Retrato
Na brandura dos porões
Por: Jailton Garcia e Paulo Donizetti de Souza
Publicado em 05/04/2009
Em editorial do dia 17 de fevereiro, a Folha de S.Paulo chamou de “ditabranda” o regime vigente no Brasil entre 1964 e 1985 e indignou leitores. “Quantos mortos, desaparecidos e expatriados são necessários para uma ‘ditabranda’ ser chamada
de ditadura? É um tapa na cara da história da nação”, escreveu Sérgio Pinheiro Lopes. O jurista Fábio Konder Comparato e a socióloga e cientista política Maria Victoria Benevides também protestaram. O jornal qualificou a indignação de “cínica e mentirosa”, respondeu que na comparação com outros regimes na região “a ditadura
brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”. Em desagravo aos intelectuais e às vítimas da ditadura, centenas de pessoas se manifestaram em frente ao prédio da Folha, dia 7 de março. Entre elas estava Criméia Alice Schimidt de Almeida.
Aos 26 anos e grávida de 7 meses, Criméia, então militante do PCdoB, ficou nos porões do prédio da Operação Bandeirantes, em São Paulo, e no Pelotão de Investigações, em Brasília. Foi brutalmente torturada. Seu filho João Carlos nasceu em 1972, no Hospital
do Exército. Era mantido sob a ameaça de ser tirado da mãe. Virou instrumento de tortura. O bebê foi entregue desnutrido a uma prima aos 52 dias. “Passou a infância tendo pesadelos, gritava e convulsionava. O neurologista lhe deu alta aos 10 anos, disse que isso era um trauma”, conta Criméia. Depois da manifestação, a Folha assumiu ter errado ao empregar a expressão “ditabranda”, mas sustentou a retórica de considerar a ditadura brasileira menos repressiva que as congêneres no continente. “O Frias manteve sua
arrogância, agrediu a toda a sociedade”, rebateu Criméia.
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