Autonomia em risco

Universidades incomodam governo obscurantista, afirma reitor da UFBA

João Carlos Salles diz que tentativa do governo Bolsonaro de mudar escolha de reitores das universidades públicas é “intervenção inaceitável”

Arquivo UFBA
UFBA: políticas afirmativas permitem à universidade atender 200 alunos indígenas

São Paulo – O reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), João Carlos Salles, classifica como uma “intervenção inaceitável” o empenho do governo Jair Bolsonaro de mudar o processo de escolha de reitores das universidades públicas.

Na última dessas tentativas, o governo editou em 10 de junho a Medida Provisória (MP) 979, que dava ao então ministro da Educação, Abraham Weintraub, o poder de escolha dos reitores durante o período da pandemia. A MP teve uma repercussão negativa no Congresso, e dois dias depois Bolsonaro teve de revogá-la, avisado da devolução da medida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Em entrevista aos jornalistas Rodolpho Gamberini e Marco Piva, do canal no YouTube O Planeta Azul, Salles afirma que os reitores foram contra porque a vida na universidade depende de sua autonomia. “O modo especial como ela organiza ensino, pesquisa, e também gestão. O gestor deve estar ligado à comunidade, ter um vínculo essencial com os projetos de longa duração da universidade”, defende. 

“É natural que desejemos que o dirigente seja escolhido pela comunidade. E aí tivemos essa proposta de intervenção. Era simplesmente isso, porque se dizia que a pandemia não permitia nem consulta, nem a constituição de uma lista tríplice no colégio eleitoral, como prevê a legislação. É simplesmente uma intervenção absolutamente indesejável, inaceitável”, disse.

Ao comentar as razões da tentativa de intervenção, o reitor diz que avalia que as universidades incomodam o governo de Jair Bolsonaro. “E tem até razão para incomodar. Veja, se você tem um governo democrático, que preza a ciência, a cultura, que vai fortalecer a educação, a universidade se torna natural aliada desse governo”, diz.

“Agora, se você tem um governo obscurantista, que ataca a Ciência, ou por exemplo uma área específica do saber, como as humanidades, que em certa medida despreza a diversidade própria das universidades, a universidade se torna um incômodo”, destaca. 

Salles entende que as universidades públicas não são apenas produtoras de conhecimento, mas são uma forma de vida, um espaço privilegiado de confrontação de gerações, um espaço de diálogo entre saberes. “Essa forma de vida, com sua mobilização permanente de associar ciência, cultura e arte, de ser um lugar também onde os jovens se tornam cidadãos, tudo isso com essa pulsão que é própria da universidade incomoda o governo obscurantista”, diz.

Políticas afirmativas

Na entrevista, o reitor explica também que 70% dos estudantes da UFBA estão em situação de vulnerabilidade. “Significa que eles têm uma renda familiar per capita inferior a um salário mínimo e meio. Essa média parece a média nacional, mas se formos detalhar, vamos notar a participação de estudantes com renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo, e você vai notar que essa proporção é significativa, o que mostra que temos uma grande participação de alunos carentes”, afirma. Segundo ele, esse dado é importante porque suscita os cuidados que na retomada de atividades depois da pandemia e também nas ações remotas. 

“São pessoas que têm dificuldade de acesso a tecnologias digitais”, observa. Salles diz que a UFBA tem perto de 200 estudantes indígenas e que as políticas afirmativas permitem representar a composição da sociedade.

Confira a entrevista: