Mentalidade rodoviarista

Moradores e ambientalistas mobilizam-se contra pedágios na rodovia Raposo Tavares

Ativistas, associações e coletivos preparam luta contra projeto do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que pretende instalar pórticos de cobrança automática no trecho entre São Paulo e Cotia até março de 2026

Rovena Rosa/Agência Brasil
Rovena Rosa/Agência Brasil
Rodovia Raposo Tavares: pedágio para automóveis em projeto sem uma visão de sustentabilidade

São Paulo – Entidades de ambientalistas e moradores que atuam na região de influência da Rodovia Raposo Tavares, zona oeste de São Paulo, articulam uma mobilização para resistir e combater um projeto de pórticos de pedágios para a rodovia, apresentado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O projeto de Tarcísio é conceder à iniciativa privada o trecho da Raposo entre a capital paulista e o município de Cotia. Esse trecho, que atualmente não cobra pedágio, terá seis novos pórticos de cobrança automática após a concessão.

Os pedágios a serem instalados serão do sistema free flow, sem cabines, com sistema automático livre e pagamento da tarifa por meio 100% automático. Segundo o projeto, haverá pórticos do novo sistema de cobrança nos seguintes pontos: Km 11,8  (R$ 0,62), Km 15,1 (R$ 0,77), Km 19,8 (R$ 0,92), Km 24,7 (R$ 1,27), Km 29,07 (R$ 1,65) e Km 39,1 (R$ 2,30). Pelo projeto, esses valores serão válidos para o primeiro ano de cobrança. Os pórticos têm previsão de serem instalados em março de 2026, segundo informações do jornal Visão Oeste.

Neste domingo (14), mais de 60 pessoas participaram de uma reunião online de emergência convocada por diversas entidades, entre elas a Rede Butantã e a Rede Ambiental Butantã, além de conselheiros do CADES Butantã e do Conselho Participativo Municipal para criar um movimento contra o projeto “Nova Raposo”.

Sem participação popular

“Soubemos do projeto pelo jornal (“Plano para a Raposo prevê túneis e pedágio no trecho entre SP e Cotia”/Estadão 11/4), o que nos surpreendeu terrivelmente. Não houve consulta pública nem audiências divulgadas. Esse projeto impacta terrivelmente bairros residenciais e arborizados, como o Jardim Previdência e demais bairros do Butantã, e mostra uma mentalidade atrasada, rodoviarista, nada sustentável”, diz, indignado, o diretor de relações externas da Amapar (Associação dos Moradores Amigos do Parque Previdência), Sérgio Reze.

Para o conselheiro do Conselho Participativo Municipal, Ernesto Maeda, “trata-se de um  absurdo que um projeto de tamanha dimensão, com imenso impacto em todo o território de sua influência, inclusive com previsão de implantação de pedágio dentro de área urbana consolidada não tenha participação popular e de especialistas”.

Martha Pimenta, da Rede Butantã, movimento que atua na região há mais de 20 anos argumenta que é “fundamental ter mecanismos de consulta que permitam a participação da população que tem ainda acesso difícil e restrito à Internet, passa duas horas no ônibus só na Rodovia Raposo Tavares para trabalhar no centro, sempre congestionada com carros com um único tripulante. Faz 20 anos que pedimos a faixa exclusiva de ônibus e nada foi feito”.

Estímulo ao uso do automóvel

Para o morador do bairro City Butantã, ex-engenheiro de transporte e tráfego por mais de sete anos na CET, Wladimir Bordoni, um dos maiores equívocos do projeto é estimular ainda mais a rodovia Raposo Tavares para acessar áreas centrais da cidade, piorando locais já congestionados como a avenida Pedroso de Moraes, ponte Eusébio Matoso e Marginal. “Além de um transporte público de massa, o certo seria investir na segurança e fluidez do Rodoanel,  justamente para descongestionar os bairros”, avalia.

No texto, o anúncio da concessão rodoviária à iniciativa privada do trecho da Rodovia Raposo Tavares entre a Capital e Cotia, inclusive com a instituição de cobrança de seis praças de pedágios. A informação é de que estaria em curso uma consulta pública a respeito do assunto, com encerramento amanhã, 16 de abril, mas moradores, lideranças de associações e ambientalistas desconhecem tal convocação.

Toque de caixa

Durante a reunião, vários moradores e lideranças manifestaram que é um absurdo um projeto dessa dimensão seja feito a toque de caixa sem respeitar as diretrizes do Estatuto da Cidade; que determinam o pleno acesso às informações e controle desde as etapas iniciais pela sociedade civil interessada.

“Onde estão os Estudos Técnicos, de Impacto Ambiental, de Vizinhança, de Mobilidade e os respectivos Estudos Sociais sobre a população instalada na região?”, indaga José Jacinto, coordenador da Rede Ambiental Butantã, conselheiro do Parque Previdência e morador do Butantã há mais de 30 anos.

Bolso do trabalhador

Presidente do Movimento de Moradia da Raposo Tavares, Diva Nunes alerta que o impacto financeiro chegará no bolso do trabalhador, seja pelo pedágio ou pela tarifa de ônibus, que vai repassar os custos. “A população mais pobre, periférica que será mais atingida. Por que não temos o mesmo tratamento que a avenida Francisco Morato, com faixa exclusiva para ônibus, motos?”, destaca.

Os participantes da reunião online decidiram criar um movimento amplo, “Nova” Raposo, não! para impedir o avanço do projeto e requerem que o Poder Público, em âmbito municipal e estadual, retroceda o processo em curso. “É preciso o cumprimento integral das diretrizes legais que norteiam os processos participativos e o direito democrático de controle social”, afirma Angela Baeder, do CADES Butantã.

Participam do movimento e assinam manifesto as seguintes entidades:

  • Amigos da Mata Esmeralda;
  • ⁠Amigos do Conjunto Residencial Butantã
  • Associação Amigos Casa do Bandeirante (AACB);
  • Associação Cultural da Comunidade do Morro do Querosene;
  • Associação de Moradores do Jardim Christie;
  • Associação de Moradores da Rua Ministro Costa e Silva e Adjacências;
  • Associação de Moradores da Comunidade Cidade Nova Piemonteses;
  • Associação dos Amigos de Alto dos Pinheiros (SAAP);
  • Associação dos Amigos da Praça João Afonso de Souza Castellano;
  • AMAPAR – Associação dos Moradores Amigos do Parque Previdência;
  • AMAPP – Associação dos Moradores e Amigos dos Predinhos de Pinheiros;
  • Associação Projetos Integrados de Desenvolvimento Socioambiental do Raposo Tavares;
  • Clube Alto dos Pinheiros;
  • Coletivo Corredor Ecológico Urbano do Butantã;
  • Coletivo Ideia Nossa;
  • Coletivo PQ BT18 – Parque Linear Charque Grande-Ibiraporã;
  • Comunidade City Pirajussara;
  • CPM Butantã (Conselho Participativo  – Butantã);
  • Fórum Verde Permanente de parques, praças e áreas verdes;
  • ⁠Movimento Defenda o Parque Previdência
  • ⁠⁠Movimento Defenda SP
  • ⁠Movimento de Moradia Cohab Raposo
  • Movimento Parque Chácara do Jóquei;
  • Movimento Parque Linear Caxingui;
  • Pró-Pinheiros;
  • Rede Ambiental Butantã (RAB);
  • Rede Butantã;
  • Sociedade Amigos da Cidade Jardim, SACJ;
  • SOS Bicho



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