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Desabamento no Largo do Paissandu: após um ano, famílias sem moradia, nem perspectiva

Sem teto fazem manifestação no dia 1º para não deixar cair no esquecimento os direitos das 240 famílias que perderam tudo no incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida
Publicado por Rodrigo Gomes, da RBA
09:20
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Rovena Rosa/Agência Brasil
um ano do desabamento de prédio ocupado

No local do prédio de 24 andares que abrigou centenas de famílias, resta o terreno baldio com alguns escombros

São Paulo – Na madrugada de 1º de maio de 2018, um incêndio teve início no Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, centro de São Paulo. O prédio desmoronou horas depois. O local era ocupado por 240 famílias sem teto, que perderam tudo que tinham conseguido com muito esforço: roupas, móveis, eletrodomésticos, documentos, memórias. Oito pessoas morreram. Passado um ano, movimentos de moradia da capital paulista se unem às famílias para não deixar cair no esquecimento aquela que é considerada a maior tragédia envolvendo um prédio ocupado. E vão realizar uma manifestação no local nesta quarta-feira (1º), às 8h30.

“Minha vida é uma luta constante pra conseguir repor o que tinha dentro de casa. Até meu RG eu perdi, relata o trabalhador ambulante Adilson da Silva. Nós perdemos tudo, mas graças a Deus não aconteceu nada com a gente.”

Ele morou cinco anos no local. Vivia no prédio com a esposa Paula e o filho Gabriel, hoje com 5 anos. “O que conseguimos até agora foi um botijão, um fogão e uma televisão. Queríamos comprar uma geladeira, mas até agora não conseguimos um lugar para ficar mesmo”, lamenta.

Depois do desabamento, Silva ficou acampado no Largo do Paissandu com dezenas de famílias por quase cem dias, reivindicando atendimento da prefeitura de São Paulo, então chefiada pelo atual governador João Doria (PSDB), que não ofereceu qualquer apoio aos moradores.

O então governador paulista Márcio França (PSB) ofereceu um auxílio-moradia de R$ 400, pagos pela Companhia Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). E a prefeitura cadastrou as famílias para atendimento habitacional. “A única coisa que a prefeitura mesmo fez foi colocar tapumes em volta do terreno”, ressalta Silva.

No mês passado, a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) convocou as famílias para inscrevê-las no auxílio-aluguel, já que o governo Doria informou que vai cortar o benefício. “A única coisa que aconteceu é que as famílias estavam recebendo um auxílio-moradia do governo estadual e agora a prefeitura vai assumir esse processo. É uma situação bem complicada”, avalia o coordenador da Central de Movimentos Populares Benedito Barbosa, o Dito. Não tem nenhuma perspectiva de solução habitacional para as famílias, nem do uso do terreno. As pessoas estão muito decepcionadas com a prefeitura. Elas não tiveram nenhum acompanhamento de saúde para o trauma passado.”

RBAprédio wilton paes de almeida
Silva e o filho Gabriel ainda tentam reconquistar tudo o que foi perdido no incêndio e desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida

Saído do acampamento, Silva e a família foram morar em um cômodo, mas a proprietária pediu R$ 450 de aluguel, valor superior ao do auxílio. “Isso, mais a alimentação, condução pra trabalhar minha e da minha esposa, entre outras coisas, não teve como a gente ficar lá, não tinha como pagar”, lamenta o camelô.

Paula conseguiu negociar um valor e ir morar com Gabriel num cômodo de fundos de uma conhecida, mas Silva ficou pelas ruas do centro. Muitos outros moradores ficaram na mesma situação, outros foram morar em ocupações, porque o valor do auxílio é insuficiente para bancar o custo de um aluguel.

Assista à reportagem da TVT

Mais dificuldades

O aumento da tarifa de ônibus de R$ 4 para R$ 4,30 e a ação de aumentar a fiscalização e apreender produtos de camelôs no centro, ambas tomadas pela gestão Covas, dificultaram ainda mais a situação. “Eu trabalhava vendendo batata frita no Viaduto do Chá, mas agora, o prefeito colocou oito pessoas, quatro de cada lado, para não deixar ninguém trabalhar lá. Agora estou trabalhando no viaduto Santa Ifigênia, mas o movimento ali não é a mesma coisa”, explicou. Com isso, a renda diária de R$ 50 a R$ 70, caiu para cerca de R$ 30.

Silva ressalta que não era nada fácil viver no Edifício Wilton Paes de Almeida, mas era a saída de quem não tinha escolha. “Era terrível morar ali. A estrutura do prédio não era para habitação. A gente adaptou a estrutura com tapumes de madeira. Não tinha infraestrutura hidráulica nem elétrica. Todo dia tinha problemas. Era só um lugar para não ficar na rua mesmo. As ruas estão cada vez mais cheias de gente. E o poder público não toma nenhuma atitude para que essas pessoas tenham moradia”, critica.

O terreno do antigo prédio foi cercado com tapumes e durante meses uma viatura da Guarda Civil Metropolitana (GCM) fez guarda no local para evitar a ocupação da área. Ainda não há previsão de qual destinação será dada ao espaço. Segundo Dito, a prefeitura anunciou a abertura de um diálogo com a Secretaria do Patrimônio da União para construir habitações de interesse social para o programa de Locação Social, mas até agora não houve nenhum encaminhamento.

Em nota, a prefeitura de São Paulo informou que “as 291 famílias que comprovaram vínculo com o Edifício Wilton Paes de Almeida recebem auxílio-aluguel com recursos do Governo do Estado, por meio de convênio firmado com a CDHU para o primeiro ano”. E garantiu que o auxílio será pago de maio deste ano até o atendimento habitacional definitivo e que todas as famílias devem comparecer à Central da Habitação para atualizar o cadastro. “As famílias serão assistidas respeitando os critérios gerais de atendimento habitacional do Município”, conclui.