Intolerável

Itamaraty repudia ataque de Israel à fila de comida em Gaza e inação internacional: ‘Velado incentivo’

Em nota, governo brasileiro destacou que ação militar contra os palestinos “não tem qualquer limite ético ou legal”. E classificou as declarações ofensivas às vítimas do ataque de ontem como a “gota d’água”. O presidente da França, Emmanuel Macron, também subiu o tom contra Israel

Agência Wafa
Agência Wafa
O ataque de Israel contra uma multidão de palestinos que tentavam receber comida fruto de ajuda humanitária, nesta quinta-feira (29), em Gaza, deixou 112 pessoas mortas e 760 feridas

São Paulo – O ataque de Israel contra uma multidão de palestinos que tentava receber comida, ontem (29), em Gaza, voltou a mostrar que a ação militar do governo de Benjamin Netanyahu no território “não tem qualquer limite ético ou legal”. A afirmação foi feita pelo Ministério das Relações Exteriores em nota divulgada nesta sexta (1º), em repúdio ao primeiro-ministro israelense. O massacre deixou ao menos 112 pessoas mortas e 760 feridas, segundo o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza.

O ataque ocorreu após a entrada de um comboio com alimentos na Faixa de Gaza, ao qual os palestinos que passam fome correram em busca de comida. “As aglomerações em torno dos caminhões que transportavam a ajuda humanitária demonstram a situação desesperadora a que está submetida a população civil da Faixa de Gaza e as dificuldades para obtenção de alimentos no território”, observou o Itamaraty, cobrando uma reação dos organismos mundiais.

Segundo a diplomacia brasileira, a “inação da comunidade internacional diante desta tragédia humanitária continua a servir como velado incentivo para que o governo Netanyahu continue a atingir civis inocentes e a ignorar regras básicas do direito humanitário internacional. (…) O governo Netanyahu volta a mostrar, por ações e declarações, que a ação militar em Gaza não tem qualquer limite ético ou legal. E cabe à comunidade internacional dar um basta para, somente assim, evitar novas atrocidades. A cada dia de hesitação, mais inocentes morrerão”, alerta no documento.

‘Gota d’água’

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também classificou as declarações de autoridades israelenses como “cínicas e ofensivas às vítimas do incidente”. Assim como foram a “gota d’água para qualquer um que realmente acredite no valor da vida humana”, diz o texto. Após o ataque, conforme reportou a RBA, as Forças de Defesa de Israel chegaram a negar, em um primeiro momento, que tivessem disparado, apesar das imagens e vídeos do momento no atentado. Na ocasião, elas creditaram as mortes a pisoteamentos e brigas.

O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir ainda comemorou a chacina, chamando o ato de “heróico” e que os soldados “agiram de forma excelente”. O ataque ocorreu no mesmo dia em que o número de mortos em Gaza, desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, em 7 de outubro, passou da marca de 30 mil pessoas. A ONU também divulgou nesta quinta que pelo menos 17 mil crianças estão órfãs ou foram separadas de suas famílias após essa nova fase do conflito, considerado o mais letal desde 2007. Há ainda dezenas de milhares de pessoas desaparecidas, muitas delas enterradas sob os escombros de suas casas.

Em nota, o Itamaraty reiterou “a absoluta urgência de um cessar-fogo e do efetivo ingresso em Gaza de ajuda humanitária em quantidades adequadas, bem como a libertação de todos os reféns”. O Brasil também destacou que Israel tem a obrigatoriedade de implementar medidas cautelares já definidas pela Corte Internacional de Justiça em janeiro. Essas ações “demandam que Israel tome todas as medidas ao seu alcance para impedir a prática de todos os atos considerados como genocídio, de acordo com o Artigo II da Convenção para a Prevenção e a Repressão e Punição do Crime de Genocídio”, observou o governo Lula.

Macron indignado

O massacre de Israel contra palestinos vem recebendo críticas em todo o mundo civilizado. O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou ver com “profunda indignação” as imagens vindas de Gaza, onde civis foram alvo de soldados israelenses. “Expresso minha mais forte condenação a esses tiroteios e peço a verdade, justiça e respeito ao direito internacional”, disse Macron em post na rede X, antigo Twitter. Seu ministro das Relações Exteriores, Stéphane Séjourné, disse que o país apoiará o pedido das Nações Unidas para uma investigação independente.

“A situação humanitária tem sido catastrófica há várias semanas e o que aconteceu é indefensável e injustificável. Israel precisa ser capaz de ouvi-lo e precisa parar. Demos um passo adiante, as pessoas estão lutando por comida e há tumultos. Ouvi o pedido do Secretário-Geral das Nações Unidas para abrir uma investigação independente e acho que a França apoiará isso”, declarou Sejourne à rádio France Inter.

Nem os aliados incondicionais de Israel, leia-se Estados Unidos, compraram a defesa do massacre. Washington disse que vai investigar o caso e cobrou mais explicações. “Estamos em contato com o governo israelense desde esta manhã e entendemos que uma investigação está sendo realizada. Vamos acompanhar de perto esta investigação e pressionar para obter respostas”, disse a jornalistas o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Matthew Miller.

Boicote a Israel

Parlamentares de 13 países diferentes se uniram em defesa de um embargo contra a venda e a exportação de armas para Israel. A iniciativa é encabeçada pela Progressive International, articulação que busca organizar e mobilizar forças progressistas de todo o mundo. Na carta, os signatários destacam que “nossas bombas e balas não podem ser usadas para matar, mutilar e desapropriar palestinos. Mas são: sabemos que armas letais e seus componentes, fabricadas ou enviadas por meio de nossos países, têm contribuído para o ataque israelense à Palestina, que já ceifou mais de 30 mil vidas em Gaza e na Cisjordânia”, diz um trecho.

A lista reúne representantes de Austrália, Canadá, Alemanha, Espanha, Portugal, Turquia, Holanda, Bélgica e Irlanda. E, no Brasil, vem sendo apoiada também por toda a bancada do Psol na Câmara dos Deputados e pelo deputado federal Nilto Tatto (PT-SP). Nos EUA, duas congressistas ratificaram a medida, as democratas Cori Bush e Rashida Tlaib.

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Redação: Clara Assunção


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