Isolamento

Em São Paulo, decisão sobre ‘lockdown’ ou abertura deve ser anunciada nesta quarta

Prefeitura defende mais restrições para evitar o colapso do sistema de saúde, mas governo Doria tende a anunciar medidas de flexibilização da quarentena

Governo do Estado de São Paulo
Doria e Covas contrariam as recomendações de saúde que dizem seguir e flexibilizam quarentena em São Paulo

São Paulo – Prefeitos da região metropolitana de São Paulo e o governador João Doria (PSDB) estão reunidos hoje (25) para tentar um acordo sobre a ampliação das restrições de circulação e funcionamento do comércio para combater a pandemia de coronavírus – o chamado lockdown. O prefeito da capital paulista, Bruno Covas (PSDB), já anunciou que a decisão sobre a decretação ou não do lockdown, que ele defende, será apresentada na próxima quarta-feira (27).

Doria já disse que o plano para isso está pronto, mas que tem hesitado em aplicá-lo e declarou, na semana passada, que o plano de flexibilização da quarentena pode ser executado a partir de 1º de junho. “Haverá um momento para a flexibilização sim, a partir de 1º de junho, em fases escalonadas, cuidadosas, zelosas, e isso feito com o setor privado”, disse Doria. O atual decreto de quarentena vale até o próximo domingo (31).

No entanto, o Comitê de Contingência do Coronavírus de São Paulo, que auxilia o governo Doria, defende que medidas de reabertura da atividade econômica só devem ser tomadas após um significativo quadro de melhora da pandemia, com redução na taxa de contágio – atualmente em 1,19 – para menos de 0,9, redução da ocupação de UTI para menos de 70% e queda no número de novos casos por 14 dias consecutivos.

Nenhuma destas condições existe atualmente na região metropolitana de São Paulo. O comitê defende ainda que o lockdown seja aplicado regionalmente, com maior redução das atividades econômicas autorizadas a funcionar.

Recomendações

A Organização Mundial da Saúde orienta a decretação de lockdown em cidades ou regiões onde a ocupação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) superar 90%. No caso da capital paulista, esse número chegou a 92% nos últimos dias, mas voltou a 88% ontem. A cidade tem 7.022 mortes, sendo 3.351 por casos confirmados de covid-19 e 3.671 suspeitas. Em todo o estado paulista, a ocupação de UTI é de 73,8%. E são 83.625 casos, com 6.220 mortes pela covid-19 confirmadas.

Como medida para evitar – ou adiar – a decretação de lockdown, Covas e Doria anteciparam feriados dos próximos meses. Desde a última quarta-feira (20), a capital está vivendo um feriado de seis dias, com o objetivo de ampliar o isolamento social.

Mas a medida não teve resultado satisfatório, levando a taxa de adesão ao isolamento a 49%, ante 47% na semana anterior. O melhor dia foi ontem (24), quando chegou a 55%, mas o índice ficou apenas dois pontos percentuais acima dos domingos anteriores (53%).

Covas já havia declarado que, se a adesão ao isolamento social não melhorasse, o lockdown seria inevitável. No entanto, o Comitê de Contingência entende que não adianta determinar essa medida apenas na capital. É preciso que atinja toda a região metropolitana. “Nós estamos muito tranquilos, porque todas as medidas até agora foram respaldadas e foram orientadas pelo comitê de saúde. Vai ser a mesma coisa na quarta-feira que vem.”

Além disso, a cidade vive a “periferização” da pandemia. Em um mês, os 20 distritos mais pobres da capital paulista registraram aumento médio de 228% nas mortes causadas pela covid-19. Entre esses, apenas Marsilac, no extremo sul, não teve crescimento superior a 100% nos óbitos em casos suspeitos ou confirmados. Outros 12 distritos tiveram crescimento superior a 200% nas mortes registradas desde 17 de abril.

Inevitável e urgente

Os distritos com mais mortes são Brasilândia, com 185, Tremembé, com 130, e Cachoeirinha (126), na zona norte; Capão Redondo (141), Grajaú (149), Jardim São Luís (140), e Jardim Ângela (130), na zona sul; Sapopemba (179) e Cidade Tiradentes (118), na zona leste. Os dados são da Secretaria Municipal de Saúde e referem-se à última quarta-feira (20).

Para o ex-ministro da Saúde e médico sanitarista Arthur Chioro, o lockdown é inevitável e urgente. Segundo ele, no entanto, o grande desafio agora é conseguir efetivar o isolamento das pessoas contaminadas assintomáticas ou casos leves, que podem ampliar ainda mais a pandemia. “Nesse momento, a inexistência de centros de isolamento para que pessoas infectadas que vivem em situações precária, possam ficar esses 14 dias, à semelhança do que foi organizado na favela de Paraisópolis, por exemplo, é gritante”, afirmou.

Chioro considera que, sem esses espaços de isolamento, o lockdown pode não ser tão efetivo. “Se não associar esta medida com a criação desses centros de isolamento, para as pessoas que vivem em situações precárias, que é imensa maioria da população paulistana, nós não teremos sucesso no controle da transmissão de casos. Porque as pessoas infectadas, mesmo com sintomatologia leve, voltam para suas casas e ficam sendo transmissíveis durante até 14 dias e não têm como fazer isolamento. As situações econômicas, sociais, de moradia, são determinantes tanto quanto o processo de lockdown”, afirmou.