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Número 23, Abril 2008

viagem

Serra de gigantes

Cânions encaixados entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina escondem a grandiosidade da natureza em estado bruto
por João Correia Filho publicado , última modificação 30/10/2017 12h22
Cânions encaixados entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina escondem a grandiosidade da natureza em estado bruto
João Correia Filho
serra cambara

O viajante que chega a Cambará do Sul por outro motivo que não a aventura talvez nem atine que está bem próximo de algumas das paisagens mais incríveis do sul do Brasil. Insuspeita, salvo pelo fato de possuir vários hotéis e pousadas, a pequena cidade gaúcha é pouco mais que uma pracinha com igreja, alguns bares, restaurantes e meia dúzia de ruas que se encerram rapidamente em estradas de terra. Nessas estradas começam os passeios a dois dos parques nacionais mais visitados do país, o Parque Nacional de Aparados da Serra e o Parque Nacional da Serra Geral, vizinhos na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina e administrados pelo Ibama. Ambos conhecidos por seus cânions monumentais e infinitas cachoeiras.

A formação, de aproximadamente 140 milhões de anos, é resultado de um gigantesco derramamento de lava que cobriu boa parte do Brasil, de Mato Grosso ao Rio Grande do Sul. Enquanto as lavas esfriavam e se solidificavam, foram recobertas por camadas de areia levadas pelo vento. Uma camada de arenito mais frágil fragmentou-se ao longo do tempo. Os rios que se formaram na região terminaram a escultura, desgastando a terra e criando imensas fendas na pedra. A poucos quilômetros de Cambará do Sul, tudo despenca quase mil metros, até o litoral, formando uma grande ranhura, como se alguém tivesse arranhado as rochas abruptamente, como se tivessem aparado a serra. Daí o nome da região.

O passeio básico para quem chega é seguir até a sede do Parque de Aparados, que possui ótima estrutura, com lanchonete, trilhas bem demarcadas e um centro de atendimento ao turista. De lá saem duas trilhas, a do Cotovelo e a do Vértice, que cruzam o mais famoso cânion do parque, o Itaimbezinho. Mesmo a mais longa, a do Cotovelo, não oferece dificuldades – pouco mais de hora e meia de caminhada (ida e volta) numa trilha bem aberta, praticamente uma estrada.

Se o trajeto não traz grandes novidades, a paisagem, ao final, é simplesmente estonteante, em todos os sentidos da palavra. Um mirante estrategicamente posicionado dá a incrível visão de algo incomensurável, que desce abruptamente do horizonte ao fundo do vale, onde está o Rio do Boi. Mesmo depois de dezenas de fotos já vistas, o local impressiona por sua grandiosidade. São 5,8 quilômetros de extensão e mais de 600 metros de profundidade. A coloração cinza das pedras contrasta com a vegetação que cobre o platô achatado, verde, e salta aos olhos. Algumas araucárias sobressaem e compõem com as cachoeiras linhas verticais que se perdem no horizonte. Pessoas que vão e vêm pelas trilhas dão a dimensão daquele lugar: parecem formigas frente aos paredões de pedra.

Em poucos minutos, tudo pode se cobrir de uma névoa espessa, que torna o horizonte um branco infinito e não permite ver um palmo à frente. Foi o que aconteceu na Trilha do Vértice, que leva à cascata das Andorinhas. Um pequeno mirante, com uma cerca que protege do grande desfiladeiro, é o ponto ideal para uma foto. Enquanto observo a paisagem, uma família chega até a beira do penhasco para que um dos integrantes do grupo aponte sua câmera. Família numerosa, alguns minutos perdidos para decidir quem fica onde e pronto, na hora do clique a paisagem desaparece, como se nada mais houvesse por ali.

Outra estrada que sai de Cambará do Sul leva direto para o Cânion Fortaleza, no Parque da Serra Geral. É possível chegar com o carro até bem próximo da encosta, a 15 minutos de caminhada. Já vale a visita, embora a grande atração do lugar exija um pouco mais de fôlego: são quase dois quilômetros morro acima para chegar ao topo do Fortaleza. A recompensa é uma visão de todo o cânion e dos arredores da serra. Do alto vemos pessoas que se embrenham em outras trilhas. Uma delas para a Pedra do Segredo, uma rocha que se equilibra numa base de pouco mais de um metro. Mas a grande visão é a Cachoeira do Tigre Preto, que desce centenas de metros vale abaixo.

Por dentro do gigante

Para os mais bem preparados fisicamente há um passeio, permitido apenas com guias, que segue por dentro do Cânion do Itaimbezinho, margeando o Rio do Boi. Quem está em Cambará do Sul precisa descer até a cidade de Praia Grande, já praticamente ao nível do mar. Isso significa seguir de carro por uma estrada que vai serpenteando o cânion próximo a desfiladeiros. Não oferece grande perigo, mas chega a gelar a barriga dos menos habituados a esse tipo de estrada. Em Praia Grande o ideal é procurar a associação de condutores locais para ecoturismo, com ótimos guias por preço bem razoável. São sete horas de trilha, ida e volta, por caminho plano e pedregoso. Segue-se de carro até uma guarita do parque e depois a pé.

Logo no começo, nossa guia, Gezaela Reis, chama atenção para um pequeno galho repleto de gafanhotos negros, espécie característica da região. Contrastando com a grandiosidade do lugar, estão centenas de pequenas espécies que compõem o micro-habitat das serras gaúchas. Mais à frente, a surpresa foi maior: uma cobra, enrolada próxima a um pequeno totem de pedras, feito por guias que passaram por ali antes, para sinalizar o perigo.

A paisagem ampla, aberta, vai se fechando cânion adentro. Surgem cachoeiras formadas por rios que nascem no alto da serra e pela água da chuva, que ainda não chegou até nós. Algumas dessas quedas d’água são perenes e ponto de parada para os visitantes, que descansam ou fazem seu lanche próximo às piscinas naturais.

Os momentos mais emocionantes do passeio ficam por conta das travessias do rio, pois a trilha muitas vezes obriga o visitante a cruzá-lo para prosseguir. A maioria atravessa de mãos dadas, formando uma corrente humana, para se equilibrar na correnteza. Embora o Rio do Boi não seja profundo, todo cuidado é pouco quando se trata da natureza. Gezaela conta que ali as coisas podem mudar a qualquer momento: uma chuva pode tornar o rio mais violento em questão de minutos e dificultar a travessia. Em caso de chuvas muito fortes, é preciso usar as trilhas de emergência, pela mata, longe do rio.

Passadas algumas horas de caminhada as nuvens começam a ficar mais escuras, até desabar. A ordem é voltar imediatamente para que o rio não se torne mais perigoso até o retorno. A volta é mais rápida, e todos estão encharcados, exaustos. E satisfeitos.

Aventure-se

Parque Nacional de Aparados da Serra
De quarta a domingo, das 9h às 17h. Em feriados, abre nas segundas e terças, mas é aconselhável confirmar. Ingresso a R$ 6 (exceto crianças até 7 anos e idosos acima de 70). Estacionamento a R$ 3 (moto), R$ 5 (carro) ou R$ 10 (ônibus).

Parque Nacional da Serra Geral
Não possui estrutura para receber visitantes, mas uma guarita determina o horário de funcionamento, das 8h às 17h. Não cobra ingresso.

Cambará do Sul
Informações Turísticas: (54) 3251-1320. www.cambaraonline.com.br

Praia Grande
Associação de Condutores: R. Frei Protásio, s/n°, Centro, Praia Grande, SC, tel. (48) 3532-1414. www.apce-sc.com.br