Estrutural

Pastor Ariovaldo Ramos: do coração procede o mal

Quando todo dia tem uma cena de racismo explícito, sempre violento e, por vezes, assassino, a fala de Jesus ganha o cenário

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Cena explícita de racismo estrutural que marcou a semana no país. Sem profundas transformações, sociedade seguirá reproduzindo sistema ilegítimo de castas

Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.

Mt 12.34

Essa fala de Jesus Cristo é reveladora.

Propõe que os lábios não conseguem manter em silêncio o que está a transbordar do coração, isto é, não dá para deixar de manifestar o que a pessoa sente, ou pensa, ou deseja quando isso já tomou todo o seu jeito de ser, e aumenta a pressão sobre a consciência, obrigando a verbalização.

Quando se percebe a multiplicação das falas e atos racistas, quando todo dia tem uma cena de racismo explícito, sempre violento e, por vezes, assassino, essa fala de Jesus ganha o cenário.

Os protagonistas são os mais diversos, representando uma ampla gama da sociedade brasileira: membros do judiciário, agentes policiais, cidadãos comuns, donas de casa, empresários. Todos tendo como identificação comum a sua branquitude.

Alguns perguntam onde tudo isso estava? Jesus responde: no coração. E mais: categoriza como maldade. Portanto, uma maldade quase atávica, quase biológica.

No caso do racismo praticado no Brasil, poderia se dizer tratar-se de um comportamento residente no que é chamado de branquitude. Comportamento que, inclusive, se manifesta de forma sistêmica, uma vez que é estruturante na sociedade, que explica a letalidade policial para com os pretos e pretas, como entendo dizer o professor Silvio Almeida em seu texto, Racismo Estrutural.

Em mais uma destas repetidas cenas de racismo, um dos agressores mostrou ao agredido a cor de sua pele, dizendo que este queria ter essa cor, que tinha inveja. Pois o agressor nasceu branco, nasceu na cor “invejada” pelo agredido. Aliás, em cena semelhante, num estádio de futebol, outro agressor dirigiu-se ao agredido de então, que exercia a autoridade para dissuadir uma briga de torcidas, dizendo: “Olha a sua cor!”

Nessas falas, os agressores sintetizaram o coração da branquitude: a cor lhe confere mérito, o que o destina a ser senhor, enquanto que aos pretos e pretas está destinada a servidão. Logo, é uma relação de castas.

É disso que se trata: uma relação de castas. Isto constrói a forma como se vê e se é visto. Nada dilui isto. Nem a educação nem a ascensão econômica.

A casta fala de destino, é um pressuposto: a casta inferior existe para servir a superior. É o resultado de quatro séculos de escravização.

Não há como construir nação se isso não for tratado na profundidade que merece. Isso passa por conscientização, por ações afirmativas, por revisão e correção da história, passa por um grande movimento de arrependimento e por intenso processo pedagógico.

Lembremo-nos: enquanto houver racismo não haverá democracia!