Origens

Filippi: PT vai recuperar força política mostrando efeitos de suas gestões na vida das pessoas

De volta à prefeitura de Diadema, para seu quarto mandato, Filippi reconhece dificuldades, mas preserva o otimismo. “A nossa vitória é motivo de esperança para o PT e, ouso dizer, para o Brasil”

Reprodução/Montagem RBA
Eleito pela quarta vez em Diadema, Filippi quer mostrar resultados positivos de políticas públicas na vida das pessoas. No plano nacional, como diz Lula, muito diálogo

São Paulo – Eleito no último domingo (29) com 106.849 votos (51,35% dos válidos, contra o empresário Taka Yamauchi, do PSD, José de Filippi Júnior levou o PT de volta à prefeitura de Diadema, após oito anos. Por um lado, não chega a ser novidade: desde que foi criado, em 1980, o partido venceu sete das 10 eleições no município do ABC paulista, com 426.757 habitantes em 2020, segundo estimativa do IBGE. Quatro dessas sete com o próprio Filippi, secretário de Obras em outras duas. Ele também foi deputado (federal e estadual) e secretário municipal de Saúde em São Paulo (gestão Fernando Haddad).

A legenda foi responsável pela administração de Diadema em quase metade da história do município, hoje o 13º mais populoso do estado. Em 60 anos de prefeitura, 26 tiveram gestões petistas. A emancipação em relação a São Bernardo veio no final de 1958, após plebiscito, e o primeiro prefeito tomou posse em 1960.

Mas a vitória eleitoral, que também veio em Mauá, acontece em um momento particularmente importante, de questionamentos do PT. Internos e externos. Filippi admite dificuldades. Diz que o partido perdeu espaço “nos corações e na mente” das pessoas, mas ressalta também os vários ataques sofridos, via mídia e Judiciário, nos últimos anos. E mantém o otimismo, apontando a simbologia da vitória em Diadema.

Trabalho e diálogo

Para Filippi, 63 anos completados em 2 de junho, o PT vai recuperar força política por meio do diálogo com a sociedade. E, particularmente, mostrando os resultados positivos das gestões do partido no dia a dia das pessoas. Coisas concretas, como melhoria das condições de vida. “O povo vai perceber que a boa política foi praticada na época do PT”, afirma.

Será um grande desafio, com economia fraca e pandemia forte. De imediato, o fim do auxílio emergencial atingiria entre 25% e 30% da população diademense. E há também o objetivo de refazer pontes para fortalecer o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. No novo mapa político, a região tem agora três administrações do PSDB (Santo André, São Bernardo e São Caetano, neste último caso ainda com pendência na Justiça Eleitoral), duas do PT (Diadema e Mauá), uma do PL (Ribeirão Pires) e uma do Podemos (Rio Grande da Serra). A prática do dialogo começará pelo ABC.

Diadema foi a primeira prefeitura conquistada pelo PT, nas origens, em 1982. Neste momento em que o partido é tão questionado, de alguma maneira, o senhor vê alguma coincidência histórica, algum simbolismo, uma importância adicional nessa vitória?

Eu considero que a eleição teve sim, muito simbolismo e ao mesmo muito conteúdo político. Foi aqui que aprendemos a administrar, a governar, vivemos as contradições. E também foi a primeira cidade a ter um prenúncio de um questionamento e um retrocesso político que o PT viveu. Depois de 30 anos de poder, teve uma certa fadiga. Em 2014, por outras razões, o PT sofreu um ataque muito orquestrado. Mídia, Judiciário. Quem olha de fora (do país), como vai analisar que um juiz que prende um ex-presidente vira ministro de seu maior adversário? Ele (PT) perdeu um espaço nos corações e na mente do povo brasileiro. (Houve uma) ação de criminalização. Fomos perdendo essa reputação. Vivemos momentos difíceis. A nossa vitória aqui é motivo de esperança para o PT e, ouso dizer, para o Brasil. É preciso que ele se recomponha. Seis gestões do PT mudaram a cara e o coração, a cara e o conteúdo da cidade.

O PT reconquistou Mauá, além de Diadema. Como vai ser a convivência das prefeituras petistas principalmente com as administrações de São Bernardo e Santo André, que são do PSDB? Não sei se o sr. concorda que houve certo esvaziamento, dos órgãos da região, o Consórcio Intermunicipal, a Agência de Desenvolvimento… Como fazer para reativar essas organizações?

De fato, houve um enfraquecimento, uma perda de prioridade, de todos os prefeitos, em relação ao Consórcio. E lamentavelmente acho que isso aconteceu na contramão em relação ao mundo. Em relação à governança regional, metropolitana. Tenho muita esperança, e vou tentar contribuir para isso, para que a gente volte a ter essa governança. Nunca tivemos hegemonia de um partido (na região do ABC). Quando tivemos cinco gestões do PT, indicamos o prefeito de São Bernardo, que era do PSDB, para ser presidente do Consórcio. Ali não deve ser local de disputa partidária, mas de governança unitária. Temos quarto partidos representados e precisamos estabelecer relações republicanas, democráticas, técnicas, buscar articulação com o governo estadual e com o governo federal.

Qual a prioridade da administração ao assumir em um cenário de economia combalida e pandemia ainda em alta?

Vamos enfrentar duas crises… A sanitária, temos uma segunda onda. Aqui, meu desafio para mim vai ser fazer diferente do que o atual prefeito. Aumento de testagem, apoio aos profissionais de saúde, com equipamentos de proteção individual. E a diminuição da atividade econômica significa problemas para os pequenos empreendedores, os comerciantes, lojistas. Vamos conversar, com sensibilidade. Também estou olhando com esperança que a vacina possa ser uma realidade a partir do meio do ano que vem, quem sabe um pouquinho antes. E na questão do auxílio emergencial, a perda será dramática (o governo federal reduziu o valor pela metade, de R$ 600 para R$ 300, desde setembro, e pretende extinguir o benefício a partir de janeiro).

O sr. tem estimativa do impacto que pode representar a perda do auxílio no caso de Diadema?

Diadema tem 430 mil habitantes. Tem 119 mil cidadãos e cidadãs recebendo o auxílio. São 19 mil no Programa Bolsa Família. E 9 mil recebendo BPC (benefício de prestação continuada). São quase 150 mil pessoas recebendo algum tipo de transferência de renda.

Não é de hoje, em toda eleição isso se repete na mídia: o PT precisa de renovação, ou reinvenção, ou autocrítica.. Por sinal, se fala muito em relação ao PT, mas não sobre outras legendas. Mas precisa, de fato, dessa renovação?

Pois é, o PT sempre gera esse tipo de polêmica e de destaque. Sobretudo, para nos atacar, (com algo) que está acima do que está acontecendo na realidade. Sou muito otimista com a recuperação da força política do PT. As pessoas vão reconhecer o legado das políticas do PT na vida delas. E temos um governo (federal) tresloucado, com sinais claros de fascismo, desrespeito à democracia. Tiraram os direitos trabalhistas, tiraram o direito da Previdência. Câmbio alto, inflação voltando, preços dos alimentos. Mas este é um ano atípico. Um ano em que as crianças não foram à escola, em que quase 180 mil pessoas já perderam a vida. Dentro de um incêndio, as pessoas querem preservar sua vida. () dificuldade para uma análise, tem uma neblina… Do ponto de vista dessa simbologia, quero propor essa questão do legado, das coisas concretas. Não tenho dúvida dessa reaparição do legado do PT. Mas também temos de ter mais diálogo, com a juventude, com a sociedade, discutir a questão racial, LGBTI. O povo vai perceber que a boa política foi praticada na época do PT. Não estou voltando pra fazer igual, quero fazer o melhor dos quatro mandatos. Usar estrela do PT não quer dizer um atestado de idoneidade. Ninguém pode ter medo de ser investigado ou questionado com relação ao uso do dinheiro público.

Voltado ao cenário nacional, o sr. acredita, sem falar em nomes, que haverá em 2022 menos espaço para a extrema direita representada por Bolsonaro? E a esquerda, conseguirá se articular em uma frente?

Esse governo não tem agenda para se recompor e ter representatividade. A agenda dele não cabe no que o Brasil precisa. É a agenda da Emenda 95 (do teto de gastos). Só vai piorar em relação à avaliação popular. Tenho certeza de que vai chegar enfraquecido. Agora, temos que ter a capacidade e também a humildade de procurar as forças. A gente vê um Flávio Dino tendo um comportamento de maturidade. E um Ciro Gomes mostrando que não mudou. Vamos ter muitas dificuldades para formar uma frente de esquerda, mas temos de insistir. É isso que tenho ouvido do presidente Lula e outros. Acho que vamos ter que ter juízo. O Psol, com a votação expressiva de Guilherme Boulos, o resultado em Belém, que a mídia tentou diminuir. O PDT, para ver se consegue ter o mínimo de racionalidade com o Ciro. Quem sabe a gente possa ter o PSB em vários setores. Nesta eleição ganhou a direita mais civilizada, mais comportada. Ou mais esperta, melhor dizendo.