Rei bom?

‘Sebastianismo’ em Marina pode fazer Brasil perder bonde da história

Assim como a queda de Constantinopla levou Portugal e Espanha a abrir a era das navegações e descobertas, a atual crise mundial obriga países a buscar caminhos diferentes dos construídos sob a ordem do século passado

Dom Sebastião

Sebastião acreditava na expansão da fé e que seria o ‘capitão de Cristo’ em nova cruzada contra os mouros

No fim da Idade Média, a queda de Constantinopla (hoje Istambul) causou uma crise econômica na Europa com o declínio do comércio com o oriente. Guardadas as devidas proporções e contextos, podemos fazer uma analogia com a crise mundial iniciada nos Estados Unidos em 2008, alastrada para a Europa, com consequências para todo o mundo, e que se estende até hoje.

Assim como a crise de Constantinopla levou Portugal e Espanha à busca de outras rotas para o comércio com o oriente, abrindo a era das grandes navegações e descobrimentos, a atual crise mundial também obriga países a buscar novos caminhos, diferentes dos tradicionais construídos sob a ordem mundial do século passado.

No passado, Vasco da Gama abriu um novo caminho para Portugal dominar o comércio com as Índias, contornando a costa africana.

De forma semelhante o Brasil, que já havia expandido seu comércio com a América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, agora aliou-se à China, Rússia, Índia e África do Sul, países que compõem o chamado Brics, para criar o Novo Banco de Desenvolvimento e o fundo de reserva para contingências. São alternativas multilaterais para potencializar o desenvolvimento desses países e seus aliados, contornando o domínio pelos Estados Unidos e Europa sobre o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Portugal chegou a ser a maior potência do mundo por volta de 1570, dominando rotas comerciais pelos mares e portos que iam de Nagasaki, no Japão, passando pela China e Índia.

Mas o jovem rei dom Sebastião, de grande fervor religioso e militar, resolveu reviver as glórias do passado das cruzadas e intervir no Marrocos. Perdeu a batalha de Alcácer-Quibir em 1578, onde morreu (desapareceu para os místicos) aos 24 anos sem deixar herdeiros.

Sem filhos, a sucessão ao trono português foi disputada por outros parentes, entre eles o rei Felipe II de Espanha, que acabou assumindo em 1580, fazendo Portugal ficar décadas sob domínio do trono espanhol e perder sua condição de grande potência.

Isso mostra como as decisões equivocadas de dom Sebastião levaram Portugal a perder o bonde da história.

Se olharmos para o programa de governo de Marina Silva nos capítulos que falam sobre economia e política externa, vemos que há equívocos gravíssimos que, se aplicados, levariam o Brasil a perder o bonde da história também. O programa obedece ao velho receituário de arrocho e desemprego do Consenso de Washington, já falido, e se submete às diretrizes gerais da política externa dos Estados Unidos, com um deslumbramento que só existia no século passado. É tão nocivo ao desenvolvimento nacional retroceder nas novas rotas desbravadas para o comércio exterior e na geopolítica brasileira dos últimos anos quanto foi para Portugal ficar sob domínio da coroa espanhola.

‘Rei bom’

Por falar no misticismo em torno do desaparecimento de dom Sebastião, foi dele que surgiu o sebastianismo, um movimento messiânico que acreditava na salvação da pátria por meio do retorno de um “rei bom”. A lenda chegou a influenciar brasileiros. Antônio Conselheiro pregava em Canudos que dom Sebastião iria retornar dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil.

Apesar das incontáveis surpresas que seu plano de governo, suas declarações ou as de seus assessores têm proporcionado, não há, claro, nenhuma menção sobre dom Sebastião. Mas não deixa de haver semelhanças na pregação da suposta “nova política” com a ideia despolitizada de salvadora da pátria em vez de defender uma reforma política estruturante. É muito semelhante à pregação sebastianista de cair do céu um “rei bom”.