'Pagou o preço'

Saída da Ford é resultado da falta de nacionalização da produção, diz Valter Sanches

Secretário da IndustriALL Global Union cita falta de competitividade da empresa frente à desvalorização cambial e critica falta de investimentos nacionais

DIVULGAÇÃO/FORD
Na última segunda-feira (11), a Ford anunciou sua saída do Brasil, depois de um século de atividades. Ao menos 5 mil trabalhadores serão demitidos com o fechamento das fábricas

São Paulo – A saída da Ford do Brasil é resultado da falta de nacionalização completa de sua produção no país. Na avaliação de Valter Sanches, secretário-geral da IndustriALL Global Union, a montadora norte-americana “pagou o preço” de manter a importação de peças e sofreu com a desvalorização cambial do Brasil.

O sindicalista cita o programa Inovar-Auto, criado na gestão Dilma Rousseff, que buscava incentivar as montadoras a produzirem veículos mais econômicos e a investirem na cadeia de fornecedores. “A Ford poderia ter nacionalizado mais suas peças e se beneficiaria disso. Durante as gestões de Lula e Dilma, com a Inovar-Auto, as empresas tinham que nacionalizar oito das 15 etapas produtivas de um veículo. Se a Ford tivesse feito isso, ela teria se protegido da desvalorização cambial em 2020. É uma deficiência de política industrial e que não tem perspectiva de mudança a curto prazo, já que o governo Bolsonaro só busca destruição”, afirmou à Rádio Brasil Atual, nesta quinta-feira (14).

Na última segunda-feira (11), a Ford anunciou sua saída do Brasil, depois de um século de atividades. Ao menos 5 mil trabalhadores serão demitidos com o fechamento das fábricas de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). No entanto, cerca de 35 mil a 50 mil postos de trabalho indiretos também devem ser fechados com a saída da montadora.

“É importante dizer que a Ford está perdendo na competitividade global por não ter uma escala de produção que faça frente aos altos investimentos que transformaram a indústria. Em 2019, ela havia encerrado a fábrica de São Bernardo do Campo, por exemplo. Agora, ela se aproveita da pandemia, com a falta de proteção social, e acelerou o processo de reestruturação que faria em cinco anos”, criticou Valter Sanches.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro disse que a Ford não falou a verdade sobre a saída da empresa e que o motivo é que a montadora norte-americana queria mais subsídios para continuar produzindo veículos no país. O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), Paulo Cayres, diz que o governo Bolsonaro é responsável pelo abandono da empresa.

“Não é verdade que a Ford esteja saindo do país somente devido à falta de incentivos fiscais, é preciso ter mercado. É preciso ter uma política nacional industrial forte e ter uma economia mais confiante, e esses não são os casos no país de Bolsonaro. Ele e Guedes vivem falando que o país está quebrado e, além de não ser verdade, ainda desestimulam investimentos. O governo é responsável pela saída da Ford do país, mas a empresa também foi bem canalha ao acabar com esses empregos no meio da pandemia”, disse ao portal da CUT.

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