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Número 28, Outubro 2008

retrato

A causa de Edgar Jotz

por Cristiano Estrela publicado , última modificação 29/11/2017 14h28
Cristiano Estrela
padre

Edgar Jotz nasceu há 78 anos em Alto Feliz (RS). Tornou-se padre e agora completa meio século à frente da Paróquia Santa Cecília, no bairro de mesmo nome na capital gaúcha. Ali ergueu e coordenou uma creche para 30 crianças pobres na Vila das Placas e apoiou outra na Ilha das Flores, organizou passeatas ecológicas, cobrou fraternidade da população para as pessoas com deficiência, mobilizou a prefeitura para o plantio de árvores, ampliou as instalações do Colégio Santa Cecília, recebeu o título de Cidadão de Porto Alegre, de Líder Comunitário da Câmara Municipal e a medalha Cidade de Porto Alegre.

Durante a ditadura, Jotz abrigou estudantes paulistas procurados pelos militares. A ousadia custou-lhe seis dias de prisão no Dops. O episódio é descrito no livro Batismo de Sangue, do dominicano Frei Betto. Orientado a mudar de igreja, e de cidade, o padre preferiu ficar, apoiado pelos que já conheciam seu trabalho e acreditavam nele. Apesar de estar com a saúde comprometida pelas diversas cirurgias feitas nos últimos anos – cordas vocais, próstata, rim, coração, pulmão –, Edgar caminha com passos precisos até o local onde armazena os alimentos distribuídos para sete comunidades carentes. Mensalmente, a igreja arrecada quase 4 toneladas. As cordas vocais debilitadas já o afastaram dos sermões há um ano. Mesmo assim, o pároco saca da maleta preta o instrumento que aprendeu a tocar ainda nos tempos de seminarista. Dedilha os teclados do órgão com uma das mãos, com a outra segura as cifras, e solta a voz. Nesse momento, o brilho dos olhos azuis por detrás dos óculos sobressai, embalado pelo louvor à causa que escolheu para a vida.

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