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Número 34, Abril 2009

esporte

Presente de grego

Mesmo com a decadência do basquete brasileiro, o atual mandachuva da confederação nacional ainda quer mais quatro anos de mandato
por Fernando Gavini publicado 04/04/2013 12h25, última modificação 01/03/2018 10h53
Mesmo com a decadência do basquete brasileiro, o atual mandachuva da confederação nacional ainda quer mais quatro anos de mandato
LULUDI/AE
basquete

Oscar conduz a bola em Atlanta, em 1996, na última participação do basquete brasileiro masculino em Olimpíada

Para todas as modalidades, com exceção do futebol, a Olimpíada é o evento máximo. É a competição para a qual atletas de todo o mundo se preparam durante quatro anos, para disputá-la no auge da forma. Durante os Jogos se tem a exata noção do estágio em que se encontra cada um dos participantes. Para o basquete brasileiro, essa referência foi a pior possível. Em Pequim, em 2008, a seleção feminina terminou em penúltimo lugar, enquanto a masculina nem sequer se classificou. “Não se julga uma administração porque uma seleção foi ou não para uma Olimpíada. Isso é basquetebol, que se decide em uma bola, num simples detalhe de uma bola que caiu ou não caiu”, defende-se Gerasime Bozikis, o Grego, há 12 anos presidente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).

Desde que foi fundada, em 1933, a CBB teve apenas seis presidentes. O recordista, almirante Paulo Martins Meira, ficou de 1938 a 1975. Esse período, porém, teve alguns pontos altos. O Brasil foi, no masculino, duas vezes campeão mundial (1959 e 1963), duas vezes vice (1954 e 1970) e uma vez terceiro (1967). O feminino foi terceiro em 1971. Em Jogos Olímpicos, foram três medalhas de bronze (1948, 1960 e 1964) conquistadas pelos homens. Grego só perde para Meira no quesito tempo de permanência como presidente da CBB. Mas, diferentemente do recordista, foi justo no começo do primeiro mandato do atual homem forte do basquete brasileiro que começou a decadência da modalidade no país.

O masculino nunca mais se classificou para a Olimpíada. A última vez foi em 1996, em Atlanta, quando Renato Brito Cunha era o presidente e Oscar despediu-se da seleção. No feminino, o auge aconteceu pouco antes da era Gerasime Bozikis começar. Com Hortência, Paula e Janeth em grande fase, o Brasil ganhou o Mundial de 1994 e faturou a prata olímpica em 1996. Depois das duas conquistas, Hortência e Paula se retiraram das quadras. Houve ainda bons resultados com o bronze em Sydney 2000 e o quarto lugar em Atenas 2004 e nos Mundiais de 1998 e 2006. Mas Janeth também abandonou a carreira e a geração que brilhou por tantos anos não teve, a exemplo do masculino, sucessão. O esporte no país dependia demais dos talentos que tinha e não os aproveitou da maneira adequada para criar a devida estrutura para a modalidade.

A situação do basquete feminino é ainda mais complicada. Entre os homens, pelo menos, há talentos capazes de fazer com que o Brasil consiga melhorar seus resultados. O armador Leandrinho e os pivôs Nenê e Anderson Varejão têm se destacado na NBA e Thiago Splitter, na Europa. Difícil é conseguir juntá-los numa mesma convocação. No Pré-Olímpico de 2008, em Atenas, o técnico espanhol Moncho Monsalve convocou 16 jogadores, mas só dez se apresentaram. Por motivos diversos, Leandrinho, Varejão, Nenê, Valtinho, Guilherme Giovanoni e Paulão não aceitaram o chamado. “Desse jeito, e com 20 dias de preparação, não há técnico que faça milagre”, afirma Wlamir Marques, bicampeão mundial com os times de 1959 e 1963.

“A CBB tem dinheiro e poder para mudar as coisas, mas não faz. Falta é uma escola de basquete brasileiro. Hoje qualquer um pode ser técnico. Deveria ser obrigatório fazer um curso para ser treinador e haver intercâmbio com técnicos do exterior. Estamos trabalhando muito mal a base. Na Argentina existe uma escola de basquete. O estilo é seguido por todos os técnicos. Eles trabalham para o país, e aqui cada um trabalha por si”, reclama Wlamir.

Promessas

Uma das promessas de Grego para continuar no cargo é que a seleção será forte a partir do novo ciclo olímpico que começa neste ano. “A seleção será constituída dos nossos melhores jogadores. Todos vão jogar num projeto de quatro anos, teremos um grande time. Com o que temos de melhor, não devemos nada a ninguém”, afirma Grego, em tom de campanha para se reeleger no próximo dia 5 de maio.

Pesa contra ele a bagunça em que se transformaram os campeonatos nacionais nos últimos anos. Brigas com clubes, formação de ligas paralelas e uma temporada em que não houve um campeão brasileiro foram alguns dos acontecimentos durante a gestão Grego. Em outra possível manobra eleitoreira, o dirigente aceitou deixar nas mãos dos clubes a organização, com apoio da CBB, do campeonato nacional – depois de anos de relutância. E a NBB, a nova liga criada, virou parte da campanha para a reeleição.

Grego terá dois adversários em maio, ambos presidentes de federações estaduais e antigos aliados. Carlos Nunes, do Rio Grande do Sul, ex-assessor do atual dirigente, e Toni Chakmati, da federação paulista, ex-vice-presidente de relações internacionais da confederação. “Rompi com o Grego em 2006. Ele se acha o dono do basquete, não ouve ninguém na hora de tomar as decisões”, explica Chakmati. Grego é  favorito. Têm direito a voto os presidentes das 27 federações estaduais filiadas à CBB. “Muita federação nem faz campeonato, no máximo organiza alguma coisa em nível colegial. Ceará e Maranhão são exemplos disso. E têm o mesmo direito a voto que São Paulo, basquete mais forte do país. Assim fica fácil manipular, basta um convite para ser chefe de delegação ou um saco de bolas novas para garantir o voto”, diz Wlamir Marques. E assim Grego se mantém por tanto tempo presidente – e confia em sua continuação no poder.

Quem mais parece estar se mexendo é Carlos Nunes. No lançamento oficial da candidatura, o gaúcho anunciou que, uma vez eleito, Hortência vai cuidar do basquete feminino e gente de fora da modalidade será convidada para ajudar, como José Carlos Brunoro. Os técnicos José Medalha e Miguel Ângelo da Luz estiveram presentes, além dos ex-jogadores Pipoca, Carioquinha e Marquinhos e mais 14 presidentes de federações. “Estamos formando esse grupo e montando a candidatura há um bom tempo, mas precisamos buscar novas composições”, acredita Nunes.

Se todos os confederados presentes confirmassem os votos, Nunes desbancaria Grego, que garante ter o apoio de 18 estados. Ou alguém está errando a conta – afinal, são apenas 27 federações – ou tem gente articulando por todos os lados à espera de quem vai oferecer mais vantagens até a hora do voto. Chakmati teve problemas de saúde no começo do ano e está um passo atrás na disputa, mas a influência de São Paulo no basquete nacional não deve ser desprezada. Ele quer mudar o estatuto da CBB: “Temos de limitar a apenas uma reeleição e é preciso que o vice-presidente também seja votado, e não nomeado. O estatuto hoje favorece a ditadura”.

Infelizmente, não serão as propostas dos candidatos que vão definir a eleição, mas os bastidores, a troca de favores. Quem puder mais vai chorar menos. Triste basquete brasileiro.

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