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Seletividade de informações e censura são os perigos do combate às 'fake news'

Sob a alegação de combater a divulgação de notícias falsas, Facebook, justiça eleitoral e mídia comercial tentam ocupar o lugar da sociedade para decidir o que é, ou não, apropriado para os leitores
por Redação RBA publicado 15/01/2018 16h55, última modificação 15/01/2018 18h31
Sob a alegação de combater a divulgação de notícias falsas, Facebook, justiça eleitoral e mídia comercial tentam ocupar o lugar da sociedade para decidir o que é, ou não, apropriado para os leitores
Paul Sableman/WIKIMEDIA COMMONS
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Durante a corrida eleitoral de 2016, nos Estados Unidos, o atual presidente Donald Trump se beneficiou do uso das fake news

São Paulo – A apresentação de conteúdos no Facebook vem mudando nos últimos tempos, porque a empresa decidiu alterar os algoritmos que determinam as informações que aparecem na linha do tempo de cada internauta. Cada vez mais, as postagens pessoais que se relacionam com os interesses de cada um e os links patrocinados ganham prioridade, sustentados pelo argumento do combate às notícias falsas, que têm sido identificadas como fake news.

Essas mudanças, no entanto, têm ocorrido em prejuízo dos serviços de notícias, que cada vez menos conseguem ganhar repercussão no Facebook. "Essa preocupação com fake news é uma das coisas mais fakes que tem para organizar uma coisa perigosa, que é a seletividade e a censura na rede", afirma o membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, Sérgio Amadeu.

Além da ação do Facebook, o combate às notícias falsas está se tornando pauta do Judiciário e da mídia comercial neste ano no país, em que supostamente a realização de eleições deve acirrar o debate sobre as notícias falsas. Entretanto, Amadeu acredita que há outros dois métodos que também deveriam receber atenção da Justiça Eleitoral: os próprios algoritmos das redes sociais e o marketing político.

Amadeu explica que os algoritmos podem criar censura nas redes sociais, isso porque este tipo de código virtual, permite, por exemplo, que notícias pagas sejam impulsionadas para que apareçam com prioridade nas timeline pessoais.

"O Facebook funciona com o algoritmo. Quando você faz uma postagem, repare que alguns amigos seus vão ter acesso a essa postagem na linha do tempo e outros, não. Quem decide isso é o algoritmo e eles são opacos, nós não sabemos como funcionam", alerta.

Para ele, tem também uma coisa "muito pior" que o fake news: o marketing eleitoral. "O que ele  faz? Exagera as características positivas do seu candidato e diminui as características negativas, criando uma situação de desvirtuamento da verdade, e isso não está preocupando a Justiça Eleitoral. Então, a preocupação com o fake news é uma das preocupações mais falsas que tem, servindo para organizar a seletividade da censura na rede", critica o especialista.

Já o secretário-executivo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Guilherme Alpendre, fala sobre as ameaças para categoria jornalística como o direito à liberdade de expressão, caso a Polícia Federal comece a coibir as chamadas notícias falsas na internet.

"O que nos preocupa na questão da fake news é exatamente isto: quem vai definir o que é fake news? Num artigo de opinião, se eu discordar de você, talvez, um diga que o outro está mentindo. A partir daí, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Eleitoral vão decidir quem tem razão?", indaga Alpendre.

O membro da Abraji afirma que a solução para combater o compartilhamento de notícias falsas é a educação. "Quando uma pessoa lê uma notícia com um senso crítico, facilita o trabalho de cada um separar o joio do trigo. A internet democratizou de forma exponencial o acesso a diferentes opiniões, isso não pode ser ruim, mas é preciso que todo mundo saiba navegar nesse mar de opiniões".

As entrevistas fazem parte do quinta e sexto episódio da série fake news, da TVT. Confira abaixo: