O bem que faz

Impactos do vinho na saúde dos que o apreciam com moderação

O cardiologista gaúcho Jairo Monson de Souza Filho, estudioso entusiasta da bebida, fala sobre pesquisas científicas que afirmam ser o vinho, em doses moderadas, um aliado da saúde

Pixabay | Arte RBA

São Paulo – O cardiologista Jairo Monson Filho é um entusiasta do vinho desde a adolescência. Quando se tornou médico, passou a ser um “curioso” autodidata, como gosta de se autodenominar, sobre os efeitos do consumo de vinho na saúde humana. Tanto que, há alguns anos, escreveu o livro Vinho é saúde!, obra premiada pela organização internacional Gourmand Awards, em 2014/2015, na categoria Drinks & Health Book.

O livro não está mais disponível para venda, mas esse gaúcho de Porto Alegre continua dando palestras e escrevendo sobre o tema em publicações brasileiras. O amor pelo vinho é tanto que, há 30 anos, ele mora no coração de uma das principais regiões vitivinícolas do Brasil: o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha.

Nesta entrevista, o cardiologista explica a razão de a bebida fazer bem à saúde, além de abordar aspectos negativos de consumo de vinho: “Consumir bebidas alcoólicas abusivamente é condenável e trágico”, sentencia.

Confira a entrevista

Quando o vinho começou a fazer parte de sua vida?

Desde a juventude. Foi amor à primeira vista. Há 30 anos escolhi viver no Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, e desde então convivo com os viti e vinicultores. Sinto de perto todas a dificuldades que essas pessoas encontram para produzirem coisas maravilhosas. Não bastassem as imposições do clima e da geografia da região, enfrentam a concorrência dos importados, a falta de incentivos do governo e as altas taxas tributárias. A tenacidade desse pessoal é comovente e envolvente.

A maneira que encontrei de me envolver com a comunidade que me acolheu tão generosamente foi estudar e tornar público os benefícios do consumo leve e moderado de vinho, e os riscos do consumo abusivo ou por quem não pode fazê-lo. Consegui conciliar duas das minhas grandes paixões: a medicina e o vinho.

Há inúmeras pesquisas sobre benefícios do consumo de vinho à saúde. Como e por que o vinho faz bem à saúde?

Se bebido regular e moderadamente junto com as refeições por pessoas que não tenham contraindicação ao consumo de álcool, o vinho traz benefícios, sim. Algumas dessas pesquisas têm grande consistência científica. As principais virtudes terapêuticas do vinho se devem à ação do álcool e dos polifenóis (substâncias resultantes dos processos metabólicos das plantas, antioxidantes naturais que contribuem para a regeneração celular. No caso da uva tinta, está presente principalmente na casca).

O que torna o vinho uma bebida e um alimento diferente de todos os outros são os polifenóis, pela quantidade e pela ação harmônica e sinérgica que têm com o álcool. Tão verdade quanto o consumo abusivo de bebidas alcoólicas ser danoso é que a ingestão leve, moderada e responsável, por quem não tenha contraindicação ao seu consumo, agrega ao prazer de beber benefícios para saúde.

Qual vinho?

Podemos colocar qualquer vinho (branco, rosé, espumante e tinto) no mesmo patamar no aspecto da saudabilidade?

Não, se formos nos ater a detalhes. Os maiores, mas não os únicos, responsáveis pelos efeitos benéficos do vinho para a saúde são os polifenóis, o álcool e a interação harmônica entre eles.

Os vinhos tintos, pela maneira como são vinificados, têm mais polifenóis que os rosés e estes, que os brancos. Mas existem alguns efeitos como a melhora da função pulmonar, que é mais intenso nos brancos.

A única diferença, em termos de saúde, dos vinhos tranquilos (não espumantes) para os espumantes é a presença de gás carbônico nestes últimos. O gás carbônico aumenta a velocidade de absorção do álcool pelo organismo e as enzimas digestivas, favorecendo um pouco mais a digestão.

Podemos ver esses mesmos benefícios na uva in natura e no suco de uva?

Não. São todos muito saudáveis, mas são diferentes. O suco de uva não tem o álcool e, por isso, não tem, de maneira marcante, alguns dos efeitos do vinho, como, por exemplo, o aumento do colesterol HDL (o bom). Os efeitos que se devem aos polifenóis, como a diminuição da oxidação do colesterol LDL (o mau), é uma ação dos polifenóis e, portanto, o suco de uva também tem.

O álcool é o que melhor extrai os polifenóis da uva, pela afinidade química. Considero a uva a rainha das frutas por sua rica composição de macro e micronutrientes. Ela é a fonte dos polifenóis e do álcool do vinho. Mas, infelizmente, o organismo não sabe extrair de maneira eficaz os polifenóis da uva e, com isso, não temos os efeitos que o vinho e até mesmo o suco de uva têm.

Bom para tudo

Numa palestra, o senhor citou uma pesquisa realizada no Brasil sobre consumo de vinho trazer benefícios ao intestino.

As pessoas que bebem vinho regular e moderadamente junto com as refeições têm menos doenças inflamatórias e câncer do intestino. Isso foi demonstrado por vários pesquisadores em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil.

Há uma série de manifestações clínicas que estão relacionadas à alteração da flora intestinal. O vinho é uma bebida funcional (contém substâncias que beneficiam o organismo) e melhora muito significativamente a microbiota intestinal conforme foi demonstrado em vários estudos.

Qual é a dose diária recomendada de vinho? Por que mulheres devem beber menos que homens?

Não há consenso entre os cientistas e nem entre as autoridades sanitárias sobre qual a dose de álcool segura. Isso é muito individual, depende de muitos fatores tais como gênero, idade, massa corpórea, constituição gênica, tipo de bebida, padrão de ingesta – velocidade de consumo, se junto com alimentos etc. – e uso regular de alguns medicamentos. Deste modo, o que pode ser consumo moderado para um pode ser abusivo para outro.

Mas o Dr. Arthur Klatsky (cardiologista americano), um dos maiores pesquisadores do assunto, considera que é seguro para a maioria dos homens até 30 gramas por dia de álcool (300 ml de vinho a 12,5 ºGL) e 20 gramas por dia de álcool (200 ml de vinho a 12,5 ºGL) para as mulheres.

As mulheres têm uma estrutura biológica diferente da dos homens. Elas costumam ter menor massa corpórea, menos enzimas que metabolizam (eliminam) o álcool e um percentual maior de gordura corporal. Como o álcool não é solúvel em gordura, nas mulheres ele se concentra mais nos outros tecidos. Por isso tudo é que as mulheres, no geral, são menos tolerantes ao álcool.

Doses moderadas

O que é mais prejudicial: beber todos os dias uma dose ou beber tudo o que se tem direito no fim de semana? Há gente que defende a ideia de que é preciso dar um descanso ao fígado…

É mais saudável beber vinho regular e moderadamente junto com as refeições. Beber muito em pouco tempo é danoso para a saúde! Cerca de mil substâncias já foram identificadas no vinho. E dentre elas existe apenas uma em quantidade capaz de causar dano no organismo: o álcool. É com ele que precisamos ter cuidado.

O álcool é absorvido, quase que na totalidade, no antro (porção distal do estômago) e duodeno (porção inicial do intestino), e metabolizado no fígado fundamentalmente por duas enzimas. Se a quantidade de álcool que chegar no fígado for maior que a capacidade de metabolização dessas enzimas, teremos problemas. Se chegar no fígado uma quantidade de álcool que as enzimas conseguem metabolizar, então o organismo lidará bem com isso e poderemos usufruir de seu benefício.

É importante saber que a presença de alimentos no estômago retarda em muito a absorção do álcool. Dessa forma, o etanol é absorvido mais lentamente e as enzimas têm mais tempo para desdobrar o álcool em substâncias não nocivas.

Outro dia, ouvi um importante comentarista de vinho dizer que não existem alcoólatras de consumo de vinho, por ele ser justamente uma bebida de mesa. Até que ponto isso é verdade?

Existem vários estudos cientificamente bem conduzidos e alguns muito elegantes mostrando que o índice de problemas pelo álcool (não apenas alcoolismo) é muito baixo entre os bebedores de vinho, quando comparados com outras bebidas alcoólicas. Pesquisas científicas que comparam as bebidas alcoólicas invariavelmente encontram que o vinho é a bebida que causa menos danos e traz mais benefícios.

Sempre com água

E a água? Qual é a importância de se beber água enquanto se degusta uma taça de vinho?

Quando se toma vinho também se deve beber água. O vinho não é uma bebida boa para matar a sede. A água é ótima para hidratar. E também lavar as papilas gustativas. Assim, melhoram as condições para apreciar os gostos do vinho, enquanto este é excelente para ressaltar os aromas e sabores de um prato, tornando a refeição mais prazerosa.

Água e vinho se complementam na refeição. Agora, se você me perguntar: é melhor beber água com ou sem gás? Digo que tanto faz, depende do gosto. A diferença é que a presença de gás carbônico aumenta a absorção do álcool.

Agora, partindo para os aspectos negativos, no longo prazo, quais os danos que beber vinho rotineiramente pode trazer à saúde?

Consumir bebidas alcoólicas abusivamente é condenável e trágico. É uma das principais causas de mortes violentas (acidentes e homicídios) e doenças evitáveis (cirrose, hipertensão arterial, cardiopatias, alguns tipos de cânceres e danos cerebrais).

O consumo exagerado de bebidas alcoólicas por gestantes causa malformações severas no feto. Além dos prejuízos para a saúde, traz danos expressivos à família e sociedade. Consumir vinho abusivamente é infausto.

Desse modo, abdicam-se dos prazeres organolépticos e renunciam aos benefícios para a saúde que ele pode oferecer. Moderação é a arte de viver bem.

Outros cuidados

E na dentição?

Os principais ácidos encontrados no vinho costumam ser o tartárico, o málico e o lático, justamente os mais corrosivos. Os danos provocados no esmalte estão relacionados com o tempo de exposição, principalmente se superior a 120 segundos.

A saliva é uma das defesas do organismo contra essa erosão, e a presença demorada de vinho na boca inibe a produção de saliva. Por outro lado, pesquisas mostram que os polifenóis ajudam a inibir cáries e gengivites. Por isso, enólogos e enófilos costumam ter dentes mais fracos e sensíveis, pela erosão do esmalte, porém poucas cáries e doenças periodontais.

Minhas recomendações para se evitar esses problemas são beber sempre junto com alimentos, ficar com o vinho na boca apenas o tempo suficiente para desfrutar o seu buquê, escová-los sempre que possível, bochechar colutórios alcalinos e aplicar resinas protetoras e/ou vernizes com flúor.


Adriana Cardoso é jornalista com mais de 20 anos de estrada, além de enóloga formada pelo Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia de São Paulo, campus São Roque. Fez estágio na Villa Francioni, vinícola localizada na região conhecida como Vinhos de Altitude, na Serra Catarinense, e hoje aventura-se a escrever e falar sobre vinhos, além de dar consultoria em comunicação para vinícolas e outros negócios do vinho.