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Dia de luta

Reforma da Previdência escraviza brasileiro, diz Jean Wyllys

Protestos da manhã reuniram pelo menos 380 mil pessoas em 18 estados, segundo apuração prévia da Frente Brasil Popular. Hashtag #GreveGeral foi a mais comentada durante o período
Publicado por Redação RBA
18:14
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Maxwell Vilela/ Jornalistas Livres
Ato

“Esse 15 de março ficará para a história como a reação da população ao governo Temer”, diz deputada

São Paulo – Para políticos e membros de movimentos sociais, o governo de Michel Temer não tem legitimidade para impor à população uma reforma da Previdência que aumente a idade mínima e o tempo de contribuição para o trabalhador ter acesso ao benefício, como a encaminhada pelo presidente ao Congresso Nacional. Como resposta, pelo menos 380 mil pessoas participaram na manhã de hoje (15) de protestos contra a medida em 18 estados, com paralisações de diversas categorias, como metroviários, químicos, metalúrgicos, bancários e motoristas de ônibus.

“Essa reforma não tem cabimento porque Michel Temer não tem legitimidade para propô-la. Ele era vice de Dilma (Rousseff). Quem votou em Dilma, como eu, não votou em uma reforma da Previdência como essa. Ele está na Presidência graças a um golpe tramado por corruptos que queriam barrar a Lava Jato, mostrando que há um conluio entre iniciativa privada e sistema político, associados a empresários que queriam cortar políticas sociais”, disse o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), em seu perfil no Facebook. “Derrubaram Dilma para impor uma reforma da Previdência que escraviza os brasileiros. Vamos apresentar emendas ao projeto original. Vamos fazer o possível para impedir que essa reforma seja aprovada.”

“A pessoa só vai se aposentar com 65 anos se tiver contribuindo 25 anos para previdência. Em muitos estados pobres do Brasil e nas periferias das grandes cidades a expectativa de vida é de 60 anos. Os pobres vão morrer trabalhando sem poder se aposentar”, diz Wyllys. “As mulheres serão as mais afetadas porque o projeto equipara a idade de aposentadoria com os homens e isso é injusto porque as mulheres ganham menos e são sobrecarregadas com as tarefas domésticas e a criação dos filhos. Porém, as aposentadorias especiais não serão mexidas, como as de membros do Ministério Público e do Judiciário. Os marajás que já ganham muito bem vão continuar com suas aposentadorias integrais”.

Diretor nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile concorda: “É uma besteira comparar todo mundo daqui pra frente, para se aposentar com 65 anos, tanto na cidade como no campo, o que exigiria as pessoas trabalharem 50 anos na agricultura, o que é uma vergonha. O que é mais ridículo é que a maioria desses ministros e senadores do governo já se aposentaram com 48, 53 anos, e com aposentadorias acima de R$ 10.000. Se essa proposta de reforma da Previdência fosse justa, o primeiro artigo deveria ser assim: ‘todos os políticos, daqui por diante, seguirão essas mesmas regras’”, disse em entrevista ao jornal Brasil de Fato.

A hastag #GreveGeral ficou durante todo o período da manhã como a palavra mais comentada no Twitter e em outras redes sociais. Em São Paulo, os serviços de ônibus e Metrô pararam desde 0h até as 8h. Na região da Grande São Paulo, seis empresas de ônibus que fazem linhas de integração também pararam. Em Guarulhos, oito empresas suspenderam as atividades no período da manhã e no ABC paulista trabalhadores de seis empresas também aderiram à manifestação. 

Ainda em São Paulo, houve paralisações dos trabalhadores dos Correios, petroleiros, bancários e de serviços de água, esgoto e meio ambiente. Um grupo de mulheres ocupou a superintendência do INSS, na região central da cidade. Professores da rede estadual, municipal e de algumas escolas particulares não compareceram às aulas. Durante a tarde eles realizaram assembleias e seguiram para a Avenida Paulista, para o ato que contará com a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em Campinas, no interior paulista, pelo menos 3 mil pessoas participaram de ato contra a reforma, que percorreu o centro da cidade. Em Santos, os trabalhadores fecharam a entrada do porto, o maior da América Latina, e a polícia reprimiu com violência. Pelo menos 10 mil pessoas participaram do movimento na cidade. O porto de São Sebastião também foi paralisado. Petroleiros atrasaram a entrada dos trabalhadores nas refinarias de Paulínia, Capuava e Cubatão.

No Rio de Janeiro, trabalhadores de pelo menos 40 escolas particulares pararam e se concentraram no Largo do Machado. A BR 356 que dá acesso ao Porto do Açu foi fechada por manifestantes. Em Minas Gerais, 150 mil pessoas foram às ruas da capital Belo Horizonte. Em Brasília, o prédio do Ministério da Fazenda permaneceu ocupado por manifestantes por nove horas.

“Esse 15 de março ficará para a história como a reação da população ao governo Temer, um governo ilegítimo. Precisamos derrotar a reforma da Previdência e a reforma trabalhista. Precisamos enfrentar as privatizações e afirmar que o Brasil tem a força da sua gente, que não aceita um governo corrupto”, disse a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), em sua conta no Twitter. Também por meio da rede social, o senador Lindbergh Faria (PT-RJ) protestou: “O próximo passo é greve geral para tirar o golpista do Planalto”. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) usou seu perfil para chamar a atenção para cruzes colocadas pelos manifestantes no gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, simbolizando “o fim da aposentadoria e quem vai morrer sem conseguir se aposentar.”

“Houve paralisação de categorias importantes do transporte, além dos químicos e dos professores. Essa proposta é um descalabro contra os direitos dos trabalhadores”, bradou o coordenador geral do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, pelo Facebook.

Falso rombo

O governo federal justifica a mudança dizendo que a Previdência é deficitária e que a reforma seria necessária para equilibrar as contas. Porém, movimentos sociais e sindicatos denunciam que Temer não leva em conta toda receita arrecadada pela Previdência para fazer o cálculo: o governo contabiliza apenas a contribuição previdenciária, que no ano passado ficou em R$ 352,6 bilhões, e os benefícios pagos, que somaram R$ 436 bilhões, apontando para um suposto déficit, segundo dados da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip).

O financiamento da Previdência prevê contribuições de trabalhadores, empresários e do governo, conforme previsto na Constituição de 1988, que instituiu novas fontes de financiamento por parte do Estado, como a Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL).