona um tratamento mais agradável. Só que, para preparar dentes que receberão próteses, a alta rotação corta mais rápido e desgasta mais, sendo, portanto, mais indicada”, explica a professora Lourdes dos Santos Pinto, do mesmo departamento na Unesp. Já a Faculdade de Odontologia de Bauru, ligada à USP, adquiriu os equipamentos para serem usados na graduação. “No quarto semestre do curso os alunos já aprenderão a manuseá-los”, afirma Rafael Mondelli, professor de dentística, endodontia e materiais.

Jailton Garciaroberto
O dentista Roberto usa as brocas de diamante: “Elas têm corte seletivo e não afetam a gengiva”

A história da CVDentus começou em 1989, quando o físico Vladimir Jesus Trava Airoldi, pesquisador do laboratório associado de sensores e materiais, do centro de tecnologias espaciais do Inpe, trabalhou na Nasa. Airoldi integrava um grupo que pesquisava lubrificantes sólidos capazes de manter tinindo dobradiças de satélites e outros aparatos espaciais e acabou descobrindo outra maneira de tirar proveito das propriedades físicas e químicas do diamante. Voltou ao Brasil um ano depois e deu continuidade aos estudos sobre o diamante sintético. Daí a constatar a utilidade do material para a odontologia foi um pulo. Afinal, uma dessas características é cortar apenas tecidos duros, como dentes, ossos e rochas, poupando os moles, como pele, músculos e vasos sanguíneos.

Os testes prosseguiram, o produto foi criado e patenteado. No entanto, por diversos interesses, nenhum fabricante brasileiro do setor odontológico se interessou pela idéia. “Como ninguém quer fabricar, o faremos nós”, diz o inventor Vladimir Airoldi. Com recursos obtidos inicialmente na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – esses dois últimos ligados ao Ministério da Ciência e Tecnologia –, em 2003 foi criada a CVDVale. Instalada em São José dos Campos, a empresa hoje busca financiamento do BNDES para crescer e negocia investimentos por intermédio de uma empresa nacional da área odontológica. Como já produz e exporta, gera empregos diretos e indiretos, recolhe impostos municipais, estaduais e federais. Além disso, paga royalties à Fapesp e brevemente recolherá também ao Inpe. “Acredito que a ciência espacial deva ser também uma alavancadora de pequenas empresas de alto valor agregado”, diz Airoldi.

Os reatores onde crescem as películas de diamante sintético não param. Para revestir uma ponta ultra-sônica é necessário um dia e meio de reações contínuas e controladas entre o gás metano, uma fonte de carbono, e o hidrogênio, também no estado gasoso. Já a obtenção de uma película de um milímetro de espessura, capaz de revestir diversos equipamentos, requer dez dias de trabalho ininterrupto. Assim como a produção de diamantes no laboratório, as idéias de Airoldi e sua equipe fluem sem cessar.

Eles já estudam o revestimento de engrenagens. Apesar de incipientes, os testes indicam a possibilidade de, num futuro próximo, todas as peças dos motores de carros virem a ser revestidas, eliminando assim a necessidade de lubrificantes líquidos. Achou pouco? Como não corta tecidos moles, as pontas começam a ser estudadas por neurocirurgiões da USP. Os experimentos com ratos, em fase inicial, mostram maior facilidade e segurança no corte do osso da cabeça, sem atingir a massa cerebral.

Contribuições da pesquisa espacial

Hoje a transferência de tecnologia é uma questão de sobrevivência e de manutenção da excelência técnica da indústria espacial. Seja como for, pare e pense: já imaginou o mundo sem celular, forno de microondas, previsão do tempo, controle da poluição, estudo do clima, sistema de controle e segurança de vôo para a aviação civil e militar, monitoramento do desmatamento da Amazônia e de focos de incêndio em várias regiões do país? Se você acha que isso é pouca coisa, veja outras realizações brotadas das mentes brilhantes de quem vivia – e vive – com a cabeça no mundo da lua e os pés no chão.

Na Medicina

Sistemas de medição automática da pressão sangüínea – desenvolvidos nos programas de vôos tripulados;

Ergonomia – baseada em investigações sobre o efeito da microgravidade;

Imagens para a monitorização do coração – desenvolvidas para astronautas;

Estimulação muscular – para pacientes com lesões neuromusculares e na coluna vertebral, nasceu da necessidade de tratar a atrofia muscular dos astronautas gerada pela falta de gravidade. Acabou adaptada também para clínicas estéticas, com o nome de estimulação russa;

Marca-passo – para proteger o astronauta dos efeitos nocivos ao coração causados pela deslocação de fluidos no corpo, comum na gravidade zero;

Angioplastia – baseado na monitorização da camada de ozônio terrestre, hoje desentope vasos sangüíneos;

Nitinol – liga metálica usada em aparelhos ortodônticos. Concebida para a construção de satélites;

Válvula cardíaca artificial – inspirada em motores de naves espaciais;

Roupas para pessoas alérgicas à luz – criadas pela Nasa para as caminhadas pelo espaço;

Material para próteses ortopédicas – mais leve e resistente, é uma adaptação do revestimento externo das naves.

Na Indústria

Robôs para exploração de minérios – inventados para procurar água em outros planetas;

Revestimento antiaderente, conhecido como Teflon – foi fabricado originalmente para a durabilidade das naves espaciais;

Materiais resistentes a altas temperaturas – usados em carros de corrida, são frutos da pesquisa para evitar a explosão das naves pelo atrito com a atmosfera terrestre.

Nas Comunicações

Internet – criada durante a corrida espacial entre a antiga União Soviética e Estados Unidos;

Fibra ótica – desenvolvida em projetos do motor dos lançadores de satélite;

Sistemas de controle de tráfego – inspirados em testes para lançamento de satélites na Base de Alcântara, no Maranhão.

Na Segurança

Airbag – como a asa delta, foi pensado para suavizar a aterrissagem de sondas e cápsulas espaciais;

Tecidos à prova de fogo, altíssimas e baixíssimas temperaturas – pesquisados para os trajes espaciais, beneficiam bombeiros, pilotos de automobilismo e muitos outros profissionais;

Óculos escuros, que protegem da radiação solar – em princípio eram exclusivos dos trabalhadores da área aeroespacial durante o lançamento de um foguete;

Sondas para localização de minas terrestres – capazes de detectar minas enterradas a mais de 40 centímetros do chão, foram pensadas para explorar o subsolo lunar;

Pijamas espaciais, que monitoram a atividade cardíaca e respiratória de bebês durante o sono – são uma novidade para evitar a morte súbita noturna. Também pensados para astronautas.