"Mal informado"

O desafio da fome não se combate com ideologia, diz diretor-geral da FAO e idealizador do Fome Zero

Para José Graziano, o Brasil "está patinando" e precisa incluir não só o tema da fome no centro das políticas públicas, mas questões diretamente relacionadas ao problema, como emprego e desigualdade. "Esses são elementos que precisavam ser enfrentados com uma agenda positiva"

FAO
"Você não pode perguntar para quem está passando fome se ele ou ela é de esquerda ou de direita", afirma Graziano

São Paulo – Em 2014, o Brasil saiu pela primeira vez do chamado Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), por efeito da melhora da economia e programas sociais, como o Fome Zero, mas o problema nunca deixou de existir. “E o único número que dá para aceitar é zero”, observa o agrônomo José Graziano da Silva, ministro do governo Lula e articulador do Fome Zero, para quem o país “tem negligenciado” essa questão.  Há sete anos diretor da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – deixará o cargo na próxima quarta-feira (31) –, Graziano se disse “chocado” com afirmação de Jair Bolsonaro de que não há fome no Brasil. “Eu fiquei chocado, porque o presidente está mal informado. E eu acho que a própria maneira como ele fez a retratação demonstrou um certo desleixo com o tema. A fome é um tema muito sério no Brasil, sempre foi”, afirma Graziano, em entrevista à DW Brasil.

“Em 2014, a FAO tirou o Brasil do Mapa da Fome pela primeira vez, porque o nível da prevalência da subnutrição caiu abaixo de 5%. E esse é um número meio cabalístico e meio mágico que usamos, porque abaixo dos 5% nós não temos precisão da medida. Esses 5% seriam hoje no Brasil por volta de 4 ou 5 milhões de pessoas. A gente evita divulgar esse número devido à imprecisão dele, que é em certo sentido residual. Se 5% passam fome, quer dizer que 95% não passam fome. Mas 5% é muita gente. E o único número que dá para aceitar é zero”, diz Graziano, lembrando que a erradicação da fome é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

“Não é reduzir à metade, nem a 5%, é erradicar. E, para isso, precisamos de políticas ativas”, observa o diretor-geral da FAO. “Eu diria que o Brasil hoje tem negligenciado esse lado da fome e também das políticas sociais. O principal problema ligado à fome no Brasil é o desemprego e a falta de proteção social. Virar desempregado no Brasil é sinônimo de passar fome, porque não se tem acesso a um sistema de proteção social, como existe nos países europeus.”

Precarização e subnutrição

Por isso, Graziano considera que “o Brasil está patinando” nessa questão. “É preciso colocar o tema da fome no centro das políticas e as questões relacionadas, como emprego, a erradicação da pobreza extrema, a desigualdade, que é um dos elementos que afeta muito a fome. Esses são elementos que precisavam ser enfrentados com uma agenda positiva, uma agenda que ocupasse o centro das atenções do programa de governo.”

Ele vê com preocupação o aumento do desemprego e da precarização do trabalho no Brasil. “Segundo a estimativa de 2019 (do IBGE), nós chegamos a um total de 28,3 milhões de pessoas com alguma forma de precariedade no trabalho. São 13 milhões de desempregados, 8 milhões de pessoas que gostariam de trabalhar, mas não têm emprego, e quase 7 milhões de pessoas ocupadas, mas que não trabalham o número de horas que gostariam. É um número altíssimo”, observa. “Todas as formas precárias de trabalho são formas que apontam para um aumento da subnutrição.”

Ele lembra que o Fome Zero combinou “estímulo à produção agrícola, à agricultura familiar, principalmente, com a melhoria do acesso através de programas de transferência de renda”. Sobre a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) por Bolsonaro, disse que a questão não pode se tratada com ideologia. “Você não pode perguntar para quem está passando fome se ele ou ela é de esquerda ou de direita.”

Leia aqui a íntegra da entrevista.