Ariovaldo Ramos

Mimimi ou nhenhenhém? No Brasil de Jair e Fernando, muda a sofisticação, mas o mal permanece

Com apoio do Judiciário, dos militares, do rentismo e da elite branca escravista, presidentes, toscos ou sofisticados, não toleram qualquer protesto contra o escravismo e a crueldade

Alex Pazuello/Semcom Amazonas

O presidente, questionado sobre a pandemia, disse que é hora de “parar com mimimi”, com choramingos, que é preciso, segundo ele, enfrentar os nossos problemas.

Me lembrou de um outro presidente que, questionado se sua postura seria cada vez mais neoliberal – o que contrariava até mesmo o programa de seu partido, embora hoje não contrariaria mais –, respondeu que a queixa era apenas “nhenhenhém”.

Curiosamente, o presidente que falou para parar com o mimimi, quando deputado, quis mandar para o paredão o presidente que mandou parar com o nhenhenhém.

Jair, então deputado, queria a execução do Fernando, então presidente, porque este estaria privatizando tudo. E privatizou mesmo o que pôde, vendendo tudo a preço de banana. E mais, com dinheiro brasileiro emprestado a juros generosamente subsidiados pelo BNDES. Naquele tempo, a postura do então presidente, supõe-se, inspirou a construção de um neologismo: “privataria”.

Às queixas como a do Jair de hoje, o Fernando chamou de nhenhenhém, palavra que uns acham que é onomatopeia e outros acham que uma variação da palavra tupi “nhe’eng” e que significa falação.

Igual antes

O que impressiona é que, com a sua eleição para presidente, o Jair passou a fazer como o Fernando que lá atrás criticou. Buscando privatizar tudo que consegue. E também vendendo tudo a preço de banana, além do descaso para com a virose pandêmica. E, quando questionado faz, assim como fez o Fernando, manda parar com as queixas, chamando-as de mimimi.

Segundo o Dicionário Popular, “o mimimi é uma gíria que ficou bastante popular na internet, usada para imitar ou descrever alguém que reclama demais”…

Claro, o Fernando era “sofisticado”, mas foi igualmente acusado de crueldade, embora não tenha tido que enfrentar uma pandemia. Isso por que ele é acusado de destruir a infraestrutura industrial do país. E mais: de ter inaugurado a prática de socorrer instituições financeiras, em detrimento dos trabalhadores. Também de não ter feito investimentos sólidos nem mesmo na área da educação, coisa que se esperava muito dele, por conta de sua formação intelectual.

Mais ainda, de não ter conseguido manter a moeda forte que ganhou do governo do Itamar, apesar de ter sido um de seus criadores. E de ter levado o país a sofrer apagões de energia em quase todos os estados da federação – simultaneamente e mais de uma vez –, o que poderia ser configurado como sabotagem ao país.

O Fernando não instalou o Consea (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional) responsável pela política de erradicação da fome. Mas isso o Jair também não fez. Além disso, parece, Fernando só não devastou os biomas e os indígenas brasileiros porque um professor dele visitou o país e demonstrou indignação. Foi o que levou Fernando a criar parques e a nomear um Relator Nacional de Direitos Humanos.

Só muda a faixa

O Jair não pode ser “acusado” de sofisticação, muito pelo contrário. De fato, sua contribuição à cultura nacional parece ser a redução do vernáculo ao impropério. Carrega, outrossim, não só a acusação de destruição dos biomas, como a de destruição da economia, de destruição do parque industrial, do envenenamento em massa pela liberação insana de agrotóxicos.

Também tem contra si a acusação de genocida, por sua inércia diante da pandemia, por sua inação frente a violência contra indígenas e negros. Também é acusado de promoção da violência entre civis, graças à sua apologia ao armamento da população, que agora com Jair pode comprar armas “leves”, como revólveres, pistolas, espingardas e rifles.

Ah! Sim, o Jair, que mandou parar com o mimimi, aprofundou o que o Michel, que lhe passou a faixa, havia feito. Desmontou todos os direitos dos trabalhadores. O Michel, uma pessoa “sofisticada”, também esteve envolvido com o termo mimimi, só que sob a acusação de ter choramingado numa famosa carta que escreveu para a então presidenta. Mulher, aliás, que logo depois, junto com outros “chorões”, tiraria do poder por meio de um golpe parlamentar. Golpe que recebeu um grande apoiador: ele mesmo, o Jair.

Tanto o Fernando, como o Michel e também o Jair, contaram e ainda contam com apoio do Judiciário, dos militares, do rentismo e da elite branca escravista. E para estes, qualquer protesto contra o escravismo e a crueldade é “nhenhenhém” ou “mimimi”…

Muda a sofisticação, mas nunca a malignidade!

Ah! Os Evangélicos só não gostavam do Fernando!


RBA

Assista também ao Daqui pra Frente, parceria da TVT com a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito


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