inclusão no ensino

‘Na faculdade, o negro não se vê representado dentro da sala de aula’, diz estudante

Vice-presidenta da UNE e primeira presidenta negra a assumir o Centro Acadêmico do curso de Direito do Mackenzie, Tamires Sampaio fala sobre o racismo que enfrenta na faculdade

Reprodução/TVT
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Tamires: ‘Um rapaz da minha sala disse que não concordava em estudar com beneficiários do ProUni’

São Paulo – O movimento negro teme que os direitos conquistados nos últimos anos – que já representam um tímido avanço – sejam ainda mais afetados com a atual crise política. O acesso ao ensino superior é uma das principais conquistas ameaçadas. Em entrevista à TVT, ontem (21), a vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Tamires Sampaio, fala sobre o racismo que enfrenta na faculdade. Estudante da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, ela tornou-se a primeira negra a assumir o Centro Acadêmico do curso de Direito.

Você é uma das beneficiárias de políticas públicas de igualdade racial. Como tem sido a experiência?

No meu primeiro dia de aula no Mackenzie foi um choque, porque a sala de 80 alunos só tinha três negros. Na universidade, o aluno negro entra na sala de aula, mas não se vê lá. A faxineira da faculdade é negra, o segurança é negro, isso faz com que a gente se questione “será que o meu lugar é aqui na sala de aula?”. Mas é algo que vamos lidando com o tempo.

Em 2014, nós criamos um coletivo de estudantes negros chamado Afromack, e com ele nos fortalecemos pela união.

Os outros alunos sabem da importância de haver alunos negros naquele espaço?

Depende, há alunos que acham que não deveriam estar lá. Tem uma pessoa na minha sala que disse que ‘acreditava que não deveria existir beneficiários de ProUni na mesmo sala que ele, porque a família dele investiu na educação e não poderia estar na mesma sala de alguém que não teve o mesmo investimento’. Sempre tem pessoas desse tipo.

Como você combate esse pensamento?

A gente combate com atos, palestras e debates. O Afromack fez um ato na semana passada sobre a mulher negra no Dia Internacional da Mulher. Na quinta-feira passada (17), houve uma pichação racista no Mackenzie, é a terceira vez em menos de um ano, e dizia “Fora PT! Leve os negros para a senzala”. Isso é algo violento para nós, estudantes negros. Mas na sexta-feira (18), logo de manhã, fizemos um ato na faculdade com bastante mobilização de cerca de 500 alunos para demarcar que haverá negros estudando lá.

Nas manifestações pró-impeachment, no dia 13, havia poucos negros. Já na última sexta-feira(18) havia mais negros na manifestação a favor da democracia. Qual sua opinião sobre isso?

Essa polarização do país é referente a diferentes projetos. Há um projeto de inclusão de negros na universidade, que fez o aeroporto virar rodoviária, e outro projeto que não aceita que hoje o filho da empregada está na mesma sala que o filho da doutora. A população negra luta por esse projeto que incluiu ele na sociedade, por isso fazem parte da manifestação.

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