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Dom Quixote de Los Andes

Ruta Inka leva a um encontro com a cultura dos povos que habitavam o noroeste da América do Sul antes da colonização

Natalia Viana
expedicao

Dizem que Laguna de Telpis tem um espírito. “Quando está brava porque está muito barulho, ela começa a fazer ondas e chama a chuva para afastar os visitantes”, diz Jesus Omar Oban, morador do pequeno vilarejo de Yacuanquer, no sul da Colômbia, próximo à lagoa. No dia 6 de julho, ela parecia mesmo irritada. Pudera: éramos mais de 45 jovens de todos os cantos da América Latina – e alguns europeus – que, depois de duas horas e meia de caminhada pesada pelas montanhas verdejantes da cadeia dos Andes, chegávamos a 3.600 metros para poder finalmente apreciar a bela vista da lagoa.

Era um dos primeiros dias da Ruta Inka, expedição organizada por comunidades andinas que leva jovens para conhecer sua cultura e história. Eles pagam US$ 300 para participar de 40 dias de peregrinação por comunidades que integraram o Tahuantinsuyu, o Império Inca, que chegou a se estender do sul da Colômbia ao norte do Chile a partir de meados do século 15 até a conquista espanhola, no século 16.

A cada temporada o percurso é diferente. Este ano teve início em 4 de julho na cidade de Pasto, no sul da Colômbia, passando por vilarejos e reservas naturais, até chegar ao maior sítio arqueológico do Equador, Ingapirca, centro-sul do país, em 12 de agosto.

O objetivo, segundo o idealizador, Ruben la Torre, é restaurar a autoestima das comunidades indígenas e propagar a rica cultura andina mundo afora. “Agora que a ONU fez uma declaração sobre os direitos dos povos indígenas, há cada vez mais interesse em recuperar a cultura, da qual sempre nos ensinaram a ter vergonha por tanta agressão que existe na sociedade.”

Antes de largar tudo para se dedicar à Ruta Inka – que organiza praticamente sozinho e sem patrocínio de nenhum governo –, Ruben la Torre, descendente de índios quíchuas, foi diplomata no serviço peruano por dez anos.

“Eu mesmo, quando estava no serviço diplomático, sentia vergonha de não ter um dos grandes sobrenomes espanhóis. É isso que tratamos de reverter na Ruta Inka, dizendo, ‘por que se envergonha de ser inca, de ser indígena?’ Os melhores estudantes do mundo veem pela sua cultura, porque a outra está em crise. Veja a ecologia, por exemplo, os incas foram precursores no respeito à natureza.”

vitor taveiraIbarra
Ibarra, Equador

Mingas comunitárias

O projeto nasceu quando Ruben foi encarregado de dar apoio à Ruta Quetzal, uma iniciativa patrocinada pela coroa espanhola e pelo grupo financeiro BBVA que leva jovens europeus para conhecer o caminho inca mais conhecido, entre Quito, no Equador, e Cuzco, no Peru. “Os indígenas apresentam danças típicas, mas eles participam mais como espectadores, não é um evento deles”, conta Ruben. “E o slogan era: ‘Vamos seguir o trajeto de Antonio de Ulloa, que foi um conquistador’. Claro, na visão deles.”

A irritação de Ruben – que chama a Ruta Quetzal de “neocolonialismo” – foi se transformando numa ideia absolutamente quixotesca. E bela. Essa viagem muda a visão de como chegamos destruindo algumas culturas durante a colonização”, diz a espanhola Alba Juárez Pizarro, de 18 anos. “A gente aprende mais sobre o ponto de vista do colonizado, porque na Espanha aprendemos a história do ponto de vista dos conquistadores.”

Para tornar a expedição realidade, todo ano Ruben percorre dezenas de comunidades andinas para engajar as autoridades na empreitada. Cada povoado fica a cargo de receber e alojar os visitantes, preparar eventos e conversar com os expedicionários sobre a sua cultura.

“Fazemos como os incas faziam na época do império, as mingas comunitárias, em que moradores de uma região trabalhavam voluntariamente para construir uma ponte ou uma estrada que no final ia beneficiar a todos”, diz Ruben. “Apesar da falta de apoio dos governos, conseguimos fazer o verdadeiro turismo comunitário, onde se pode vivenciar o dia a dia.”

E é assim mesmo. Ao longo de todo o trajeto para a Laguna, fomos acompanhados por diversos moradores, orgulhosos em mostrar as belezas naturais e contar histórias tradicionais da região. Na volta, uma refeição oferecida pelo prefeito da cidadezinha trazia banana, choclo, um típico milho andino, e habas, um tipo de feijão-verde. Sentados no chão, todos saboreavam os alimentos locais, e ninguém reclamava da falta do luxo típico das excursões turísticas tradicionais. 

A mesma recepção carinhosa se repetiu durante toda a expedição. Num vilarejo próximo à cidade de Pasto, visitamos uma festa típica de celebração às guaguas de pan – pães caseiros em formato de bebês, especialidade da culinária local. Os expedicionários receberam o quitute de presente e ainda foram nomeados cumpadres da festa, celebrada com muita música e danças tradicionais andinas.

Natalia Vianacomida
Comidas típicas de Obonuco, Colômbia

Gente parecida

A excursão também não ficou devendo em belezas naturais. Um exemplo foi a visita à bela Isla Corota, que fica na Laguna de la Cocha, no sul da Colômbia, onde as águas espelhadas sustentam casebres de madeira para os habitantes locais. Outra paisagem de tirar o fôlego foi a Laguna Verde, uma lagoa sulfurosa que fica na boca do vulcão Azufral, em Túquerres, na mesma região. A caminhada foi mais uma vez organizada pela administração local e terminou com o ritmo de La Guaneña e pratos típicos da região. Tudo com muita festa e muita dança.

Outro momento marcante foi no Cabildo Indígena Quillasinga, uma organização de tribos indígenas do sul colombiano onde os expedicionários participaram de rituais de purificação com incenso. Na sincrética cerimônia de abertura da sessão, em que os estudantes conversaram longamente sobre as tradições e costumes dos indígenas, as lideranças passam um bastão e pedem bênçãos à Virgem Maria e a Pachamama, a divindade suprema da cultura andina: a Mãe Terra.

Durante o percurso, os estudantes ficam hospedados em batalhões do Exército, compartilhando a comida, os horários e as histórias dos oficiais. “Estou feliz de estar aqui, porque sempre ouvimos falar do Exército, mas agora, conhecendo de perto os soldados, tenho mais respeito pelo trabalho deles”, diz o colombiano Carlos Francisco Arcila Salamanca, sentado em um dos beliches do Batalhão Militar de Boyacá, em Pasto.

“Aqui estou vivendo a cultura do país, vendo como vivem as pessoas daqui, os indígenas”, diz a carioca Juliana Corrêa Brandão, de 20 anos, segunda brasileira a participar da Ruta Inka. “Os brasileiros não têm muito interesse em conhecer os países que estão perto, preferem ir para a Europa ou os Estados Unidos. Mas eu acho que a gente é muito parecida com os outros sul-americanos – o jeito de tratarem as pessoas, as brincadeiras, o modo como são receptivos… E precisa estar no meio deles para ver isso.” 

Natalia VianaLaguna Telpis
Laguna Telpis, no sul da Colômbia

Novos rumos em 2010
No próximo ano, a Ruta Inka comemora dez anos e vai fazer um percurso mais ousado: serão 70 dias desde a Bolívia até a Guatemala, passando por Panamá, Costa Rica, Nicarágua e Honduras. “Vamos ao encontro dos maias, que também são nossos irmãos”, orgulha-se Ruben. Mais informações no site www.rutainka.net.

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