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Número 138,

Educação política

Leitura histórica e científica do golpe se multiplica em aulas e livros

O ministro da Educação agiu como um ditador contra a criação de uma disciplina acadêmica para investigar o golpe de 2016. Com sua "habilidade", a matéria se espalhou para 38 universidades
por Lalo Leal publicado 17/03/2018 11h09
O ministro da Educação agiu como um ditador contra a criação de uma disciplina acadêmica para investigar o golpe de 2016. Com sua "habilidade", a matéria se espalhou para 38 universidades
Reprodução/Facebook
Mendonça Filho

Bonito na selfie – Depois de vestir a camisa do impeachment, Mendonça Filho virou ministro preferido de Alexandre Frota. Quem enganou o povo mesmo?

A contribuição do ministro da educação Mendonça Filho para o desenvolvimento das pesquisas em história, sociologia e ciência política tende a ser inestimável. As represálias com que ameaçou um curso de extensão sobre o golpe de 2016, ministrado na Universidade de Brasília, fizeram com que o tema ganhasse amplitude nacional, passando a ser oferecido por mais de 35 universidades em todo o pais e três no exterior (Reino Unido, México e Colômbia). Essa será, sem dúvida, a principal marca de sua gestão.

Um dos desdobramentos mais significativos desses cursos será a transformação do golpe que tirou do poder a presidenta Dilma Rousseff em objeto de estudo científico. Teremos, com certeza, daqui para a frente, o surgimento de pesquisas de mestrado e doutorado investigando o tema através de suas várias facetas. Com isso, os cursos agora oferecidos pelas universidades prometem ser apenas o ponto inicial de um longo e aprofundado debate sobre as raízes do golpe e suas consequências para a frágil democracia brasileira.

Pode-se prever o surgimento de trabalhos capazes de dar consistência aos dados e análises do período político que vivemos, tornando-se referência para pesquisadores no futuro. Dessa forma, esses estudiosos estarão a salvo de tornarem-se reféns das interpretações uniformes oferecidas pela mídia conservadora que quando raramente usa a palavra golpe a faz entre aspas. Será instigante confrontar as revelações e descobertas realizadas pelos trabalhos acadêmicos com o que publicam os jornais e revistas. 

Antes disso, ainda no calor da hora, já temos algumas publicações analisando o processo de destituição da presidenta eleita e de suas consequências para o país. A mais recente delas é o segundo volume da coletânea “Enciclopédia do Golpe” dedicada ao papel da mídia, com 28 artigos escritos por acadêmicos e profissionais da área. Que os meios de comunicação foram decisivos para realização do golpe não resta a menor dúvida. Basta lembrar o empenho dos veículos das Organizações Globo em chamar a população para participar dos atos contra o governo de Dilma Rousseff. O livro trata desse fato, mas vai além, circunstanciando as ações da mídia em apoio ao golpe por diversos ângulos.

Trata-se de um conjunto de análises que vão desde o papel da Lava Jato no processo de deposição da presidenta até a forma como as fotografias eram publicadas nos jornais e revistas da chamada grande imprensa. Em seu artigo o fotógrafo Lula Marques lembra que “as fotos foram cuidadosamente editadas e manipuladas, ilustrando matérias não menos desonestas, distorcidas e inverídicas. A ordem nas redações era deixar todos do governo do PT mal na foto”. Ele salienta que “Dilma era retratada como uma histérica a beira de um ataque de nervos. Não é possível deixar de lembrar da ultrajante capa da revista Istoé em que a presidenta é comparada à rainha Maria, a Louca, sob a manchete “As explosões nervosas da presidente”.

Em outro artigo a jornalista Bia Barbosa analisa a cobertura realizada pelo Jornal Nacional da condução coercitiva do ex-presidente Lula. O primeiro bloco do telejornal “teve 21 minutos de matérias sobre o episódio, e nada menos que 50 segundos (25 vezes menos) com a posição da defesa”. Padrão mantido nos blocos seguintes, sempre com amplo destaque para as acusações e minúsculos espaços para a defesa.

Outros dados significativos são apontados pelo jornalista Olimpio Cruz Neto. É pública e notória a posição golpista da revista Veja mas o artigo a concretiza com números. Entre janeiro de 2014 e setembro de 2016, quando Dilma foi afastada em definitivo da Presidência, a revista “publicou 123 edições, das quais 76 foram críticas ao governo e ao PT”. Durante 2014, antes do pleito presidencial, os principais candidatos foram capa da revista chamando para os seus planos de governo, com exceção de Dilma. A ela foi reservada, junto com Lula, a famosa capa às vésperas do segundo turno sob a manchete “Eles sabiam de tudo”, numa infundada referência aos esquemas de corrupção na Petrobras.

São alguns exemplos da importância do livro como documento histórico de um momento trágico para a democracia brasileira. Através dele é possível entender melhor o papel decisivo jogado pela mídia no golpe de 2016. Multidões foram às ruas insufladas pela televisão articulada com os demais veículos como mostra, em feliz analogia, o editor do site O Cafezinho, Miguel do Rosário. Diz ele que “o processo de impeachment foi um jogo de futebol. Globo passava a bola para a Folha, que deixava a Veja perto do gol, que tocava para Sergio Moro completar de cabeça”. E assim as ideias da classe dominante tornavam-se as ideias dominantes na sociedade, como dizia Karl Marx, referindo-se a Alemanha do século 19, mas tão atual neste Brasil do século 21.